Vamos ser amigas?

Um Carnaval de apoio feminino

Ilustra de Shiko

Os tempos estão mudando. O Carnaval acaba de passar e foi lindo sentir como nós, mulheres, estamos cada vez mais unidas, acabando com o papo demodê de rivalidade feminina que tanto pregam por aí. Não é uma tarefa fácil, é preciso reconhecer. Ainda estamos em constante evolução, aprendendo a nos libertar de antigos comportamentos machistas e ficando livres para sermos nós mesmas. Há algum tempo eu venho me alertando para boicotar esses maus hábitos que moravam dentro de mim, logo em seguida compartilhei as ideias com as amigas e hoje estamos juntas nos apoiando para fazer desse um lugar melhor para todas nós.

Nesse Carnaval, mulheres maravilhosas passaram pelo meu caminho. Teve a Dani, que tinha acabado de sair de um relacionamento e ainda não sabia como seguir em frente — em plena ladeira de Olinda! Trocamos confidências e nos apoiamos naquela loucura de Carnaval, nos despedindo com abraços e palavras de incentivo de quem entende o que a outra está passando. Teve aquele grupo de amigas fazendo xixi entre os carros que se dispôs a também fazer barreirinha para mim. Meu muito obrigada. “Tamo junto” nessa missão arriscadíssima de ter que abaixar a calcinha no canto da rua, em meio a tanto macho bêbado. Teve aquela odalisca que passou pela minha amiga e soltou um exagerado e bem humorado “VOCÊ TÁ LINDAAA”. Você também estava linda, amiga odalisca, e fez outra mulher se sentir melhor com ela mesma, quer mais lindeza que isso?

Já o comportamento dos homens está bem atrasado, mas temos que nos manter fortes e (re)ensinar direitinho como se comportar em sociedade. Teve homem agarrando à força, teve homem querendo usar beijo como moeda de troca, teve homem falando asneira e sendo rude. À esses, restou meu muito educado “não estou a fim”. Bem simples e sincero, afinal, eles já são grandinhos para entender que não significa não, sem precisar de outros argumentos para disfarçar a minha não-vontade de beijar o indivíduo. “Não, eu não tenho namorado”, “Não, eu já olhei direito para você”, “Não, eu não quero trocar um algodão-doce por um beijo”(!), “Não, minha amiga e eu não somos um casal” (e mesmo que fôssemos, eu não daria um beijo nela para provar nada à você, ué). Um único cidadão ainda tentou forçar uma ficada e, visto que eu não teria forças para impedir, falei de modo firme: “você vai mesmo me forçar a ficar com você?”. O cara me soltou e sumiu. Que tal você também mudar as suas respostas? Paciência, amigas, um dia todos aprenderão. A boa notícia é que eles foram a minoria nesse Carnaval. Grande parte dos homens sabia jogar charme, conquistar, e o mais importante: respeitar.

Mas a cena que fez a minha ficha cair sobre a nossa união nesse Carnaval foi uma coisa boba, que aconteceu quando passávamos por um aperto na multidão. Um rapaz insistia em me beijar no meio do burburinho e diante meus vários “não estou a fim”, ele me olhou bem e disse com desdém antes de desistir: “isso tá caindo da sua cara, tá horrível” — indicando as lindas pedrinhas de strass que enfeitavam o meu rosto. Passou longe de me doer, mas foi um comentário desnecessário. A melhor parte foi que uma menina ao meu lado viu tudo e disse: “não tá horrível coisa nenhuma, vem cá que eu ajeito. Pronto, tá linda!”. Foi um gesto com tanta sensibilidade da parte dela que eu gostaria de ter agradecido à altura na hora. Obrigada, amiga de Carnaval. Seja lá quem você for, precisamos de mais amigas assim no mundo.

Talvez os homens nem entendam o valor do que conto aqui, mas para mim, que estava acostumada a chegar em um lugar e ser julgada da cabeça aos pés pelos olhares das mulheres, significa que as coisas estão mudando. Meus quatro dias de folia se passaram com muito apoio feminino. Teve elogio gratuito das fantasias, das maquiagens e dos cabelos, teve incentivo para pegar o boy, teve ajuda para comprar cerveja, teve apoio para fazer xixi, teve troca de confidências, teve dancinha sincronizada e muito mais girl power. Liberdade feminina sem julgamentos, sem rivalidade e com muito glitter e pedrinhas de strass. Meu obrigada às mulheres que andavam comigo e também àquelas que esbarrei pelo caminho, vocês são mesmo incríveis! Vamos ser amigas?