A CANETA E A BALA

Ontem fui assistir ao filme acerca da “Operação Lavajato”, Polícia Federal — A lei é para todos. Assim que me acomodei percebi que aquilo não se tratava apenas de mais um mero filme baseado em fatos reais. “Cabeças brancas” faziam-se presentes naquela sessão, e os poucos jovens que ali estavam tinham um ar de sobriedade e sensatez característicos de maturidade. Então começou, e, não… aquilo não seria apenas mais um mero filme.

A vergonha nacional, a podridão que são nossos representantes, antes nos mostrada à conta-gotas no dia-a-dia, começou então a ser costurada e jogada ali, na nossa frente, de uma só vez. Eu tentava classificar aquilo num gênero. Considerando que o cinema é uma arte e que as artes são para evocar sensações, olhava ao redor pra me certificar do que sentia o público, mas em vão. Não havia uma classificação específica para aquilo. Exteriormente não sabíamos nos exprimir nem nos expressar diante daquele enredo, estávamos confusos. Ríamos, chorávamos e nos revoltávamos, mas não era dramático, não era inspirador, não era cômico. Era a nossa vida ali na tela, o futuro dos nossos filhos e netos sendo ali delineado. Então conclui que aquilo não era apenas uma arte, mas um “acto” que descia do palco, ganhava à plateia e ecoava sua voz extramuros. Era um manifesto, político, mas apartidário, por uma só boca gritado, mas representando milhões de vozes.

Ao final, com as letras de produção já escorrendo na tela, ainda nos detínhamos ali sentados, talvez tentando nos recompor pra seguir em frente, voltar a viver. Alguns enxugavam os olhos, outros sorriam sem graça, e outros, frios, sem qualquer expressão no rosto, permaneciam sentados numa fúnebre mudez. “As cabeças brancas”, já decadentes, começaram então a se levantar sem pressa, aparentando estar envergonhadas do que sua geração fizera ao país; no canto dos lábios retraídos prendiam o angustiante choro de decepção. Os jovens, conscientes do árduo cenário que os esperava lá fora, desciam as escadas em passos lentos, já procurando no celular qualquer fútil novidade pra distrair a cabeça e não perder a noite de quarta-feira ainda lá fora a correr.

Voltamos pra casa calado, e no caminho nos aborda uma mulher com um garoto desnutrido à tiracolo pedindo esmolas ___ “Estão em casa mais três com fome, senhor”. Minha esposa começa a chorar, pois aquilo era a gota d’água do nó na garganta contido, da angustia na alma abafada. Eles nos olham curiosos e depois de dá-los trêmulo uma pequena ajuda, seguimos em frente desabados.

Bom, por fim, é isso. Mas você deve estar se perguntando o que tem isso tudo a ver com o título “A caneta e a bala”. Pois bem, a moral do filme é que os crimes de maior danosidade são cometidos por meio da caneta (crimes de colarinho branco) e não das balas; que atualmente há no país uma batalha, em que canetas boas tentam conter as canetas da maldade; que, no entanto, as principais canetas que Constitucional e “Republicamente” tem o dever nos proteger estão impregnadas e contaminadas de uma tinta venenosa e mortal, sendo praticamente impossível as subalternas poucas canetas boas contra as mesmas porfiar. E, embora não sem dor, o que concluo é que quando as canetas boas falham na batalha contra canetas ruins, inevitavelmente chega uma hora em que as pessoas, instintivamente, deixam de acreditar nas canetas e partem pra bala. Pois como tão bem transcreveu-se na abertura do filme o grande Rui Barbosa,

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”