Doenças do Tempo

Depressão, Ansiedade e “Depreciação”

Num texto que lia há uns dias atrás, Michele Müller* discorria, saborosamente, sobre o pensamento do filósofo Alan Watts, para quem “felicidade é estar presente”. E, pondo-me a observar ao redor, percebi que, realmente, há muita gente infeliz por aí viajando no tempo; e que, mais do que imaginamos, e mais do que deveríamos, ficamos nele aprisionados - ora no passado, saudosistas, ora no futuro, ansiosos.

O problema dessa “alienação no tempo” é que talvez seja ela a responsável pelas três grandes doenças da sociedade contemporânea: a depressão, a ansiedade e a “depreciação”.

Todas elas talvez sejam “doenças do tempo”: a depressão, um sofrimento de perda, em que um “algo bom” se foi, e a pessoa fica aprisionada numa cela temporal, lamentando-se pela vida que tivera; a ansiedade, um sofrimento de conquista, em que a vida ideal, ou um “algo bom” encontra-se num “coelho temporal diabólico”, que está sempre adiante, inalcançável; e a “depreciação”, nesse contexto, um sofrimento “de fora”, que atinge o doente viajante em razão da sua ausência no controle e valoração da sua própria vida. As duas primeiras, autoinfligidas; e a última, extra infligida.

É como se estivéssemos num trem imparável. O depressivo olha nostalgicamente pela janela dos fundos, e o ansioso, pela vidraça da frente, enquanto as atividades e as coisas que realmente importam passam despercebidas além das janelas laterais e deterioram-se, depreciam-se, no interior dos vagões.

Não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se a pessoa aprisiona-se no passado, “já foi”, ou no futuro, “ainda não é”, logicamente, estará ausente no presente, “no que é”.

Sendo abstrações mentais o passado e o futuro, o presente é a única dimensão temporal onde, de fato, há vida. Se me alieno numa abstração mental, ausento-me da dimensão real, e, ausente, minha vida fica às moscas.

Parece-me, entretanto, que o filósofo Alan Watts apenas fala de uma constatação e não de uma forma de viver. Na constatação ele fala de “estar presente” como resultado da felicidade e não como meio para senti-la ou alcançá-la. Se a vida é boa aos nossos olhos, naturalmente nos fazemos presentes; se é ruim, instintivamente fugimos e nos alienamos no tempo.

Mas se é assim, como então tornar esse conhecimento, esta constatação, útil, já que a pessoa age instintivamente nas adversidades ausentando-se e, ausente, sua vida deprecia-se? Como terá motivação para sair da prisão temporal e viver o interior do trem e a despretensiosa beleza das janelas laterais?

Geralmente esperamos tal motivação numa excepcional eventual paisagem; numa milagrosa e chocante mudança de ares. Apegamo-nos, em nossas orações e sonhos, ao advento da felicidade como motivo para sermos felizes. Avistamos o “ideal de felicidade”, redundantemente, como meio pra ser feliz, e talvez esse seja nosso erro. Esperamos de Deus a mudança de paisagem, da vida como ela é, em vez de, talvez, pedir a mudança na forma de ver as coisas, a mudança das janelas, para que, mais amplas, possamos ver aspectos e detalhes não vistos.

Para sermos felizes, talvez não precisemos viver, necessariamente, sem adversidades na vida e, muito menos, no centro de aparentes extraordinários eventos. Para estarmos presentes, talvez não tenhamos de ter milagrosos e estupendos motivos. Talvez precisemos apenas que Deus nos faça ver, na singeleza e simplicidade do cotidiano, os motivos que já existem e não enxergamos.

* http://www.pensarcontemporaneo.com/o-dominio-sobre-atencao-no-controle-da-ansiedade/