O Tempo e os Sonhos

Lamentos de um Nonagenário

Os tempos

Já me são passados;

Os sonhos, não os tenho mais.

E vou existindo mesmo assim,

Sem tempo…

E sem sonhos.

Um depende do outro,

E os dois dependem de mim.

Mas como podem existir,

Se me perdi

Pelo caminho?

Não. Pra mim não pode mais haver

Nem o tempo

E nem os sonhos.

Pois perdi-os ao perder

-me

Aos poucos por aí.

Ao ver partir, um a um

Os motivos,

Pra levantar-me de manhã

E viver;

Ao bater

Na porta dos amigos

E não mais os ver

Abrir.

Tenho, até que tenho,

Novos amigos novos;

Sobrinhos-netos, bisnetos, enfim…

Que até nutrem carinho por mim,

Que até me querem bem, eu sei;

Mas, nunca,

A despeito dos velhos amigos que se foram,

Saberão, de antemão, o que pensei.

Ao lado deles sou um intruso

Uma visita tardia a incomodar

Que, fora do seu tempo,

(sou d’outro tempo)

No tempo deles a sonhar.

Então, por isso, então, não sonho mais

No tempo alheio sonhos meus

Vivo agora a vida deles

Porque a minha se perdeu.

Não tenho tempo, sou d’outro tempo

E me contento com o meu

Destino.

Sou um idoso, a um passo da morte

Mas que teve sorte. Sorte?

Não sou mais menino.

Eu sei das coisas

Não me iludo

Não sei de tudo

Mas disto eu sei:

Não tenho tempo, sou d’outro tempo

Mas vocês não sabem o que passei.

Então respeitem

Minha velhice

Minha cafonice

O meu viver

Não tenho tempo, sou d’outro tempo

E já estou partindo,

Ao amanhecer.