TIQUELINQUE

O Bem-te-vi

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Há em casa muitos pássaros — não presos, soltos; e a cada dia aparecem mais e mais, à conta-gotas ressabiados. A maior parte são pintassilgos, mas há também papa-capins, trinca-ferros, sanhaços e bem-te-vis.

Tiquelinque é um desses; um bem-te-vi com o característico peito amarelo, mas com um exótico topete amarelo-sulfúreo-avermelhado. Ele foi o primeiro a chegar e fazer do quintal um recanto pra se refugiar de sabe-lá-o-quê.

Lembro-me que era uma tarde chuvosa quando ele apareceu. Da rede da varanda eu apreciava o pomar embebedar-se nas rajadas de vento molhado, quando, de repente, impulsionado numa dessas rajadas, Tiquelinque veio “kamikazeando” bater em cheio na minha cara. Pulei assustado com aquilo, já o tirando, por reflexo, da boca do meu cãozinho “Rei Bob Marley e Eu Thidows Nicoti”, e entrei rápido pra socorrê-lo.

Tiquelinque estava esculhambado. Asa quebrada, cabeça sangrando e o rabo sem penas. Fiz os primeiros socorros e o pus num ninho improvisado dentro de um tronco oco do jardim. Eu e “Rei Bob Marley e Eu Thidows Nicoti” acompanhávamos, embora com propósitos diferentes, seu prognóstico e recuperação. Não achei que amanhecesse no outro dia, mas amanheceu, entardeceu e foi aos poucos se recuperando com o passar dos dias.

Assim que estava totalmente curado, no entanto, levantou tenda e se foi clandestino. Achei aquilo uma desfeita por demais injusta, pois “que pelo menos despedisse antes de partir, oras!”, isso era o mínimo de gratidão que eu esperava pela hospitalidade.

Mas os dias foram se passando, e numa tarde entediante de domingo, para minha surpresa, ele retornou. Chegou feliz e enérgico, cantarolando um “bem..te-vi” como eu nunca ouvira. Desfilava garboso na galha baixa do mexeriqueiro enquanto cantava, dando-me a impressão de que se sentia grato e seguro. A partir dali não seriam mais entediantes as tardes de domingo, nem tão frias e caladas as manhãs de inverno; e aquilo era deveras maravilhoso, ter assim tamanho privilegio de ouvi-lo tão às portas.

Como, infelizmente, nem tudo na vida é flores, com o tempo fui desconfiando de que talvez Tiquelinque não fosse de tudo certo da cuca. Em determinadas horas do dia ele assobiava trinados atípicos para sua espécie, e o que mais me impressionava era que, após os trinados, começavam a chegar mais pássaros no quintal; no início, outros bem-te-vis, mas, depois, canoros das mais diversas raças.

Impressionado com isso e desconfiado de que talvez eu é que estivesse ficando louco, tangi da cabeça tamanha fantasia, dizendo pra mim mesmo que os pássaros vinham por causa do outono, que começava já salpicar a ciriguela de cores e frutos. Mas quando o outono se foi e ainda assim permaneceram ali, em clã, aquela tão atípica família, minha instigação aumentou ainda mais. Como podiam viver em bando tantos pássaros diferentes? E porque aceitavam tão leais a liderança de um bem-te-vi?

Então, assim, depois de muito observar, foi que rascunhei uma nem um pouco sensata explicação. Após Tiquelinque chegar um dia com um pintassilgo troncho da asa foi que passei a observar os demais. Todos pareciam ter algum problema que os tornava vulneráveis lá fora — cegos de olho, mancos de perna, tronchos de asa, e Tiquelinque, assim, parecia estar transformando meu quintal num campo de refugiados para pássaros.

É… e hoje estou aqui sentado na rede remoendo saudades. Faz mais de um ano que Tiquelinque saiu, clandestino como sempre, para sabe-lá-onde, fazer o que agora eu sei — salvar vidas. As laranjeiras estão salpicadas de passarinhos da nova leva do clã dos refugiados, e me alegro por saber que, seja lá onde se encontre, Tiquelinque deixou neste recanto um legado, e no meu coração uma lição de vida que nunca esquecerei.