Vícios e Demônios

Dias Tormentosos

1- Vivemos numa sociedade agressivamente capitalista, consumista e erotizada.

2- Em razão disso é que, talvez, nestes tormentosos dias, como em nenhum outro momento da história, as pessoas estejam sendo assim tão dominadas pelos vícios.

3- Embora a maioria seja ilegal ou imoral, alguns desses vícios estão se revestindo de novas roupagens e sendo amplamente apregoados como requisitos essenciais para uma vida de sucesso.

4- Drogas, consumismo, avareza, usura, luxúria, soberba e outros vícios têm se tornado pano de fundo para o que a sociedade moderna tem estabelecido no pensamento coletivo como “ideal persona” do homem contemporâneo — ser “descolado”, “antenado” e “empreendedor”.

5- E a grande, doída, e insuportável verdade de tudo isso é que, face a tamanha pressão e à mui sutil apregoação, talvez estejamos todos já por demais contaminados, uns por uns vícios e outros por outros.

6- Mas então o que fazer?

7- E o que são de fato os vícios?

8- Os vícios, ou pecados, são excessos ou deficiências nas virtudes; uma deformidade, um desequilíbrio.

9- Como o escuro é a ausência de luz, os vícios são a ausência do equilíbrio nas virtudes.

10- É a ganância, excesso do entusiasmo; a luxúria, excesso do desejo sexual; a cobiça, a falta da temperança; a soberba, a falta de humildade e ao mesmo tempo o excesso do orgulho próprio etc…

11- Ou seja, o vício é a deturpação do que naturalmente é bom, do que naturalmente Deus criou como uma coisa boa: desejo sexual, entusiasmo, orgulho próprio etc…

12- O vício é, portanto, a ofensa às dádivas divinas, aos presentes de Deus; é o cuspe na iguaria.

13- E por ser assim, como afrontas às dádivas dadas aos homens por Deus, tais vícios chegaram a ser comparados e relacionados (Peter Binsfeld — 1589) aos respectivos demônios que os representariam: Mammon — Ganância; Asmodeu-Luxúria; Belphegor-Preguiça; Lúcifer-Soberba etc…

14- Mas então o vício seria resultado de uma ação demoníaca?

15- Não sei. Talvez. Vejamos:

16- No “modus operandi”, ou “forma de agir” do mal humano, no cometimento de crimes, há, penso eu, três tipos de ações: Mão própria, Longa Manus (longa mão) e Astúcia.

17- Há bandidos que cometem crimes com as próprias mãos, assaltando, furtando, matando ect…

18- Há bandidos que os cometem como mandantes, através de prepostos, ou coagindo uma vítima a cometê-los por ele, como sua longa mão;

19- E há bandidos, “Astutos”, e aqui está a classe dos piores, que fazem outrem cometê-los, ardilosamente, astutamente, com “sopros aos ouvidos”, sombras, nos bastidores, através do induzimento e instigação.

20- Essa última classe não comete crimes com as próprias mãos, nem usa de violência ou coação nas suas condutas; apenas plantam pequenas sementes ou regam as que já existem.

21- Pensem num herdeiro que instiga sutilmente o ódio de seu coerdeiro em relação a um desafeto, fazendo com que seu coerdeiro mate esse desafeto, e, consequentemente, seja condenado à prisão. Ora, dificilmente esse astuto herdeiro será correlacionado ao crime e, estando o coerdeiro preso, será beneficiado com o crime, tornando-se o “herdeiro de fato” ou único administrador dos bens.

22- Nessa analogia com o mal humano, penso que o “modus operandi” dos demônios também segue tal lógica: Mão Própria, Longa Manus e Astúcia.

23- Há demônios que agem sem intermediários, de forma direta, em mão própria;

24- Há demônios que se apropriam do corpo e biologia das vítimas, anulando sua vontade e fazendo-as praticar atrocidades, como sua longa mão;

25- E há demônios mais inteligentes, que, assim como criminosos de alto nível, não deixa vestígios nem digitais; não agem com as próprias mãos nem coagem ou anulam vontades.

26- E por que agem dessa forma? E por que são mais inteligentes ao agirem assim?

27- Ora, se um bandido aperta o dedo de alguém num gatilho, fazendo-o atirar em outrem contra sua vontade, esse “alguém” será condenado pelo crime?

28- Se um bandido coloca uma arma na cabeça de uma criança para que seu pai cometa um homicídio, esse pai será condenado pelo crime?

29- Não, não serão condenados pelos crimes que cometeram sob coação.

30- Não sobrevirá condenação porque não se pode condenar uma pessoa que teve sua vontade anulada, subjugada por circunstância de coerção e coação irresistível.

31- Serão absolvidos com base na exclusão de ilicitude por inexigibilidade de conduta diversa, ou seja, por não ser razoável exigir dessas pessoas conduta diversa da que realizaram face às graves ameaças, coação e coerção a que estavam submetidas.

32- Diante disso, se o objetivo dos bandidos for o resultado direto do crime(homicídio, dinheiro etc…)terão alcançado seu objetivo; por outro lado, se o objetivo for a condenação dos coagidos, não terão alcançado, pois tais coagidos não serão condenados.

33- Assim, em analogia a essas teorias do crime, o intento dos demônios que se apossam de pessoas talvez seja apenas as atrocidades em si, e não a condenação das almas, pois esta, nestes casos, provavelmente não sobrevirá.

34- Não sobrevirá pelos motivos acima expostos acerca dos fundamentos da justiça humana, pois, sendo a justiça de Deus ainda mais aprimorada, não seria razoável inferir que uma pessoa possessa tenha sua alma condenada por atrocidades sem vontade livre praticadas e por força irresistível promovida.

35- Nesse raciocínio, para demônios mais inteligentes, como os correlacionados aos vícios, que objetivam primordialmente a condenação das almas, não seria interessante obrigar e anular a vontade das vítimas.

36- Então, para tais demônios, os pecados pelas vítimas cometidos seriam um meio e não fim em si mesmo; um meio para que corrompam suas próprias almas.

37- Sendo assim, agem como o herdeiro ambicioso e astuto do exemplo apresentado, apenas instigando sutilmente, de forma a não comprometer a vontade e livre arbítrio da pessoa, que, tendo liberdade e capacidade de resistir e não resiste, será condenada pelo feito;

38- Face ao exposto, nessa lógica, a correlação feita por Peter Binsfeld entre os vícios e os demônios que os representariam parece-me plausível. Nesse caso, tais demônios não se apropriariam dos corpos das pessoas, mas da vida; sendo mais inteligentes e calculistas que os demais, corromperiam não a carne, a biologia da pessoa, mas concorreriam de forma sutil e astuta para que a própria pessoa corrompa seu próprio caráter, sua própria alma, ao entregar-se aos vícios.

39- Mas, sendo tão sérios assim os vícios, como enfrentá-los então?

40- Bem, os vícios, parece-me, seria como uma doença, que, para ser enfrentada, penso, haveria na Bíblia previsão de uma vacina e de um remédio: um preventivo e outro repressivo.

41- A vacina é “orar e vigiar”, pois é preventivo, para não ser contaminado, influenciado por tais vícios e cair em tentação;

42- O remédio, por sua vez, é “orar e jejuar”, pois repressivo, para combatê-los quando já se se encontra contaminado, em tentação, sob a influência deles, os vícios.

43- Nessas fórmulas de combate aos pecados parecem haver duas substâncias, duas forças: a Divina, encontrada na oração, e a humana, evidente na boa vontade de vigiar e jejuar.

44- Ora, o poder de Deus é inexprimível, em parte incompreensível por nós criaturas, e ilimitado, mas Ele demonstra que não é somente poderoso, mas livre, e sendo livre e poderoso, faz o que lhe apraz; e entre as coisas que lhe apraz, deu ao homem o livre arbítrio, autolimitando Sua própria intervenção e concedendo ao homem liberdade.

45- Sendo assim, Deus tem poder de não deixar a pessoa cair em tentação e, se nela já caído, tirá-la. Mas penso que, em respeito ao livre arbítrio humano Ele se abstém de na vida da pessoa intervir sem ser solicitado — daí, assim, a importância da oração — “Não nos deixeis cair em tentação”.

46- Vejamos o seguinte: quando uma pessoa está POSSESSA por um demônio, estando subjugada a vontade humana e ativa apenas uma vontade maléfica sobrenatural, apenas a dimensão sobrenatural divina é suficiente para libertá-la; bastando assim um cristão verdadeiro e o poder do nome do Senhor Jesus para libertá-la.

47- Já, entretanto, quando a pessoa está sob a influência apenas da INSTIGAÇÃO demoníaca, sua vontade não está anulada, estando presentes na equação as naturezas sobrenatural maléfica e a vontade humana de permanecer no vício.

48- Sendo assim, se há, na situação, duas forças, sobrenatural ruim e vontade humana ruim, somente duas forças também poderão libertá-la, a sobrenatural do bem e a boa vontade humana; ou seja, a divina, que é a intervenção de Deus mediante a oração, e a dimensão humana, que é o jejum, a boa vontade humana em abster-se.

49- Assim, o termo “jejum e oração” talvez implique as citadas dimensões; a misericórdia e intervenção de Deus e a contrapartida de boa vontade humana, cujo livre arbítrio Deus não ignora, de abster-se do vício de cuja influência se quer libertar;

50- Ou seja, talvez o termo “jejum” não se refira apenas à pessoa que vai proceder à expulsão e nem a ficar com fome;

51- Talvez se refira também à pessoa que está sob a influência dos vícios, e à abstenção não de comida, mas da prática do específico vício a que tende a fraquejar e a entregar-se, seja do uso de drogas, da mentira, da luxúria, da gula, da avareza, da soberba;

52- Isso implicaria que nem o homem viciado se limpa apenas com sua boa vontade, por suas próprias forças, nem apenas com a imposição de mãos nas Igrejas, sem a contrapartida de sua vontade de enfrentar o vício e abster-se;

53- Mas se libertaria pela conjugação das duas vontades: a vontade Divina buscada na oração e sua própria boa vontade humana demonstrada na abstenção, no jejum.

54- Enfim, bem nos advertiu o Senhor para revestir-nos de toda a armadura de Deus para que pudéssemos estar firmes contra as astutas ciladas do Diabo.(Ef6)

55- Talvez a forma de ação maléfica de maior “danosidade” nos vem passando despercebida; apossando-se não do corpo, mas da nossa vida, disfarçada de normal e comum; e talvez estejamos doentes já há gerações.

56- Sem a vacina da oração e vigília, talvez tenhamos caído já há tempos em tentação;

57- Talvez, em tentação, estejamos nos entregando aos vícios sem luta, sem tomar o remédio da oração e jejum;

58- Enchendo as igrejas sem a contrapartida da boa vontade da abstenção extramuros;

59- Esperando de Deus uma libertação unilateral sem esforços.

60- Que Deus nos ajude a fazer a nossa parte.

Valmintas Bagaroth