Quando a prosa é poesia
Uma das definições do dicionário Aurélio para “poesia” é: “o que desperta o sentimento do belo”. Sem aprofundar em maiores explorações sobre esse conceito, vou abordar beleza como o que desperta em nós um estado de conexão interna, que acalma e entusiasma ao mesmo tempo. Que sacia e desloca. Que paralisa e movimenta.
Poesia e beleza estão estreitamente ligadas. Pode-se dizer que a poesia é o belo em travessia pelas coisas da vida, o que pode estar em muitos elementos do dia a dia: na disposição da decoração, no detalhe da mesa de jantar posta, no olhar em meio ao toque de carinho, na catarse do teatro, na palavra do poema. A poesia não está apenas nos versos. Na verdade, a poesia pode estar em toda parte. E muito da vida fica melhor com ela.
Por isso eu sou forte defensora de que as crianças tenham garantido desde cedo esse contato com o belo. E o livro infantil, com toda sua proposta de comunicação e arte, é um objeto com potencial para um transbordamento de poesia. Livros repletos de poesia deveriam ser um direito de todas as crianças.Como a poesia é maleável à forma, versátil e dinâmica, eu trago aqui, então, quatro livros de narrativas infantis em prosa e carregados de poesia e beleza.Para cada um dos livros, associo um aspecto da poesia:
Poesia é brincadeira e descoberta.
Poesia é sentimento.
Poesia é sonho.
Poesia é estranhamento.
- O MENINO QUE SABIA COLECIONAR (Poesia é brincadeira)

Poesia é brincadeira e descoberta. E é por isso que as crianças são e estão naturalmente repletas de poesia, com toda sua curiosidade, liberdade e espontaneidade. Poesia aqui está ligada à capacidade de se entregar e se encantar.
Esse livro é um mergulho doce em detalhes e encantamento. Mergulhamos junto com Nardinho, narrador personagem que tem a mania de colecionar. Só que ele não coleciona objetos, e sim palavras. E ele é muito criativo em suas descobertas. Coleciona palavras de bicho. Palavras de planta.Palavras duras, como morte e suco de beterraba. Também palavras azuis. E palavras difíceis, como ébano e falácia.Das palavras, Nardinho segue para outras coleções. Por exemplo: como madrugada era sua palavra preferida, ele começa a colecionar madrugadas.E depois uma coleção leva a outra. Uma descoberta leva a outra. Em um fluxo de menino livre e desapegado.
Uma coleção de que gosto muito é a coleção de “enquantos”: enquanto você lê esse texto, alguém come um algodão doce. Enquanto essa pessoa come, outra dá um mergulho no mar…Nardinho nos leva em brincadeiras: numa de Carnaval, ele joga as estrelas que colecionava para o alto. E, assim, inventa os fogos de artifício.
Com sua narrativa envolvente, com as ilustrações azuis que brincam em simplicidade, com o texto que corre aqui e ali na página, o menino que sabia colecionar cativa do início ao fim.E brincamos, assim, de poesia
ENTRE NUVENS (Poesia é sonho)

Quem já tem a poesia acordada vive assim mesmo: com a cabeça nas nuvens. E isso não significa desatenção e distração. É na verdade a cabeça de quem sonha. De quem não olha só para o chão e para a frente. De quem imagina o que vive no céu e o que vive além do olhar e do pensamento.
Os poetas são curiosos e filhos do sonho e da imaginação.E ela é assim também, a menina sonhadora que André Neves nos apresenta. Uma garota que vive admirando o céu, na cidade em que ninguém tem tempo para sonhar.Então, no dia em que as nuvens param sobre a cidade, ela não resiste e vai até a montanha mais alta, com intenção de tentar pegar uma nuvem.
Tenho em meu sonho de poesia uma crença de que os poetas, por sua fé e entrega à vida, conseguem muitas vezes acessar a magia da existência. E podem, assim, receber surpresas, como a da menina, que encontra um amigo que vê nela poesia, e que lhe faz um balão, para que ela possa voar no céu que tanto a encanta, e assim chegar até as nuvens.
André Neves tem essa grande capacidade de transformar imagens e histórias em poesia. E essa é uma obra que fala direto com o coração. E que nos enche de coragem de pegar também nossas escadas e correr atrás de nossas nuvens.De nossos sonhos.
A GRANDE FÁBRICA DE PALAVRAS (Poesia é sentimento)

Imagina uma cidade em que é preciso comprar as palavras para poder pronunciá-las. E que muitas vezes não importam o seu sentimento e a sua verdade, ou suas boas intenções. Pois lá, para pronunciar as palavras, é preciso ter dinheiro.
A história do menino Philéas se passa nessa cidade. Ele é apaixonado por Cybelle, mas não tem dinheiro para poder lhe dizer as palavras certas.Há muita e muita simbologia nesse livro. Na representação social do mundo em que vale mais o ter do que o ser. E no quanto as palavras e a linguagem são limitantes. Por mais que sejam belas, elas não conseguem nos significar por completo. Que coisa: a linguagem, que é por onde nos representamos, é limitante e incompleta.
Mas Philéas quer declarar o seu amor. A poesia então vai transbordar no sentimento que o une a Cybelle, de maneira mais independente das palavras.Ele tem algumas palavras que tinha catado por aí em um dia de vento. Será que servem? Será que vão conseguir representar o seu amor? Como pedras preciosas, ele as diz para a menina.
E o mais lindo é que nesse caso as palavras perdem o seu significado social instituído. Pouco importam os significados. Muito além das palavras, o que Philéas manda para Cybelle é todo o seu sentimento. O sentimento — o indizível — é que vai e é suficiente para dizer a sua verdade.Assim, por todo sentimento, representado com tanta beleza sutil, que está no texto cuidadoso e nas ilustrações fortes e delicadas, esse livro é também poesia.Como o vermelho das ilustrações, esse é um livro que pulsa.
A MAIOR FLOR DO MUNDO (Poesia é estranhamento)

“As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas”
Assim, com essa voz de sentença, é que começa esse livro de Saramago, o único que o escritor português direcionou para crianças. Essa voz externa sanciona a afirmativa, tida por muitos como verdade: na literatura para crianças, é preciso uma linguagem simples.Mas será mesmo?
Logo em seguida, o narrador continua, já se desculpando então por sua inabilidade em escrever de tal maneira simplificada. E adverte para seus leitores: se não souber as palavras, procure no dicionário. Ou fale com seu professor.
É fascinante esse posicionamento de seguir narrando com as tais “palavras difíceis” e incitar a criança a se movimentar para resolver essa dificuldade da linguagem. Afinal, no jogo da vida não ficcional, também nada é uniforme e simples. Tudo é desafio e novidade. Por isso é incrível o comentário do narrador sobre o dicionário e o professor. Tanto na leitura quanto em outros desafios da vida, não se preocupe, se ficar difícil, é possível buscar soluções. E às vezes as soluções podem ser bem gostosas inclusive. Por exemplo, que tal ler junto com alguém?
O leitor, então, que tiver coragem de se aventurar na linguagem mais rebuscada do livro, vai acompanhar a aventura do menino personagem, que também supera desafios como ninguém, e, em um passeio, vai além do rio, da casa, da vizinhança. Vai para além e lá no alto da encosta encontra uma flor. Uma flor murcha, que precisa de água.
Com a permissividade que vem da imaginação, da poesia e da representação literária, o menino vai até o Rio Nilo buscar água para a flor murcha. Mas quando retorna, há apenas três gotas em sua mão. Ele vai e volta então inúmeras vezes, porque a flor precisa de mais água.
Engraçado que, mesmo depois de contar sua linda história, o narrador retorna, pedindo desculpas de novo por não saber contar histórias para crianças.Mas será? Estará certa essa convicção de que as crianças não lidam bem com palavras diferentes e novas? Ou são os adultos que muitas vezes não acreditam no grande potencial de entrega e encantamento que as crianças têm e que pode lhes acender a curiosidade de buscar — por conta própria — o que ainda não entendem?
E, além do mais, esse deslocamento também pode ser poesia. Muitas vezes os efeitos poéticos nos chegam por meio de um estranhamento. Uma disposição inusitada e uma ordem diferente da habitual fazem acordar os sentidos à flor da pele da poesia, aqueles que são além dos óbvios, cotidianos, banais.Que tal, então, experimentar esses desafios poéticos? E aprofundar na poesia dessa flor maior do mundo, surgida da grandeza da coragem do menino?
Que haja mais poesia.
Porque poesia é resistência.
É a insistência na beleza.
É a teimosia em ser guiada por encantamentos