“Isso acontece o tempo todo”

Enquanto pensava sobre o tema de hoje, uma cena me veio à cabeça. O filme “Divertidamente” — que, ao meu ver, é um dos melhores dos últimos tempos — mostra o funcionamento imaginário da mente de uma criança e, consequentemente, de todos nós. Em um dado momento, em algum lugar da mente, a personagem derruba duas caixas e o que havia dentro delas se mistura. O diálogo é:

-Oh não, estes “fatos” e “opiniões” são tão parecidos!

-Não se preocupe, isso acontece o tempo todo.

É exatamente o que vemos na vida real. A quantidade de informações e notícias que nos cercam constantemente é tão grande que muitas vezes não paramos para dar a atenção necessária para o que estamos recebendo. Mas não se trata apenas de uma questão de ter ou não este tempo disponível.

A mídia vive nos passando histórias prontas. E nós costumamos ter uma queda por isso, sem querer querendo. É mais fácil assistir a um filme já feito, com interpretações e entonações dadas do que ter o esforço de ir atrás de uma possível verdade dos fatos. Mesmo porque, essa verdade nem existe. Cada um tem a sua e, cada um que divulga algo, o faz de um lugar, de uma posição. Estão sempre dizendo sobre algo ou alguém. O que vemos, em maioria, não são fatos e sim opiniões.

Muitas vezes, ficamos sem espaço para nossa própria interpretação. E muitas vezes pegamos opiniões emprestadas sem nos dar conta.

Há sempre uma ideologia por trás do que é passado pela mídia. Todos os canais de comunicação possuem suas próprias versões, que são baseadas em sua forma de pensamento. Até mesmo o momento em que são transmitidos certos acontecimentos ou ideias não são escolhidos à toa. Estão sempre ligados a uma função e um objetivo que, geralmente, ficam implícitos e podem servir ao bem social ou não.

Ao longo dos tempos, com o crescimento e desenvolvimento dos meios de comunicação que conhecemos hoje, e as possibilidades de alcance que eles apresentam, nos vemos diante da oportunidade de passar de meros espectadores a emissores do nosso próprio discurso.

Este processo é basicamente o que acontece numa análise. Descobrimos quem são os outros que nos habitam, que mensagens eles nos passam e o que representam em nós. Então, podemos ir caminhando para a nossa responsabilidade sobre os fatos e criar nossas próprias interpretações. Nos tornamos o sujeito da nossa história.

O cuidado que temos que ter é de desenvolver uma escuta crítica e, a partir disso, formar opiniões que estejam de acordo com aquilo que acreditamos. Para isso, é preciso que tenhamos claro o nosso posicionamento frente às questões da vida e do mundo, pois só assim poderemos deixar de repetir discursos que ouvimos por aí e construir novas narrativas sobre os acontecimentos.

O discernimento entre o que vem de fora e a relação que isso tem com o que está dentro de nós deve ser exercitado a todo momento. Dessa forma, nos tornamos sujeitos não só da nossa história, mas da história do mundo.

Loren Chermann

Psicóloga • Psicanalista

@peacecologia