As viagens de Bastelli

© André Bastelli

Pós carnaval, 89. Cheguei à cidade à procura de trabalho. Bati em várias portas. Em muitas, bati a cara. Última tentativa, rua Herman Muller, altura do nº 160. Box preto na fachada e as siglas CM+P. Entrei. Começava minha viagem profissional e de vida, ao lado de André Bastelli. Na “Central”, lavei pincel e rolinhos de tinta. Destaquei Letraset e retoquei títulos de anúncios, fotocopiados, com caneta nanquim, régua paralela, esquadros e curvas francesas. Me apaixonei pela Helvetica, a fonte. Depois da formacomposer e fotocomposição, chegou o computador. Conhecemos o Corel Ventura, nem Draw havia. Tudo começou a mudar. Durante a viagem, passei a ouvir de Frank Zappa a Hermeto Pascoal. Aprendi o valor da fotografia com as imagens que ele clicava, também por sua admiração a Ansel Adams. Em sua biblioteca, sempre atualizada, li de Anuários do CCSP ao Art Directors Club de NY, de quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro à Revista Step-by-Step. Na sala dele, quadros de M.C. Escher e eu não entendia nada. Nos corredores da empresa, Henri Mondrian e Matisse, pôsteres de Toulouse Lautrec. Pinguins sob a geladeira e miniaturas de Zeppelin no teto. Através dele fiz grandes amigos, conheci empresários e políticos locais. Visitei os botecos mais curiosos da cidade onde bebíamos e falávamos de trabalho, filosofávamos sobre a vida. Com maço de Charm longo, ele filosofava, eu ouvia. Aprendi a respeitar as diferenças de pensamentos, a aprender com todos, do cientista ao catador de papéis. Fui seu padrinho cível de casamento e, na ocasião, ele vestia uma gravata do Frajola que o presenteei trazida da Europa. Com o tempo e com suas lições, passei a ter minhas próprias conclusões profissionais e olhares sobre a vida. Com o tempo, nos desentendemos, nos afastamos. Depois de muitos anos, nos encontramos novamente, desta vez para um adeus, mesmo ele sendo ateu convicto. Ao lado dele e no silêncio dos pensamentos, eu o agradeci imensamente. Eu também tive vontade de lhe dar um chacoalhão. Isto eu não fiz. Le temps passe. Naquele momento, lá ao fundo, ouvi Led Zeppelin tocando, ilustrando musicalmente mais uma viagem que ele havia começado. Agora, subindo a escadaria em direção ao paraíso. Ao mestre, com chorinho: obrigado, André.