Wearable: o feedback que a gente veste

Eu estou usando um Smartwatch há três meses. Graças a ele almoço cada vez mais longe. Além disso o relógio me avisa: Hora de ficar de pé! No final do dia, essas pequenas mudanças no comportamento ajudam na minha meta de perder 650 calorias diárias exposta na tela. Estou falando da importância do feedback, algo que simplifica a nossa vida e nos motiva a tomar ações.

Se você pegar carona comigo durante uma semana notará alguns padrões. A não ser que estejamos engajados numa conversa o volume do rádio estará no número 12. E mesmo no inverno, costumo deixar o ar condicionado ligado no 24. Para mim, estes números representam o volume e a temperatura ideais. É o tipo de Feedback que facilita minha vida. O ajuste é fácil. Eu não preciso pensar nem perder o meu tempo com estes dois itens. Da mesma forma, quando percebo que estou acima da velocidade, obviamente, piso no freio ou tiro o pé do acelerador. Eu estou falando da importância do feedback imediato: algo que simplifica a nossa vida e nos motiva a tomar ações. Na sua ausência, somos obrigados a agir tarde, quando não tarde demais!

Nós, por exemplo, adoramos nos alimentar bem. Pena que o efeito colateral apareça muito tempo depois. Três meses adiante percebemos que ganhamos uns dois quilos. Sem a balança, talvez o espelho ou aquele amigo sincero nos avise depois de uns cinco quilos, quando for perceptível visualmente. Eu não sei você, mas as vezes o cadarço também me avisa sobre o ganho de peso, dada a maior dificuldade que tenho para amarrar o tênis. O mesmo problema acontece com as doenças, cujo diagnóstico tardio compromete o tratamento. Ou seja, em muitos casos, nós carecemos feedback imediato. Algo que os Wearables, nome dado aos dispositivos tecnológicos que podemos vestir, podem ajudar a resolver.

Eu estou usando um Smartwatch há três meses. Graças a ele almoço cada vez mais longe. No final do dia, essas pequenas caminhadas ajudam bastante na minha meta de perder de 650 calorias diárias. Passei a evitar o elevador a fim de me movimentar mais nos dias que não corro pela manha. Subo de escada, duas a três vezes ao dia, os cinco andares até o meu escritório. Um dia destes, quando ainda faltava muito para bater a meta, fiz algo que era inimaginável antes de colocar este relógio no braço: subi os quatorze andares do meu apartamento na perna. Além disso, de vez e quando ele me avisa: Hora de ficar de pé! E funciona! Faço tudo isso em busca de atingir aquele numerozinho mágico na tela: 650 Cal. Quando entra no jogo você não quer mais perder.

Hoje eu sei que dou onze mil passos por dia. É uma média alta que me orgulha e, por saber disso, faço o possível para manter. Também sei que meu coração bate em média 70 vezes por minuto, vai a 175 quando estou correndo e, por volta das quatro da manha, é o período em que ele trabalha menos, se dando o luxo de bater apenas 49 vezes em alguns dias. Juntando tudo isso, gosto de me ver na tela do celular por números e gráficos, coisa que no passado apenas os super-atletas tinham em suas avaliações físicas. Pena que muitos dados ainda não estejam facilmente disponíveis.

Medidas corporais, nutrição, preparo físico, resultado, saúde reprodutiva, sono e vitais. Estas são as categorias que, por sua vez, possuem muitos subitens no aplicativo de saúde no celular. A parte de Resultados, por exemplo, tem itens como Teor Alcoólico no Sangue e Saturação de Oxigênio. Porém, este não é o tipo e coisa que as tecnologias de vestir permitem medir automaticamente ainda. Se quiser você tem que cadastrar estes dados manualmente. Claro, desta forma não funciona. Mas imagino o dia que pudermos ter mais sensores espalhados pelo corpo. Sensores que nos avisam de coisas tais como “açúcar meu amigo, deu por hoje”, “vá lá e beba mais dois copos d’água”, “seu nível de glicose esta alto”, etc. Sobre este ultimo exemplo tenho particular interesse pois adoraria ver meu primo, diabético, livre dos furos diários nas pontas dos dedos. Sim, já existem aparelhos que medem a glicose de tempos em tempos, mas eles não são tão convenientes quanto um relógio.

É preciso ressaltar que este tipo de feedback funciona porque ele é adequado ao nosso maior motivador para ações: a gratificação instantânea. Se as dietas não demorassem tanto para dar resultados nós teríamos mais facilidade em mantê-las. Nós, seres humanos, evitamos tarefas que parecem difíceis, que vão nos dar trabalho. Por isso começamos a academia e desistimos depois de alguns meses. Queremos resultado de longo prazo no curto prazo, aí nosso cérebro entra em conflito. No momento é mais gratificante ficar em casa descansando. No momento é mais gratificante saborear aquela batata frita. Isso pode ser mudado se observarmos os pequenos avanços, expostos de maneira fácil, que nos motivam o suficiente para continuar… aos poucos. A minha pequena meta de perda de 650 calorias diárias é o que me ajuda na meta maior, no meu caso, apenas me manter no peso ideal. E o que é melhor, para perder estas 650 calorias eu posso caminhar um pouco mais na hora do almoço, subir alguns lances de escada a mais, ficar mais tempo em pé, etc. O esforço é fragmentado em pequenas mudanças comportamentais baseadas no Feedback imediato. Andar trinta minutos parece muito, mas andar cinco, mais cinco, mais dez e mais dez parece mais fácil, não? O relógio inteligente é como um velocímetro que mostra se devemos freiar ou se podemos acelerar mais.

Muitas pessoas imaginam o Smartwatch como mais uma destas tecnologias que surgem para nos tirar a presença. Tal como os smartphones, que muitas vezes nos afastam de quem esta perto e nos conectam com quem esta longe. De fato, as notificações são o tipo de Feedback que tendem a estimular a resposta, causando este efeito colateral indesejado para seres sociais como nós. Porém, uma maneira de desencorajar um comportamento é tornando-o difícil. A tela do relógio não é tão convidativa para prolongar conversas como a dos celulares, cada vez maiores clamando por nossa atenção. Assim, o Feedback que poderia estimular a ação é contrabalançado pelo o Design que limita a interação. Muitas vezes eu apenas observo as notificações e não faço nada. Este é um belo exemplo de como o Design e o contexto podem influenciar nosso comportamento. Estes dispositivos de vestir não vieram para roubar nossa humanidade, tal qual outras ferramentas tecnológicas, eles estão aqui para expandir nossas capacidades.

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