O que meu avô, Ucrânia e o Canadá têm em comum e que falta no Brasil.

Eu certamente não sou a melhor pessoa do mundo para falar sobre isso. Passo muito tempo enrolando quando tenho de resolver alguma coisa e só agora, depois de anos, eu mudei isso, mas eu preciso agradecer meu avô por ter me ensinado que problemas simples podem se tornar problemas grandes se não forem resolvidos em tempo.

Se você for dormir com um problema, amanhecerá com dois.

Quando eu era pequeno, costumava deixar as coisas de lado quando apresentavam qualquer problema. Do lego ao videogame, se precisasse arrumar algo eu deixava pra depois. Não sei até que ponto isso é normal pra uma criança, mas segundo meu avô, isso deveria ser corrigido em mim o quanto antes e hoje eu posso ver que ele estava certo.

1º- Resolva o problema o mais rápido possível.

Sim, é óbvio. Mas a gente sempre faz isso? Provavelmente não.

2º- Resolva o problema você mesmo.

Isso mesmo, vai lá e resolve. Se você não pode fazer nada, pelo menos cobre de quem pode.

Um pouco antes do meu avô falecer, eu me reaproximei dele. Graças a isso, fiquei convencido de que deveria visitar a Ucrânia e na mesma época combinei com amigos de fazer intercâmbio no Canadá.

Eu tive a oportunidade de morar em bairros com características bem diferentes. No Canadá, era um bairro classe média alta, parecia que todo mundo tinha uma ótima vida, dois carros, acesso a transporte público e tudo mais que uma vida de primeiro mundo tem pra oferecer. Na Ucrânia, bairro de classe média baixa, nem todo mundo tinha às acesso as coisas boas da vida. A única coisa que eu podia ver em comum entre esses lugares - além da neve, céu cinza e pessoas xingando o gelo - era que as pessoas resolviam os problemas mais próximos delas.

No Canadá, eu via pessoas removendo neve da frente de suas casas e quando necessário, também limpavam às ruas. Na Ucrânia, além disso que já descrevi, eu vi pessoas cortando grama de locais públicos. Não faziam porque eram pagos, mas porque não resolver isso acabaria gerando problemas sérios para eles.

Para quem não sabe, neve ao fundir e solidificar novamente vira um gelo escorregadio e assim torna a locomoção a pé ou de carro perigosa. O mato se não for retirado, pode atrair e esconder animais. Aranhas, cobras ou até ursos(né, Ucrânia? rs).

Claro que havia máquinas e funcionários que eventualmente fariam o trabalho. Isso diminuía consideravelmente a urgência e a necessidade de resolver as coisas, mas caso os próprios moradores não fizessem, talvez nunca teriam toda a ajuda necessária para resolver os problemas.

Após viver nesses lugares, mesmo que por um curto período de tempo, só pude comparar eles com o Brasil. Hoje, com vinte e dois anos, poucas foram às vezes que eu vi alguém fazendo algo para solucionar os problemas.

Mas o que foi que me fez querer escrever sobre isso? Bom, foram duas pequenas coisas que aconteceram comigo recentemente.

Na saída da minha faculdade, eu andava cerca de cinquenta ou sessenta metros em uma via pública até chegar no meu ônibus, nesse caminho havia muito mato que com certeza não era retirado há alguns meses.

Eu que nada poderia fazer, me sentia incomodado por ter de andar por ali todos os dias na volta das aulas, ainda mais de noite. Sempre reclamava da baixa visibilidade e os perigos de se andar ali para o Motorista do meu ônibus que também achava ridículo aquela situação. Após alguns dias, voltando da faculdade, vejo todo aquele mato cortado. Havia apenas um homem com uma roçadeira cortando o mato que ali estava. Cheguei no ônibus e pra minha surpresa não havia ninguém lá ainda até que o homem andou na minha direção e para minha surpresa era ele: o motorista.

Ele estava cansado de esperar que alguém fosse fazer isso e preocupado com nós estudantes, resolveu ele mesmo trazer sua máquina de casa e cortar todo aquele mato(além disso ele podou duas arvores que estavam riscando carros e atrapalhando a movimentação de quem passava pela calçada. Obrigado Galinho!).

E é isso, simples assim, ele resolveu o problema que já incomodava há semanas, ou até meses, os estudantes que ali precisavam passar. Ele até cortou um pouco mais para o outro lado para ajudar estudantes que não necessariamente pegavam ônibus com ele.

Após alguns dias, eu acabei saindo de casa e mudando pra um apartamento perto da faculdade e nunca mais peguei mais aquele caminho, mas foi ótimo ter aquele problema resolvido, mas como nem tudo são flores… Havia outros problemas para ser resolvidos, não só na minha vida pessoal como nos ambientes qual frequentava. Resolvi que deveria fazer o que meu avô passou a vida dele inteira tentando me ensinar: Resolver as coisas antes que virem um monstro! Cheguei ao cúmulo de ficar preso no meu apartamento por não consertar minha própria porta, mas eu decidi mudar isso e começar a resolver tudo.

Nos primeiros dias, eu limpei meu apartamento e anotei tudo que precisava para deixar ele mais organizado, limpo e produtivo. Outra coisa que fiz de cara foi comprar coisas para usar no meu trabalho, não queria ter de ficar sem poder fazer algo só porque me esqueci de algo ou não me planejei direito.

Confesso que no começo foi difícil, a preguiça batia, mas com o tempo eu acabei largando dela pelo simples fato de ter notado o quanto essas pequenas coisas, em conjunto, atrapalhavam(e muito) minha vida.

Uma dessas coisas qual eu tive preguiça e eu acho que centenas - senão milhares - também tiveram foi dar um jeito em um botão que serve para fazer a travessia na frente da minha faculdade. Esse botão, quando acionado fazia o semáforo ficar com sinal vermelho para os carros e liberava a travessia dos pedestres. Eu não sei quanto tempo exatamente, mas há mais de um mês aquilo estava quebrado e ninguém resolvia. Eu, de saco cheio da situação após um dia que esperei 20 minutos para atravessar pois não queria passar com sinal verde para os motoristas, resolvi dar um jeito.

Ao chegar em casa, mandei uma mensagem para minha faculdade pelo Facebook. Ela respondeu rapidamente. “Encaminharemos para os responsáveis e te daremos um retorno”. Confesso que não imaginei que aquele problema seria resolvido tão facilmente, então peguei o número da prefeitura para ligar e reclamar. Para minha grata surpresa, quando fui para aula no outro dia, tudo ali já estava consertado. Eles haviam trocado as caixas e os botões que acionavam o sistema.

Não acreditaria se alguém me contasse, mas foi tão simples quanto parece. Com uma mensagem menor que um tweet resolvi um problema que estava acontecendo há semanas. Em menos de três dias, tive um retorno da faculdade informando que o problema foi solucionado.

Agora eu digo o que há nos canadenses, nos ucranianos(no meu avô ❤) e que falta nos brasileiros: Atitude para resolver as coisas quando há problemas. Não sei como, mas em mais de um mês, com mais de 200 pessoas passando por aquela mesma sinaleira que eu, ninguém pensou em avisar que o sistema estava com problemas. Eu também não, mas por quê?

Obviamente não temos tempo pra resolver tudo, nem sequer conseguimos resolver tudo o que tentamos, mas pra mim está claro que isso é um problema constante entre nós.

Esse aprendizado que chegou tarde para mim, que não é costume nosso como brasileiros, tem benefícios inquestionáveis.

Obrigado ao meu avô por ter insistido tanto na minha educação. Hoje é óbvio o quanto isso era importante e suas décadas colhendo os bons frutos exemplificam muito bem isso. Sinto que nunca agradeci a ele por esses pequenos ensinamentos, mas vou deixar esse texto como uma pequena homenagem para o senhor.

Я тебе люблю дідуст! Слава Україні!

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