Encontros

Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já pegamos aquele nosso livro gigante, todo colorido e quase que sem nada escrito e desafiamos pais, amigos, tios, avós e qualquer um que chegasse perto a encontrar o Wally, ou ao menos nos ajudar nessa busca.

Depois de longos e intermináveis minutos procurando, quando finalmente achávamos (antes de nosso parceiro), ficávamos com um sorriso incontido no rosto. Era nesse momento, especificamente, que nos sentíamos os detentores do maior segredo do mundo e, aquilo, mesmo que por poucos segundos, nos deixava imensamente felizes. Sabíamos que essa satisfação terminaria assim que nossa companhia soubesse também onde o Wally estava, por isso tínhamos algum receio de dividir nosso segredo, um receio que podemos até chamar de medo. Ué, se ele souber, não será a mesma coisa. Por alguns segundos aquele Wally era só nosso e nós nunca mais seriamos capazes de esquecer onde achá-lo novamente.

Hoje eu vejo que procurar o Wally não era só uma brincadeira de criança.

Quantas vezes não tivemos receio de compartilhar algo com alguém pelo medo de se sentir diferente em relação àquilo depois de dizer em alto e bom tom. Quantas vezes não fomos egoístas de guardar segredos sem ao menos imaginar que a pessoa para qual contássemos pudesse ficar tão feliz pela gente quanto nós mesmos. ( Sobre as tristezas não costumamos nem pensar em compartilhar dessa maneira, por quê? Não achamos que somos egoistas em não compartilhá-las… mas não seríamos egoístas desse modo também?).

Achar o Wally (ou os diversos Wallys) envolve uma busca muito maior do que um livro colorido e alguma companhia.

(Wally acha ele mesmo)

Achar o Wally é saber onde se apoiar, é saber como e onde guardar suas lembranças, é conhecer quais são seus pontos de equilíbrio e quais são seus pontos de debilidade, é saber o que te faz sorrir e o que te faz chorar. É aprender a apreciar a si próprio. É aprender a apreciar a si próprio para então ter a certeza de que você está pronto para apreciar o mundo. Foi em uma dessas buscas que um dia entendi que para amar de verdade alguém, eu deveria primeiro entender a mim mesma.

E foi assim que eu descobri que uma pessoa (ou algumas poucas) também pode me fazer sentir tudo aquilo que era possível quando estava brincando de encontrar o Wally com alguém. Descobri que uma pessoa (ou algumas poucas) é capaz de trazer sorrisos súbitos ao meu rosto por ter se tornado meu ponto mais fraco e também meu ponto mais forte. Descobri que existe um (ou alguns poucos) ser humano que ao mesmo tempo que eu quero tratar como o segredo mais profundo que possuo, eu quero tratar como a verdade mais absoluta e conhecida sobre mim.

O problema é que ninguém nunca compreenderá essa verdade tanto quanto eu.