Perséfone
É muito estranho esse momento em que a gente sabe que vai acontecer algo importante na vida, mas não pode adiantar, não pode forçar, tem que apenas esperar, controlar a ansiedade, pensar em outras coisas… Não é fácil ver que a felicidade está dentro da gente e, ao mesmo tempo, tão longe. Só consigo comparar levemente com a gestação. Eu não sou mãe, nem pretendo ser, então, obviamente, é apenas um exemplo fraquíssimo de como estou me sentindo. Eu já amo algo que só está dentro de mim, por enquanto. Eu sei que a minha vida vai mudar de forma drástica, porém não posso saber com exatidão todas as coisas que irão acontecer ou como eu irei reagir. Só posso esperar e me preparar para lidar com o futuro.
Estou vivendo um ano sabático, digamos assim, mas não foi por escolha. Simplesmente foi como a vida se apresentou nesse momento. Nem sempre conseguimos controlar as rédeas, às vezes só dá mesmo para a gente se segurar do melhor jeito que dê para sobreviver. O que me faltou em segurança, sobrou em tempo livre. Pude me ajustar lentamente à situação e consegui, além de sobreviver, ter uma nova visão do mundo em que eu estava vivendo. Entendi que o caminho que eu estava trilhando, já há alguns anos, não era o melhor para mim, e me prejudicava de várias formas diferentes. Precisei, então, aprender a lidar com a raiva da injustiça que aconteceu e ter a sabedoria de perceber que o que essa é a minha chance de dar um salto enorme em direção ao que me faz mais feliz. Não é um caso de “as uvas estão verdes”, não é uma desistência, é ter a certeza de ver que algo muito ruim aconteceu, mas que eu poderia lidar com isso e transformar a decepção em crescimento. Criar a receita mais incrível de limonada, com o limão bem azedo que largaram na minha porta.
Não sei se foi um caso de conjunção astral (eu e Susan Miller nunca fomos as melhores amigas), se é pela numerologia, se o Orixá do ano simpatiza comigo… Só sei que é a primeira vez em que o “universo conspira”. Sabe quando é tudo tão certo e incrível e positivo, que a gente até sente medo? E é tudo tão maravilhoso, os detalhes intrincados, formando um desenho tão perfeito, que o medo até some, diante de algo que eu nem sei nomear. Seria isso a fé cega? Também não sei. De novo me faltam as respostas, mas o que tem acontecido de mais fascinante é que este é o momento em que tenho conhecido as pessoas mais incríveis e eu tenho aprendido tanto! Sobre mim, sobre o mundo e a vida. Tenho recebido muitas chances de melhorar, de me cuidar, de me conhecer. Será que eu não via essas coisas antes por que não estava preparada, como dizem? Ou será que eu não enxergava, porque meus olhos já estavam nublados de tantas coisas ruins que eu enfrentei? De qualquer forma, não importa, pois algo maravilhoso está se criando na minha vida. A comparação imediata que faço com a gestação é porque sempre vejo as pessoas questionando as mulheres que engravidam “nesse mundo tão ruim”. Eu mesma tenho sido questionada por acreditar em felicidade no meio da crise. Como ser feliz no meio de tanta violência, ódio, destruição? Novamente, não tenho palavras para explicar, então só posso responder imitando o sorriso das mães que estão envoltas por uma aura de amor, mesmo sem saber o que o futuro entregará a elas. Um sorriso de Perséfone, que tem certeza da existência da luz, mesmo ainda habitando o submundo.