Jornalista André Rocha fala sobre análise de desempenho no jornalismo esportivo

Rodrigo Seixas
Jul 28, 2017 · 4 min read

André Rocha é carioca e jornalista. Descoberto no Orkut por Mauro Beting, procura enxergar o futebol de uma maneira mais analítica. O blogueiro do Uol Esportes e colunista da Editora Grande Área falou sobre vários assuntos ligados a análise de desempenho no futebol e em como o jornalismo enxerga isso.

Você está na imprensa há algum tempo, quando começou a fazer textos mais analíticos, ou sempre fez?

O Mauro Beting me descobriu no Orkut em 2006. Foi lá que entendi que aquilo que sempre me chamou atenção como torcedor — desde garoto, no futebol de botão, e eu chamava de “organização” — era análise tática. Passei a ler tudo sobre o assunto e fui aprimorando.

Como se qualificou para escrever textos analíticos?

Analisando futebol desde sempre. Até na peladinha de rua. O resto foi qualificação de ofício. Infelizmente só agora o conteúdo vai melhorando no país. Por isso acabei sendo um dos primeiros, ainda que PVC, Mauro Beting e outros já abordassem o tema. Mas não com o enfoque que Eduardo Cecconi, jornalista que hoje é membro da comissão técnica do Grêmio, este sim o precursor da análise tática que se faz hoje no jornalismo esportivo sobre futebol. E nós acabamos produzindo o material que não existia e fomos surpreendidos por termos textos nossos em cursos e palestras Brasil afora. Mas como tudo evolui, a próxima geração fará melhor que a nossa. A gente apenas abriu o caminho.

Papo com Tite sobre o Corinthians de 2012. Surgimento do 4–1–4–1

Há um crescimento grande da análise de desempenho no Brasil, não só nos clubes, como no jornalismo. Quase todo canal tem um programa ou um jornalista especifico para fazer essa análise. Por que esse crescimento?

No país do futebol de resultados, as vitórias de times com treinadores que valorizam esses profissionais. Especialmente Tite no Corinthians e Roger Machado, no Grêmio.

A análise de desempenho nos meios de comunicação é bem feita no Brasil? Consegue atingir o que procura?

Sim. E não para de evoluir. Pena que ainda é vista com certo preconceito pelos profissionais de comunicação que pertencem a outra geração.

O público está preparado para esse tipo de análise, mesmo considerando que boa parte do público não se interessa tanto em entender o futebol, só no torcer?

Sim. E quando se fala em “estudar” o jogo e se fala em números, causa ojeriza naqueles que querem o futebol como mero entretenimento e só pensam em zoar o colega de trabalho no dia seguinte. O melhor, a meu ver, é tentar simplificar a linguagem e “seduzir” o público explicando a razão pela qual seu time está bem ou mal.

Muitos reclamam de alguns termos, dizem ser papo de técnico e não de jornalista. O que diz a respeito?

Tem a ver com o que disse antes, sobre a resistência em relacionar futebol com algo que faz pensar. Mas há também uma enorme ignorância voluntária no Brasil, de quem se acostumou a mitificar aqueles que resolvem tudo na intuição e no talento natural. Que fazem sem pensar. Isso vem desde Nelson Rodrigues, desde a vitória de Garrincha e Pelé sobre o “futebol científico” da União Soviética em 1958. É cultural.

Quando se critica uma maneira de uma equipe jogar, como o Palmeiras campeão brasileiro, ou um jogador, como Diego, as criticas são enormes. Isso se deve aos clubismo, e/ou a falta de estudo atreladas a falta de educação?

Um pouco de tudo. Porque o público está viciado pela mídia: elogios nas vitórias, mesmo jogando mal, e “crise” nas derrotas, mesmo com boas atuações e perdendo nos detalhes. No caso do Diego, a grife e os gols mascaram algumas deficiências que vem de longa data, inclusive inviabilizando sua presença na Europa jogando em alto nível. Vivemos um tempo em que as redes sociais deram voz ao que há de melhor e pior da sociedade. Ou seja, nós.

O “resultadismo” ainda é muito grande nos clubes e nos torcedores?

Totalmente. Um time perde com mais de 60% de posse, mais do dobro de finalizações e parece que levou um baile de quem venceu chutando duas vezes e marcando dois gols. Às vezes até acontece uma vitória estratégica de quem se postou na defesa, mas o único parâmetro é o placar final para a grande maioria.

Acredita que os clubes brasileiros estão preparados nesta área? Os técnicos, jogadores estão?

Estão evoluindo e vencendo resistências. O nosso jogador está sendo melhor formado na base, isso deve aparecer mais à frente, nas próximas gerações.

O Corinthians e o Grêmio são clubes com a análise de desempenho mais evoluídos do Brasil. Há como atrelar isso ao sucesso das equipes a análise?

Ajuda como parte de uma filosofia construída anteriormente. O Corinthians com Mano e Tite, o Grêmio com Roger. Agora, com times tão inconstantes, quem tem uma ideia mais clara do que fazer e jogadores com qualidade para executar, a vantagem fica mais nítida.

Acredita que a análise pode fazer o futebol brasileiro melhorar?

Como um dos elementos de uma transformação mais abrangente, que envolve calendário, planejamento e escolha do treinador menos aleatória.


Blog do André Rocha

Errata: André Rocha, como informado antes, não é comentarista do Esporte interativo. Já deixou o canal

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