Jornalista Leonardo Miranda fala sobre análise no jornalismo esportivo

Rodrigo Seixas
Aug 9, 2017 · 4 min read

Leonardo Miranda é jornalista esportivo e mais um dos que procura enxergar o futebol de uma maneira mais analítica. O blogueiro do Globoesporte.com, apresenta também um programa na Revista Época, falou sobre vários assuntos ligados a análise de desempenho no futebol.

Quando começou a fazer textos mais analíticos, ou sempre fez?

Tenho um blog sobre esse assunto desde 2012. Comecei de forma auto-didata, e em 2013 cheguei ao Globoesporte. Busquei me aperfeiçoar com cursos na Universidade do Futebol e na CBF.

Há um crescimento grande da análise de desempenho no Brasil, não só nos clubes, como no jornalismo. Quase todo canal tem um programa ou um jornalista especifico para fazer essa análise. Você até faz análises. Por que esse crescimento?

Acredito que o público começou a se interessar mais por esse viés do futebol a partir da Copa do Mundo. O resultado de 7x1 foi um choque muito grande e logo o público começou a buscar respostas para isso. Invariavelmente, a análise tática apareceu como uma forma mais racional de explicar o que acontece no jogo. Isso casou com essa procura por conhecimento e hoje vivemos um grande sucesso.

A análise de desempenho nos meio de comunicação é bem feita no Brasil? Consegue atingir o que procura?

É muito bem feita. Veículos como O Globo, Globoesporte e ESPN possuem profissionais especializados em analisar futebol e pensar o jogo. O problema segue sendo o espaço de divulgação do trabalho, que ainda é restrito. Quanto mais visibilidade, maiores as chances de um trabalho atingir e encantar um grande público.

O público está preparado para esse tipo de análise, mesmo considerando que boa parte do público não se interessa tanto em entender o futebol, só no torcer?

Com certeza está! O torcedor se interessa por tudo o que pode explicar um pouco do time de coração dele. O que acontece é que a linguagem, muitas vezes, afasta o leitor, o torcedor de arquibancada. E esse é um dever e uma tarefa grande dos jornalistas e analistas: tornar o conhecimento acessível, com termos que todos podem entender.

Muitos reclamam de alguns termos, dizem ser papo de técnico e não de jornalista. O que diz a respeito?

É aquela história de tornar o conhecimento mais acessível a todos. Antes da análise vem a comunicação: ela é fundamental para todos entenderem o que está sendo escrito ou analisado.

A literatura esportiva cresceu, com a Grande Área, por exemplo. O quanto isso ajuda na análise de jogos e na cultura esportiva brasileira?

Ajuda muito. Livros com conteúdo mais técnico e reflexivo, como os da Grande Área, ajudam a espalhar esse futebol mais pensado e com um viés mais profundo, porque espalham conhecimento de uma forma gostosa, agradável. Quem gosta de leitura com certeza dá um passo grande para entender mais o jogo.

Pelo que acompanho, dá para dizer que no Sul, a análise de desempenho tem mais destaque?

Acredito que Sul e São Paulo polarizam esse conhecimento. O Sul, por ser menor, tem um grande aglomerado de pessoas que se interessam por tática, jogo, conhecimento e etc. Em São Paulo, até por uma questão numérica, mais pessoas se interessam, mas acreditamos que os eventos e as conversas em torno do assunto são mais escassas.

O “resultadismo” ainda é muito grande nos clubes e nos torcedores?

Não apenas o resultadismo. Ele vem de uma gestão não profissional, onde cargos são vendidos em troca de apoio político e as decisões no clube não são tomadas de forma técnica, mas sim de forma passional. Acredito que boa parte das demissões (injustas) de técnicos são resultado desse cenário.

A derrota do Santos por 4x0 para o Barcelona em 2011 e o 7x1, mudaram o modo dos brasileiros verem futebol?

Com certeza, mas acredito que foi depois da Copa do Mundo que o assunto verdadeiramente “pegou” aqui no Brasil. Antes, a análise tática era relegada a alguns pequenos blogs.

Acredita que os clubes brasileiros estão preparados nesta área? Os técnicos, jogadores estão?

Com certeza. Temos muitos técnicos, analistas e profissionais com grande preparo, tanto acadêmico como de campo, para atuar na área. Falta a chance e o entendimento de que o profissional jovem precisa de um tempo maior para conseguir fazer valer seu conhecimento.

A nova geração de técnicos está atrelada ao crescimento da analise de desempenho?

Grande parte dessa nova geração coloca a análise de desempenho como pré-requisito de sua comissão técnica. Os treinos, o modelo de jogo e as decisões de escolha de jogadores são todas pautadas junto à análise de desempenho. O Corinthians inaugurou esse modelo com o Mano Menezes e hoje quase todo clube tem mais de um profissional na área.

Acredita que a análise pode fazer o futebol brasileiro melhorar?

A análise, por si só, não consegue mudar uma linha de pensamento muito presente desde a década de 1930. Os problemas do futebol brasileiro são um reflexo do problema do país. Mudar uma cultura é algo doloroso e que gera uma resistência imensa. É preciso apoio político, paciência, manutenção de técnicos…


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