São as pequenas coisas
“Querido amigo, quem é você? Pra onde você está indo? Tudo isso é tão complicado quanto eles querem nos fazer acreditar? Já não ecoam fortes o suficiente os nossos berros de angústia e nossas histéricas gargalhadas? Aproximamos a distância, porque não estamos mais acostumados a mais nada e as feridas abertas demoram a cicatrizar devido ao esforço diário apenas para continuarmos de pé; A maior luta sempre será contra nós mesmos e essa merda de ego.
É mais uma noite qualquer, mas todos nós, meio cheios ou meio vazios, a sentimos de formas diferentes. Somos oceanos movidos por sensações. Mesmo que muitas vezes estas passem despercebidas, elas fazem toda a diferença do mundo; Nós fazemos toda a diferença no mundo. E as risadas que se dissolveram na fumaça dos nossos melhores momentos continuam vivas, ardendo, ecoando em minha mente.
As memórias são aquilo que temos de mais precioso, elas nos marcam, atingem a nossa cabeça, seja pra acariciar ou macetar. Mas, porra, nem sempre estamos bem com nós mesmos para aguentarmos a solidão; É quando a existência se torna um fardo. Já fomos tão longe em tão pouco tempo, olhamos ao redor e nos deparamos com tanta coisa rolando e, dentre essas coisas, há tanto sofrimento. E a culpa é de quem?
Mentirosos e hipócritas, me recuso a engolir suas merdas. Seu implante de medo e ansiedade pelo que iremos nos tornar no futuro poderia vir a sufocar todos nós, e o que é realmente importante se tornaria mera distração para descarregarmos os sentimentos, cada vez mais escassos, e aos poucos viríamos a perder nossa essência. Aquela que está sendo desperdiçada e desvalorizada. Nossas assas estão sendo podadas cada vez mais cedo pela sua violência sutil e sedutora.
Querido Amigo, seremos nós, seus filhos, fortes o suficiente para pelo menos nos olharmos nos olhos? Chorarmos juntos, rirmos juntos, enfim caminharmos juntos, só pra variar. Pra que eu não seja apenas mais um, mas que sejamos todos um. Será essa batalha uma distração para esperar pelo amargo fim, ou um romance escrito com o que há de melhor em nós? Você nos deu o direito de escolher, mas eu não consigo chegar lá sozinho.
Nossos olhos se abrem, e então começa. É tempo perdido que foi encontrado, escorrendo em sangue e lágrimas. Querido Amigo, porque somos tão frágeis?”
– Puta merda, eu preciso de um cigarro — minhas palavras saíram como um desabafo pelas palavras que Deus tinha arrancado de minha cabeça.
– Quer sair dar uma volta? — ela disse, calmamente. Pelo jeito, também não conseguira dormir.
– Boa ideia.
Eram 3 e alguma coisa da manhã, e nós caminhávamos com todos os ventos gelados da cidade contra nós. Poderia ser melhor? Bom…
No caminho, escolhemos uma árvore pra deitar um pouco. Enquanto eu estendia uma manta no chão, ela acendeu um cigarro e abriu duas cervejas.
– E aí, sobre o que tu tava escrevendo essas horas? — ela perguntou.
– Algo que anda me incomodando muito ultimamente.
– E o que seria?
– A vida.
Ela riu. Eu abri um sorriso e puxei da mochila uma garrafa de vinho, dei um bom gole e passei a bola. A noite começava ali.