Dezessete



  • Música recomendada para a leitura

Radical Something — Pure

https://www.youtube.com/watch?v=Nw3n43Uugt4




Artista desconhecido.
A vida anda e deve andar, contanto que os passos dados jamais sejam para trás. Que o pra trás seja apenas uma noite como essa, onde eu entro em um modo de rewind mental e me lembro como era bom planejar o que hoje se tornou apenas uma vaga memória, bem guardada no fundo de alguma das gavetas no meu humilde e insano imaginário especulativo não-coletivo.

A padaria do Seu Zé continua ali na esquina servindo aquela mesma torta de frango com catupiry que a Marta promete estar pronta até as 7 mas nunca sai antes das 8:30. A torta ainda é a mesma, mas o gosto é diferente quando como sozinho, mesmo se o dia estiver feliz com aquele sol brilhante — que não é tão forte a ponto de arder meus olhos e eu precisar te pedir pra tirar da bolsa meus óculos escuros, que segundo você me deixavam com cara de galã de rodoviária. A pracinha também está no mesmo lugar, mas agora está cheia de equipamentos de academia ao ar livre e seus respectivos membros idosos cuidando da saúde no ápice da melhor idade .O espaço só não é menor do que a falta que você ainda insiste em fazer. Mas isso não importa mais. Chicão continua adorando passear por lá. Fez alguns novos amigos, o Wilson e a Mel. São Shih Tzu’s também, e pela química que rolou entre ele e Mel no último passeio, creio que ela seja uma namoradinha num futuro breve, quando estiver na idade adulta. É, o Xicão continua um vinte e dois nato. Achei que você ia gostar de saber. Barriga também está de volta, tá na área. Não estava morto como todos pensavam, apenas perdeu um dedo tentando pular o muro de uma casa“fugindo de um cachorro bravo”.

O supermercado da rua de trás ainda vende aquela bandeja pronta de comida japonesa. De vez em quando passo por lá e compro uma. A escolha ainda é demorada, a árdua tarefa de capturar uma que tenha mais sashimis de salmão e atum com um preço que não seja semelhante ao de um carro zero na concessionária da rua do lado. Ainda é uma bandeja grande, mas agora parece menor com apenas um par de hashis pra devorar as peças como se não houvesse o amanhã — e nem a empazinação estomacal fruto do exagero. As vezes vem meio sem sal e o shoyu aguado, mas quase sempre tá no ponto, do jeito que você gostava. Não exatamente igual, hoje em dia ele fica meio sem gosto, e isso provavelmente acontece porque não tem mais beijo com gosto de molho. A hora mais bonita do dia continua sendo 17:30, mesmo se o dia estiver nublado ou anoitecer mais cedo, mas sabe como as coisas são em BH: nosso sol de paz quase sempre dá as caras nos lembrando a razão do nome da cidade ser Belo Horizonte.

Semana passada precisei embarcar em mais uma sofrida jornada à bordo do 8207, o famoso e tenebroso Maria Goretti — ou Gorettão para os que infelizmente já se tornaram íntimos dele. Consegui sentar na estofada cadeira do idoso, não estava muito cheio. Um milagre, eu diria. Após passar pelo viaduto Santa Tereza, me lembrei daquele dia em que você cismou em conhecer o Duelo de MC’s – que você nunca aprendeu o nome e sempre dizia que era a ponte onde os caras do rap cantam embaixo. Só que se esqueceu de que o chão era de pedra e resolveu ir de salto mesmo com os meus milhares de avisos. Põe uma rasteirinha, coloca um chinelo, vai de tênis! Não deu outra: em menos de cinco minutos você estava descalça nos paralelepípedos reclamando que aquele chão imundo e melado de cachaça não era apropriado para usar saltos. Quis muito te xingar, mas não consegui: você era linda até com os pés sujos como os daqueles menininhos que andavam descalços nas estradas perto dos vilarejos que você adorava e sempre me pedia para conhecer durante as nossas road trips. Mas como bom publicitário, tratei logo de dar um jeito do problema e encontrar a solução ideal ao menos para o momento: te colocar nas costas. Você nunca admitiu, mas sei que adorou. Ver o mundo por cima é um passeio e tanto pra gente baixinha que está acostumada a não ter vistas privilegiadas em grandes multidões — e essa era outra verdade que você nunca admitiu. Dar um jeito pra tudo, ah, como éramos bons nisso! Me lembro de quando nosso aniversário de namoro estava chegando e meu saldo no banco não atingia nem a marca de um mísero décimo. Então, chegou o fatídico dia e eu não conseguia esconder minha tristeza por não ter condições de fazer nada para celebrarmos. Era uma época difícil e até mesmo conseguir um freela estava complicado. Mas dessa vez foi você quem deu o jeito: juntamos todos os nossos poucos e sofridos trocados e compramos a cachaça mais barata da padaria, a pinga de mendigo, três coxinhas meio frias com aquela casca endurecida de anteontem com catupiry que mais parecia uma borracha de escola e sentamos no nosso banco na Praça da Liberdade, esperando nosso sol de paz rasgar pelo céu, bebendo cachaça vagabunda com gosto de óleo diesel e comendo brigadeiro de panela com bolinhas queimadas no meio. E, claro, sem esquecer da sua cisma eterna em observar as pessoas e me convidar para a não tão emocionante brincadeira de adivinhar o que eles estão pensando. Nunca o simples significou tanto como naquele dia. Daria até um bom livro: O dia em que o muito pouco foi quase tudo.

Eu não sei se você ainda briga incessantemente com sua franja na frente do espelho, se já aprendeu operar um caixa eletrônico de banco ou se ainda entorta os pés e estaciona as pernas quando vai posar para qualquer tipo de foto. Talvez você ainda escute aquelas músicas estranhas e chore sem motivo ou chore e ria ao mesmo tempo, enlouquecendo quem está ao seu redor. Mas o que eu realmente espero é que você continue com aquele sorriso de nuvem. Aquele sorriso capaz de abrir o mar para que todo o mundo passasse e admirasse, num espetáculo a lá Moisés. A minha verdade é que eu gostaria que esse sorriso ainda fosse meu, bem guardado na estante junto aos livros do Kerouac e Bukowski, “pra fazer meu dia ficar melhor” como diz a música do Teatro Mágico, mas a verdade da vida é que a vida anda e o dia seguinte vai nascer para todos como se nada tivesse acontecido. A vida anda e deve andar, contanto que os passos dados jamais sejam para trás. Que o pra trás seja apenas uma noite como essa, onde eu entro em um modo de rewind mental e me lembro como era bom planejar o que hoje se tornou apenas uma vaga memória, guardada bem no fundo de alguma das gavetas no meu humilde e insano imaginário especulativo não-coletivo.

Mas saiba que eu ainda continuo escutando Allred. É, o mesmo Allred que rima com bad mas que eu sei que te agradava. Aliás, eu ainda sei de tudo o que você gostava. Até eu me incluía nessa lista. Mas ainda me lembro acima de tudo, o valor das coisas simples. Sim, das coisas simples. Logo eu que conhecia um pouco de quase tudo e tinha respostas até mesmo para perguntas que não foram feitas. Mas dar valor pras coisas simples…é, isso foi você quem me ensinou.