Maria Amélia


  • Música recomendada para a leitura

Koda — The Last Stand | https://www.youtube.com/watch?v=cIzM9p3dUm8


Todos os dias no mesmo horário, aproximadamente as 17:30, um velho e simpático sujeito de aparência sofrida se sentava no meio fio na esquina da Rua do Forte, de frente para o mar. Ao seu lado, o inseparável escudeiro de quatro patas — uma mistura psicodélica de marrom, preto, cinza e alguns tons de encardido — rodopiava numa ginga mansa e desengonçada quase como um samba canino despretensioso, anunciando sua chegada com latidos harmoniosos e ritmados, carregando sempre uma pequena gaita que ficava pendurada na parte de baixo de sua coleira. Era um vira latas, provavelmente cruza de Pastor Alemão com alguma outra raça. Todos os dias a dupla se apresentava religiosamente no mesmo horário, havendo público ou não.

O homem acariciava a cabeça do cachorro e tirava delicadamente a gaita da coleira, afinava o violão como um artesão que cria uma nova peça e começava a musicar sem muita pressa. Sempre olhavam para o mar, o homem quanto o cão. Era como se ele tocasse para um lugar distante, e não para as pessoas que ali passavam — apesar do chapeuzinho das moedas estar sempre prostrado na calçada pronto para receber alguma doação. Como eu ainda tinha alguns dias de folga, pude ter tempo para desvendar a história daquela dupla dinâmica.


Depois de muito perguntar aqui e ali — entre olhares ora suspeitos, ora receosos — descobri que o velho senhor se chamava Sebastian. Era um negro parrudo dos cabelos grisalhos, bom de conversa e portador de um sorriso feliz que as vezes disputava espaço com uma profunda e intrigante tristeza. Certo dia resolvi puxar conversa e Sebastian me contou que há muito tempo atrás ele tinha uma carreira brilhante como músico — violonista, saxofonista e algumas vezes encarava a percussão — , chegando até mesmo a tocar na mundialmente famosa e respeitada avenida Broadway em Nova Iorque, glorificada pelos seus grandiosos teatros que exibem as maiores produções musicais do mundo. Fora casado com uma mulher que, segundo ele, era a criatura mais feliz que o planeta Terra já teve o prazer de contemplar: Maria Amélia.

Ah, Maria Amélia — dizia Sebastian com a boca cheia de orgulho, lágrimas acanhadas nos cantos dos olhos e voz de veludo —
como era bonita aquela mulher. Era bonita em rosto, era bonita em corpo mas principalmente, era bonita em ser gente. Tinha a alma bonita! Sabe, desde a primeira vez em que a vi, já pude escutar a música que a alma dela tocava. E ah, filho, como era bonita, como era linda! Ela e a melodia, a música que a alma dela tocava. Era um dueto maravilhoso! Nunca ouvi falar sobre alguém que a conheceu e não se encantou pelo doce de mulher que era. Mais doce do que os próprios doces que ela vendia! É, era sim!

Os dois se conheceram em São Paulo. Algum tempo depois de comecarem um namorico, Sebastian José começava sua jornada rumo ao sucesso como músico e logo ganhou espaço em bares e restaurantes cada vez mais conceituados da cidade e do estado, até que o talento somado ao mérito de seu esforço o levou para o exterior. Mais especificamente para Los Angeles, onde Maria Amélia fazia quitutes tipicamente brasileiros para vender próximo aos locais onde Sebastian tocava, e eles faziam tanto sucesso quanto a música de seu marido — e ele se orgulhava muito disso.

Maria Amélia tinha um sonho: conhecer o mar. Nascida em uma família que beirava a miséria, só podia ver e ouvir as ondas através da péssima imagem de uma televisão velha vítima das gambiarras do tempo ou de relatos de viajantes que compravam seus doces. Sebastian sempre prometera que a levaria para tomar as bênça de Iemanjá, fazendo todos os rituais característicos, como bater com o peito na areia quando entrar na água pela primeira vez. Mas com a vida de trabalho exaustivo que o casal levava, a visita ao mar sempre ficava pra depois.

Ela sempre me dizia que achava o mar a coisa mais linda do mundo e morria de vontade de saber o que havia no final daquele horizonte distante, “lá onde não dá pra gente ver mais”.

Conforme o sucesso aumentou, Sebastian passou a ganhar mais reconhecimento e consequentemente frequentar lugares mais badalados e exclusivos. Então, seguindo o embalo do auge da carreira e a fama de Broadway como violonista convidado nos mais variados espetáculos musicais, Sebastian certa vez resolveu experimentar um pouco dos bastidores que era a vida de um músico daquele porte: festas sem hora para acabar, quantidades industriais de bebidas,drogas e pessoas dispostas a fazerem praticamente qualquer coisa, afinal a noite era uma criança e Sebastian era um músico — e crianças adoram música — . Até que certa noite, após uma festa de três dias comemorando o sucesso de um musical, Sebastian exagerou na dose e acabou traindo sua mulher com uma linda dançarina de um clube noturno. Consumido, atormentado e desorientado pela culpa que o corroía por dentro como óleo de motor, Sebastian correu de volta para sua Maria Amélia e contou a verdade, acreditando que falar a verdade seria a melhor escolha. Porém, segundo sua querida,

traição é a única coisa no mundo que eu nunca perdoei e jamais irei perdoar. Nenhum tipo, seja qual for. Traição é a pior coisa que um ser humano pode fazer.

No dia seguinte — após uma longa discussão de relação — Sebastian acordou com um aperto no peito, mas não era ressaca. O dia estava mais cinza do que de costume e sua amada não estava mais na cama, do lado direito perto da parede onde ele sempre dormia por cima dos braços que ficavam entrelaçados embaixo do travesseiro. Sebastian procurou por toda a casa, sem sucesso. Após algum tempo de procura, veio a conclusão: Maria Amélia saíra de casa e nunca mais voltaria, nem sequer daria mais notícias. Foi o início do fim da vida e da alegria de um homem que, um dia, havia feito a capital mundial do entretenimento sorrir.

Quando percebi que não teria mais volta, minha vida se desgraçou. Me afundei na bebida e aos poucos fui perdendo tudo aquilo que lutei tanto para conquistar: amigos, trabalho, carreira e principalmente o respeito. Não me sobrou mais nada. Maria Amélia era a coisa mais importante que eu tinha nessa vida, era meu norte, minha musa inspiradora, e consegui perde-la por conta de uma bobagem de algumas horas em uma única noite. A gente leva tanto tempo para conquistar o respeito e a admiração de uma pessoa, e em apenas algumas horas tudo vai por água abaixo, basta apenas um vacilo. Hoje não tenho nem casa, o que me restou foi essa gaita e esse cachorro, que um dia apareceu ao meu lado e não saiu mais. Também estava perdido assim como eu, sabe? Seu olhar era de saudade, assim como o meu. Resolvi chamá-lo de Brigadeiro, pois Maria Amélia sempre dizia aos clientes “mas quem é que não gosta de um bom brigadeiro?”. Como eu queria não ter feito o que fiz, e poder só por mais uma vez, ver o rosto da minha Maria de novo. Não me sobrou nem uma foto dela. Queria vê-la mais uma vez, mesmo que fosse pelo tempo de um acorde, ou de um segundo. Como eu queria passar a mão naquele rosto de anjo e pedir desculpas e dizer que eu sabia perfeitamente o quão covarde e fraco eu havia sido naquela noite. Eu nunca consegui me perdoar filho, e sei que vou morrer com essa mágoa entalada na minha garganta como uma pedra afiada que jamais vai ser dissolvida pela minha saliva podre. Essa angústia nunca vai sair de mim, rodei o mundo atrás dela mas não aencontrei. Hoje, Brigadeiro é tudo que eu tenho. Até criei um dispositivo para que ele carregasse a minha gaita no pescoço, porque ele eu sei que nunca vai seperder e nem sair do meu lado.

Assim, de cidade em cidade vivendo de favores e alguns bicos como músico, Sebastian conseguiu voltar para o Brasil com a ajuda de pessoas de bom coração, igrejas e entidades de caridade, mas nunca mais encontrou sua Maria Amélia. Um dia, exausto da vida e calejado pelo remorso, resolveu parar de procurar e fez morada na Bahia, tocando gaita de frente para o mar com seu companheiro Brigadeiro que também encarava o horizonte em silêncio e vez ou outra até “cantava” junto com seu latido tristonho que ecoava o canto triste pra longe, talvez para além do lá que a gente não pode ver mais.

É por isso que eu venho aqui todos os dias. Essa foia hora exata em que vi meu anjo Maria Amélia pela primeira vez na vida, e sabia que era um presente dos céus. Eu estava no intervalo de um show em um bar em São Paulo quando ela passou pela rua vendendo seus doces, com aquele sorriso que era capaz de conquistar o mundo em um único segundo e cantarolando “olha o docinho, tem casadinho, olha o bolo formigueiro, vem gente que hoje também tem brigadeiro!“ Nunca cumpri a promessa de levá-la para ver o mar, filho, então a única coisa que me resta e que eu ainda tenho gosto de fazer é tocar, com o fundo do que restou da minha alma, para ver se as ondas do mar um dia entregam minha música pra Maria Amélia, aonde quer que ela esteja. Vai que finalmente ela conseguiu descobrir o que tem pra além do mar, não é mesmo? Será que ela está lá do outro lado do mar? Será que é por isso que Brigadeiro sempre olha pro mesmo lugar lá longe, será que ele consegue ver ela ou sentir o cheiro,filho? Será que essa visão de cachorro dele consegue ver meu anjo lá do outro lado, talvez também sentada em uma praia pensando em mim? É muito triste viver com isso, minha única razão de ainda estar respirando é que dia poderei encontrar meu anjo e pedir desculpas pra ela, e partir em paz. Eu nunca tive a chance de dizer como eu me arrependo, filho. Você não sabe a dor e o estrago que o remorso faz com uma pessoa, e espero que nunca saiba.

Certa tarde Becca e eu esperávamos pelo espetáculo melancólico diário de Sebastian e Brigadeiro, mas estranhamente nesse dia, só Brigadeiro apareceu carregando a gaita de Sebastian na coleira. Algo ruim estava no ar. Becca continuava repetindo o que eu também sentia. Tem alguma coisa errada. Brigadeiro veio sozinho e tá agitado. Tem alguma coisa errada! Brigadeiro realmente estava um tanto quanto transtornado, rosnava e andava de um lado para o outro latindo para as pessoas, o que não era seu comportamento normal. Não era um latido ameaçador com o de um lobo defendendo a presa, mas sim de desespero, como se quisesse falar conosco. Seus olhos estavam chorosos e suas orelhas apontadas para o sol em alerta constante. Após algum tempo de estranhamento da plateia e de idas e vindas de Brigadeiro, resolvemos ir embora com um nó na garganta. Talvez ele não esteja se sentindo bem hoje. No dia seguinte, recebemos a infeliz notícia que todos ali esperavam não ser verdade. Seja lá como fosse, ninguém jamais queria que aquela sensação fosse de fato confirmada e antes mesmo de ouvirmos, o peito já tinha começado a doer e o choro foi chegando de mansinho pelo canto da boca: Sebastian morreu na tarde anterior. Foi encontrado onde costumava dormir, em uma cabaninha de papelão na Rua da Laje. Ao que tudo indicava, era morte natural. Talvez tenha sido o remorso somado à tristeza. Talvez tenha sido desgosto demais, amor demais, tristeza demais. Em suas mãos, encontraram uma pequena folha com rabiscos difíceis de serem compreendidos em razão da chuva que caiu naquela dia, formando um degradê com a tinta da caneta que agora escorria como as lágrimas de Sebastian. O papel machado trazia no título “Canção para Maria Amélia”. Uma música que nunca chegou a terminar, assim como a busca pelo seu anjo.

No dia seguinte, a vila estava calada. Não haviam carros de som, luau nos quiosques. Não havia burburinho nos restaurantes, os vendedores de rua não bradavam suas promoções, o lavador de carros iniciava o dia cabisbaixo. Apenas Brigadeiro andava de um lado para o outro uivando tão alto que chegava a parecer um silêncio absoluto. Pranchas de surf foram cravadas na areia e seus donos nãos e preocuparam com a falta de ondas. Hoje, a falta que sentiam não era de mar, era de coração. Todos atônitos em volta da calçada do Sebastian, onde agora só Brigadeiro se fazia presente, assim como seu visível desespero. Uivava em tom de lamúrias, compartilhando a mesma certeza de todos os outros humanos presentes: jamais veria nem ouviria novamente as belas melodias tristes de seu tutor, amigo e companheiro de uma vida perdida. Lágrimas escorreram naquela tarde. Das pessoas, do céu e também de Brigadeiro, que não podia de fato chorar como nós, mas se expressava como conseguia. A gaita de Sebastian continuava tilintando em seu pescoço, lembrando a gente de que nada nessa vida é eterno. Brigadeiro estava sozinho, mais uma vez. Becca tentou disfarçar o choro com um soluço mal soluçado e tomou o rumo de volta para o hostel. Eu não consegui. Fiquei ali imaginando a dor do Brigadeiro, que devia ser tão intensa ou igual ao do pobre Sebastian. Ninguém pronunciou uma palavra sequer. Naquela tarde, foi Brigadeiro quem cantou para as ondas. Era seu pedido de socorro. Talvez uivasse para o mar como seu dono fazia na tentativa de trazer alguém querido de volta.

Naquela tarde não teve a melancolia feliz do sujeito da voz de veludo. Naquela tarde, o sol deu lugar àsnuvens e a chuva caiu sem dó. O céu também chorava, compartilhando o luto com os moradores da vila e Brigadeiro. Foi a tarde em que ninguém sorriu, diferente das outras tardes quaisquer em que Sebastian contava sobre sua vontade de que Iemanjá escutasse seu lamento e trouxesse de volta sua Maria Amélia. Talvez a tristeza e a saudade foram maiores do que sua vontade de viver, e ele apenas cansou de tanto sofrer e se despediu dessa vida árdua. Foi descansar no sono dos eternos que daqui se foram, mas jamais esquecidos serão. Sebastian foi um homem com duas paixões: Mar e Amélia. Maria Amélia.

Antônio, um pescador amigo de Sebastian, adiou o início seu trabalho na madrugada desviando de sua rota de pesca para prestar uma última homenagem: construiu uma pequena jangada de madeira e garrafas pet. Sobre ela, a letra inacabada de “Canção para Maria Amélia” e uma pequena estátua de Iemanjá. Fez uam breve oração e soltou a jangada no mar.

Acho que Sebastian iria gostar, dizia ele em prantos. Espero que agora o tormento dele tenha acabado, e que finalmente tenha encontrado sua Maria Amélia. Vai em paz, meu amigo. Agora está mais fácil de achar seu anjo. Agora você pode voar e procurar pelo mundo, procurar lá além do mar. Brigadeiro vai seguir por você, tenha certeza!”.

Algumas semanas depois já de volta para Belo Horizonte, recebi, através de um amigo e morador da vila, a notícia de que Brigadeiro também havia morrido numa espécie de greve de fome. Sentou-se nolugar onde costumava encontrar diariamente com Sebastian e se recusou a comer e beber, até que veio a falecer de inanição. Com o focinho de frente para o mar. Ao menos agora, pode ficar ao lado de seu companheiro, seja lá onde ele estiver.

Foi mais uma tarde onde não teve alegria, não teve gaita e não teve sorriso. E nem Brigadeiro. Foi uma tarde onde nem as ondas se atreveram a falar. O silêncio mais uma vez se fez presente e não se mostrou contente. Até o vento se recusou a soprar porque naquela tarde, não teve Sebastian, não teve Brigadeiro e nem Maria Amélia. Pode ser que agora Brigadeiro e Sebastian estejam juntos em uma nova jornada em algum lugar onde nós ainda não conseguimos ainda compreender. Quem sabe eles estejam lá onde não dá pra gente ver mais.

Talvez agora os três estejam, finalmente, juntos. Sebastian, Mar e Amélia.


**** Em memória de Sebastian, Brigadeiro e Maria Amélia, a mulher mais doce do que os doces que ela vendia. ****

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