Esteja atento ao essencial: isso é água.
O discurso mais tocante de David Foster Wallace.

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho nadando em sentido contrário.
Ele os cumprimenta e diz:
— Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
— “Água”? Que diabos é “água”?
Começa assim o discurso mais real e autêntico que já ouvi. Uma conversa absolutamente imprescindível para os tempos que vivemos.
Em uma dessas explorações sem destino que fazemos pela internet quando a timeline de nossas redes sociais já não consegue nos distrair, me deparei com um “commencement speech” — discurso de formatura — de David Foster Wallace, entitulado Isso é água.
Wallace era escritor, uma promessa da nova literatura americana que se suicidou aos 46 anos. Seu grande legado foi um livro de mais de 1.500 páginas, chamado Infinite Jest (ou Graça Infinita, em português), obra que entrou para a lista das 100 maiores da língua inglesa na lista da Time.
Ainda não comecei a ler — o livro está a caminho da minha cabeceira –, mas nem precisei. Wallace, em vinte e poucos minutos colocou em xeque tanta coisa e jogou luz em tantas outras que isso já seria suficiente para colocá-lo na minha lista dos 100 maiores autores.
Sem dar qualquer sermão, impor um dogma ou vender uma ideologia, sem ser moralista e falando profundamente sobre as coisas mais banais da vida, ele consegue demonstrar que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ver e discutir.
Wallace não será o peixe mais velho tentando te convencer sobre o que é a “água”, mas ouvi-lo por esses vinte e poucos minutos deixa a água menos turva.