The Anti-Bolso Lab

O blog de Reinaldo Azevedo foi reduzido a um laboratório de discursos anti-Bolsonaro. Sua tarefa prioritária é testar a cada dia uma nova abordagem até encontrar um tom, uma fórmula, uma coleção de chavões — qualquer coisa que sirva para desmontar a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018.

O aspecto laboratorial do seu blog já pôde ser observado claramente quanto à Lava Jato. Um dia acusava a operação de ser ilegalmente rígida nas suas prisões preventivas; outro dia acusava Sérgio Moro de premiar seus delatores com penas muito brandas. E mesmo quando não chegava a ser incoerente, ao menos atirava para todo lado. Quando isso não é sinal de desespero, é sinal de cara de pau. O moto é o mesmo do PT que lutou contra o impeachment de Dilma Rousseff: se colar, colou.

Mas por mais que nosso alquimista já tenha tido a disposição de cultivar briguinhas com Gerald Thomas e Caetano Veloso, é difícil acreditar que o motivo único para sua nova aventura seja a vaidade. O público que o lia já detestava a Folha, o Estadão, o G1 e até a própria Veja, porque aprendeu, com ele mesmo, a identificar o viés sinistro de uma imprensa infestada de jornalistas egressos do curso de Graduação em Esquerdismo. Grande parte desse público se informava pelo blog dele. Por mais que não fosse o veículo formalmente adequado para essa finalidade, para muitos era o que tinha. Até O Antagonista aparecer.

A partir dali, leitores rolando O Antagonista no metrô, enquanto iam ou voltavam do trabalho, almoçavam no quilão ou fumavam um cigarrinho na calçada já absorviam 500% mais informação que pelos modestos “clippings” do blog dele, que, justiça seja feita, não é um blog de notícias, mas sim de “análise”. E foi justamente nessa área que ele sofreu sua maior perda: a da relevância.

Não é só que ele se recusasse, por orgulho, a sobreviver das migalhas que rolassem pela perna midiática da Lava-Jato; é que ele não sobreviveria. Assim como o PSDB foi empurrado para a direita pelo PT pseudossocial-democratizado, Reinaldo Azevedo foi empurrado para a esquerda pelo primeiro site de notícias que efetivamente não cedia uma unha à esquerda, chegando a chamar a ONU de “Petezão Internacional” — com a notável exceção da desastrosa cobertura da eleição de Donald Trump.

A reação dos leitores veio e veio forte, e foi assim que Reinaldo Azevedo passou do orgulho do blog mais lido do Brasil para o orgulho dos leitores “influentes” e “de qualidade”, até chegar, em questão de um mês, na patética afirmação de que não é “likedependente”, para dar conta da chuva de flechas certeiras no seu coração argumentativo lançadas incansavelmente por uma massa do Facebook que ele não poderia chamar de robôs — embora tenha tristemente tentado.

Mas o mais importante vem agora: quem tem os olhos escamados sempre percebeu o tom subserviente, excessivamente respeitoso que ele emprega quando fala do PSDB, como se lidasse com otoridades ou manipulasse finas e roliças peças de cristal. É notável, por exemplo, como ele sempre torceu e espremeu declarações de petistas, cavando faltas desnecessárias, enquanto dispensava descomunais distinção e clareza conceituais aos tucanos, tudo para lhes passar o famoso pano.

Embora nunca tenha parecido tentar disfarçar no estilo, sempre recusou, na retórica, a “pecha” (sic) de tucano. Até recentemente. Outro dia, enquanto batia no peito com a mão fechada afirmando-se direitista, balançava o pé sobre o calcanhar feito o Didi, asseverando que o PSDB não é um partido de esquerda, tudo sem negar o título da seção: “Reinaldo é tucano”.

Se fosse diferente, seria uma inacreditável coincidência que sua intuição, seu senso de justiça, suas “informações” e tudo mais convergissem para que ele concentrasse seus ataques de 2016 em diante quase que exclusivamente na Lava Jato e em Jair Bolsonaro, justamente os maiores obstáculos dos tucanos além deles próprios.

Essa é, aliás, a principal pista de que seu anúncio agourento da volta da esquerda não faz sentido; se fosse verdade, por que ele perderia tempo atirando no cavalo xucro de Satanás?

Mas se nada disso é coincidência, então um candidato “social-democrata nos direitos básicos e liberal na economia” seria igualmente alvo de suas críticas, caso parecesse ameaçar a festa tucana em 2018. Portanto, sua posição é partidária, mas não ideológica — como já haveria de ter ficado claro, dada a incompatibilidade de seus “valores” com os do PSDB.

Até o método de lidar com essas diferenças Reinaldo copia da esquerda: é o velho “tenho minhas críticas”, “temos nossas divergências”, que ele empregou para defender a nomeação de Alexandre de Moraes para o STF; sutis diferenças em pautas menos importantes para alguém ora dito conservador, ora dito liberal, como aborto, drogas, armas e camisinha distribuída no carnaval.

Nesse cenário alternativo, refinadíssimos trocadilhos e buzzwords como “a jornalista que pratica a mais velha profissão do mundo”, “jornalismo de equipe”, “aiatolavo de si mesmo” (sic) e “extrema-direita” não seriam preparados, nem seriam abordados subtemas dos quais ele só trata por terem conexão com Bolsonaro.

Diante de todas essas evidências, resistir à “tese” de que Reinaldo Azevedo é tucano inspira aquela peculiar sensação de ser feito de trouxa por si mesmo, como quando preferimos pagar mais que devemos a questionar a soma, por puro medo de parecermos ruins de conta.

E apesar dessas gritantes evidências, ele continua tentando ludibriar seu próprio público, demonstrando, portanto, desprezo intelectual por ele. Por isso mesmo, quem gosta dele, ainda que com reservas, não apenas é um tucano indireto, que vai precisar rebolar para encaixar seu recém-descoberto “direitismo” na grossa agenda do PSDB. Quem gosta dele tem alma de capacho, é de fato um capacho, um espírito castrado não apenas de coragem, mas também de dignidade, que não vê problema em ser vítima de tentativa de empulhação por parte daquele que admira, ainda que a empulhação não funcione. E isso vale igualmente para quem reproduz termos como “direita xucra”, como se fosse uma jogada genial de xadrez 3D digna de nota no blog do Scott Adams.

Reinaldo Azevedo está acabado. Agora resta à direita cool, movida a droga e dinheiro, aderir a “conceitos” como “pós-verdade” para brincar de debate enquanto 70 mil pessoas morrem de tiro no CÚ todo ano.

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