Como os Estudos sobre a Mulher apagaram a mulher negra

Branca Barros
Aug 27, 2017 · 3 min read
Fotografia de Kevin Banatte

Para muitas pessoas, uma foto definiu a Marcha das Mulheres em Washington: a imagem de três mulheres loiras mexendo em seus celulares enquanto, à frente, uma mulher negra segura um cartaz que diz: “Jamais esqueceremos: As mulheres brancas votaram no Trump.” A imagem que viralizou resume a preocupação de que a marcha majoritariamente branca tenha se apropriado do trabalho de mulheres negras. Embora o tema da foto ocupe o segundo plano, o fato de que a mulher negra é, na verdade, ocultada pelas outras participantes da marcha, participantes brancas, simboliza uma experiência que reflete as maneiras como as mulheres negras foram apagadas dos primeiros Estudos sobre a Mulher.

V. P. Franklin investigou as mulheres que vivem “ocultas à vista de todos”: as mulheres negras que foram ignoradas e invisibilizadas pelo então recém-criado movimento dos Estudos sobre a Mulher. Embora tenham composto a base dos movimentos estudantis no período que vai desde a década de 50 até a década de 70, entre eles o movimento por Direitos Civis e o Black Power, as mulheres afro-americanas sofreram um sexismo esmagador. “No entanto”, escreve Franklin, “o comportamento masculinista praticamente endêmico dos grupos Black Power não necessariamente impulsionou as mulheres afro-americanas para as categorias em expansão do Movimento de Libertação das Mulheres”, muito menos para sua divisão acadêmica, os Estudos sobre a Mulher.

“Nos primeiros anos dos programas de Estudos sobre a Mulher”, escreve um acadêmico, “as mulheres afro-americanas e suas experiências foram submetidas à invisibilidade.”

As fundadoras dos Estudos sobre a Mulher eram esmagadoramente brancas e estavam concentradas nas experiências das mulheres brancas heterossexuais. Suas visões contribuíram para o apagamento de outras mulheres. As feministas liberais pensavam que os “direitos iguais” automaticamente levariam todas em consideração, então, ninguém jamais tratou das diversas preocupações dos outros grupos. Enquanto isso, as feministas radicais socialistas estavam mais preocupadas com a economia do que com as questões raciais.

Quando as mulheres negras manifestaram-se contra a afirmação de que as brancas representavam todas as mulheres, foram tratadas com hostilidade. Franklin conta a história de Barbara Omolade, uma ativista política que ajudou a organizar um revolucionário retiro sobre a história das mulheres em 1979 que colaborou bastante com os Estudos sobre a Mulher. Em menos de 6 meses, ela se retirou do grupo alegando racismo, o que ela chamou de uma prática “difundida, sutil e desonesta” que transformou cada dia em um “campo de batalha para a inclusão”.

Omolade estava longe de ser a única mulher que enfrentava esses desafios. As mulheres afro-americanas também não foram o único grupo afetado; Franklin comprovou como “estudos” dissidentes, como os Estudos Lésbicos, foram considerados uma ameaça para os Estudos sobre a Mulher. Simplesmente admitir as mulheres negras e lésbicas ao programa dos Estudos sobre a Mulher (uma mudança que aconteceu gradualmente ao longo dos anos 80) não era suficiente.

O termo “Mulher de Outra Etnia”* também comprometeu as experiências da mulher afro-americana ao agrupar sua identidade em uma única categoria juntamente com as de mulheres de outras raças. Como resultado, algumas mulheres negras criaram suas próprias correntes de pesquisa acadêmica, desde o “Mulherismo”, definido por Alice Walker como um compromisso com a sobrevivência e a integridade de um povo, até os Estudos sobre a Mulher Negra.

“Nos primeiros anos dos programas de Estudos sobre a Mulher”, escreve Franklin, “as mulheres afro-americanas e suas experiências foram submetidas à invisibilidade.” Agora que os Estudos sobre a Mulher foram colocados na guilhotina por várias instituições, talvez as mulheres brancas poderão se identificar melhor com as mulheres que antes ignoravam.

*A tradução literal do termo original “Women of Color” (Mulher de Cor) não tem o mesmo significado em Português Brasileiro.

Citações do JStor:

Hidden in Plain View: African American Women, Radical Feminism, and the Origins of Women’s Studies Programs, 1967–1974

V. P. Franklin

The Journal of African American History, Vol. 87, New Perspectives on African American Educational History (Autumn, 2002), pp. 433–445

Association for the Study of African American Life and History

O artigo original, de Erin Blakemore, pode ser lido em: https://daily.jstor.org/how-womens-studies-erased-black-women/

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Branca Barros

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Branca Barros is a Translator, Editor, Linguist for EN<>PTB.

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