O Lyon precisa se reinventar. Urgentemente!

by: Filipe Frossard Papini
Via
C’est le Foot

Há pouco tempo, escrevia aqui sobre a supremacia que o PSG já construiu no Campeonato Francês antes mesmo de acabar o primeiro turno. No relato, apontava o Lyon, então vice-líder, como o time que “faz uma temporada completamente irregular”. E agora, apenas 12 dias depois, é muito mais palpável a situação de alerta que o time heptacampeão francês vive. Já perdeu a colocação confortável de segundo colocado e vem em franca queda. Atualmente, ocupa a 5ª posição e pode despencar até a 10ª na próxima rodada, já que muitos outros clubes estão próximos e ele enfrenta o próprio PSG no Parc des Princes.

Mas o que realmente acontece? Por qual motivo aquele time que quase arrancou o título parisiense na temporada passada vem em situação tão degradante de uma temporada pra outra já que perdeu poucas peças e fez contratações de peso? A explicação pode vir com uma série de fatores, a começar pela lesão de Nabil Fekir. Ele é um jogador da base do OL e apareceu com muito protagonismo há duas temporadas. Foi buscando seu espaço e tornou-se titular. Na temporada passada, atingiu números impressionantes para um segundo ano como profissional. Seu brilho foi ofuscado pela artilharia de Lacazette e, mesmo assim, conseguiu chegar até a Seleção Francesa. Na atual temporada, começou voando, mas logo sofreu uma lesão gravíssima que o tira dos gramados até meados de março de 2016, correndo o risco até mesmo de perder a Eurocopa que será realizada na França no meio do ano.

Fekir é fundamental no time, pois é a mente criativa. Um jogador que, do meio pra frente, é completo. Ele consegue fazer a perfeita sintonia de ligação entre o meio de campo e o ataque, seja servindo, buscando o jogo, se deslocando sem bola ou mesmo carregando a bola. É o companheiro que Lacazette precisa para poder brilhar e fazer seus gols sem demais preocupações. E por isso funcionou tão bem na temporada passada. Sem Fekir, abriu-se um buraco gigantesco no time do OL. É como um tiro de calibre 12 na prancheta do treinador. Algo extremamente difícil de remediar.

SEGUNDO PROBLEMA
Para disputar a Champions League nesta temporada, o Lyon buscou reforços interessantes: Rafael (lateral direito brasileiro do Manchester United), Mapou Yanga-M’Biwa (zagueiro da Roma, que teve uma passagem vitoriosa pelo Montpellier na França), Jérémy Morel (lateral esquerdo e zagueiro do Marseille), Sergi Darder (volante do Málaga), Olivier Kemen (volante do Newcastle — para integrar o time B), Lucas Tousart (volante do Valenciennes, também para integrar o Lyon B), Mathieu Valbuena (meia atacante do Dinamo de Moscou, da Seleção Francesa e com uma passagem histórica pelo Marseille) e Claudio Beauvue (atacante que se destacou pelo Guingamp na última temporada). De fato, são nomes que contribuem bastante para uma disputa de qualquer competição de alto nível. Mas sabe quantos deles conseguiram se fixar no time? Somente um: Mathieu Valbuena. E, ainda assim, não passa nem perto daquele baixinho habilidoso que tantos conhecem.

Mas você pode se perguntar, portanto, o que está falhando. Respondo que a diretoria tem boa parcela de culpa. E a outra é do treinador Hubert Fournier. A diretoria tem culpa, pois vendeu cinco homens de frente na última janela de transferências e repôs somente com Beauvue e Valbuena. Perdeu promessas como Farès Bahlouli (Mônaco), Yassine Benzia (Lille), Clinton N’Jie (Tottenham), Mohamed Yattara (Standard Liège), além do sempre machucado Yoann Gourcuff (Rennes). Poderia ter se movimentado mais depois da lesão de Fekir, mesmo com a janela encerrada. Existe uma brecha nas regras da competição francesa em que um clube pode contratar quando o seu atleta se machuca gravemente disputando uma partida pela seleção. Era o momento da diretoria repor com algum nome de impacto e não o fez. Apostou que Claudio Beauvue poderia ser este nome. E o que ele vem apresentando até agora não passam de exibições abaixo da média, não sendo nem sombra daqueles 12 gols marcados pelo Guingamp e isso tem prejudicado muito o elenco. Na 16ª rodada, diante do Montpellier, ele deixou o campo, após uma péssima exibição, e sequer cumprimentou o treinador. Como punição — não assumida pelo clube, claro — ele não foi nem mesmo relacionado para enfrentar o Angers na rodada deste último sábado.

TREINADOR TEIMOSO
Quando disse que o técnico também tem uma parcela de culpa, quero dizer que Fournier poderia ser muito mais presente neste momento em termos de “revolucionar” o plantel. De fato, as coisas não estão funcionando e ele precisa se mover. Desde o início da temporada, vem apostando numa formação construída pelo 4–3–1–2 que não dá resultados. Ele usou desta tática na temporada passada, que funcionou muito em função da presença de Fekir e Lacazette na frente, com N’Jie aparecendo com destaque também. Agora, ele precisa entender que não tem mais duas dessas peças importantes e não pode sacrificar Valbuena na armação das jogadas e muito menos deixar dois homens de área batendo cabeça como faz com Beauvue e Lacazette jogando juntos. Além disso, todo jogo ele experimenta uma dupla de zaga diferente e não tem como construir um entrosamento assim. Está tudo errado e ele não consegue perceber o erro.

Abaixo, deixo a formação tática base do treinador do Lyon (esq.) e, logo ao lado (dir), a formação que eu imagino que seria a ideal no atual cenário.

Historicamente, o Lyon está acostumado a jogar no 4–3–3. Esta foi a formação básica da sequência de sete títulos e pode, sim, ser o grande pilar da reconstrução da equipe neste momento. Afinal de contas, desde outubro de 1996 que o Lyon não troca de um treinador ao longo da temporada e o que é possível acompanhar na imprensa francesa é que o presidente do clube, Jean-Michel Aulas, já começa a vislumbrar um cenário de talvez contratar o técnico René Girard, com passagens recentes pelo Montpellier, onde foi campeão da Ligue1 em 2011/12 e pelo Lille. O termômetro para o cartola do Lyon será os próximos jogos: contra o Valência, já não valendo mais nada pela Liga dos Campeões. E contra o Paris Saint-Germain, domingo, pelo encerramento do primeiro turno da Ligue1. Ou seja: Fournier está com uma missão complicadíssima para se resolver e pode ser o primeiro treinador do clube deixar o vestiário no meio de uma competição depois de 20 anos de tabu.

TRABALHO COMPLICADO
É preciso pontuar que o Lyon, já de alguns anos, vem tendo inúmeros problemas de lesões durante as temporadas e isso vem atrapalhando o clube de uma forma tão séria que, assim quando Fournier assumiu o comando, toda a estrutura de preparação física foi reformulada. Robert Duverne, que era o profissional da área, foi demitido já no primeiro dia de comando do novo treinador, que alegou que o OL sofreu demais com lesões físicas e recorrentes nos últimos anos, e que isso precisava ser melhor estudado. Para se ter uma ideia, na temporada 13/14, o elenco sofreu 37 lesões. Só Gourcuff foi vítima de seis. Dabo, quatro e Miguel Lopes, três. A partir de então, um novo método de preparação física foi implementado no clube. Alexander Marles, do PSG, foi contratado. Ele se tornou o “Chefe do Departamento de Performance”. Algo como o chefão da equipe de preparadores físicos, fisiologia, nutrição, fisioterapia, etc.

Marles indicou dois outros profissionais para trabalharem diretamente com ele: Antonin da Fonseca (que estava no Lyon Feminino) e Dimitri Farbos (ex-Toulouse). O novo método de treinamento foi ativado de imediato e começou com uma preparação de pré-temporada diferente, baseada em andar de bicicleta na altitude dos alpes e fazer rafting em rios e corredeiras. Além disso, Gourcuff, que vivia no departamento médico, começou a ter um acompanhamento especial. Praticamente colocaram um preparador físico somente trabalhando em função dele.

Ao longo da temporada passada e desta, ao que tudo indica esses novos métodos não surtiram tantos efeitos. A começar por Gourcuff, que deixou o clube sem se recuperar plenamente e até hoje não deu as caras dentro de campo pelo Rennes. Sem falar que, no atual momento, o time conta com sete desfalques de ordem física, sendo que acabou de receber Grenier de volta, que estava desde junho ausente. Definitivamente algo estranho acontece na parte médica do time e que, gestão após gestão, nunca se descobrem o verdadeiro motivo, mesmo após uma reformulação séria e completa.

E VEM MAIS PRESSÃO
O Lyon se despediu do Stade Gerland neste último sábado diante da derrota por 2 a 0 contra o Angers. Foi a última partida que o estádio municipal recebeu da Ligue1, um marco de 65 anos de história que dará espaço ao novo campo que está sendo construído: o Stade des Lumières, erguido com recursos próprios e que terá espaço para aproximadamente 67 mil torcedores. Ele está previsto para ficar pronto no dia 09 de janeiro de 2016 e será palco da próxima Eurocopa, recebendo, inclusive, uma das partidas da semifinal.

De certo, neste caso, o último culpado são eles: os jogadores.