127 anos de República: breve retrospecto

Hoje, dia 15 de novembro de 2016, se completam 127 anos da Proclamação da República. Claro, foi uma data histórica para o Brasil, onde finalmente ocorreu a queda do Império, forma de governo que atrasava o país, uma vez que todos os outros países latino-americanos eram repúblicas. Ou, pelo menos, foi assim que nos ensinaram.

Pois bem, isso não vem ao caso. Façamos uma breve análise sobre esses 127 anos republicanos que moldaram o Brasil e fizeram dele como o que conhecemos hoje.

Começando por Deodoro da Fonseca, o grande herói republicano. Seu governo foi marcado por instabilidades que forçaram sua renúncia. Seu vice, Floriano Peixoto (conhecido como Marechal de Ferro), assumiu logo em seguida, dando início a um regime militar recheado de guerras. Assim foi no princípio, na conhecida “República da Espada”.

Após tal período, assume Prudente de Morais, com um governo sempre à beira do colapso, mas que conseguiu apaziguar as revoltas no sul do país. Teve início, a República Oligárquica, que também marcou a chegada dos civis ao poder.

Com Campos Sales, teve início a política do café com leite, onde a presidência era alternada em representantes mineiros e paulistas. Tal presidente é lembrado pela sua política econômica, que para colocar a economia de volta nos trilhos, até parou de emitir dinheiro, além de subir todos os impostos existentes e criar outros.

Rodrigues Alves assumiu em seguida. Seu governo foi marcado pela Revolta da Vacina e pelo Convênio de Taubaté (responsável pela valorização do café). Foi a mesma época do ciclo da borracha, onde o norte do país crescia como nunca. Tal período também é lembrado pelo Tratado de Petrópolis, que em poucas palavras, comprou o território que hoje corresponde ao Acre, da Bolívia.

Logo em seguida vieram, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca (cujo período foi extremamente conturbado), Venceslau Brás, Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes (outro governo de conflitos internos) e finalmente, Washington Luís.

Washington Luís governou em um período ainda conturbado, mas conseguiu colocar fim a alguns problemas, como a Coluna Prestes. No entanto, se por um lado o Brasil saía de um período de crise política, não tardaria a sofrer economicamente com o crash da bolsa de valores de Nova Iorque.

Era o fim da República Velha. Washington Luís foi deposto com a Revolução de 1930, e sobe ao poder, Getúlio Vargas, impedindo Júlio Prestes de tomar posse.

O governo de Getúlio é lembrado por diversos avanços, como na legislação trabalhista, o voto secreto, o fortalecimento da indústria, dentre outros. Mas é válido lembrar das crises ocorridas durante o período, como a Revolução de 1932 e a Intentona Comunista.

Também foi o período do famoso “Estado Novo”, de caráter autoritário e centralizador, que teve apoio não apenas de civis, mas também dos militares. O Brasil teve também participação na Segunda Guerra Mundial, apoiando os Aliados.

Após uma grande pressão política e uma possível revolução, Getúlio renuncia em 1945.

Sobe ao poder, o militar Eurico Gaspar Dutra. Porém, nas eleições seguintes, sobe ao poder ninguém menos que Getúlio Vargas. Esse segundo período no poder foi marcado por novas crises políticas. Um atentado a Carlos Lacerda gerou uma nova pressão para a renúncia do presidente, que o levaram a suicidar-se em 1954.

No período seguinte, houve uma crise política tão grande que fora necessário uma intervenção militar para garantir a posse do presidente, nesse caso, Juscelino Kubitschek, que iniciou uma fase de modernização do país, lembrado pelo famoso slogan “cinquenta anos em cinco”. Foram considerados os Anos Dourados, e JK até hoje é considerado um herói político. Ele também foi responsável pela realização de um antigo sonho, a construção de Brasília.

Assume então, Jânio Quadros, em um curto período de governo. Jânio não tinha apoio político, e por se preocupar muito com assuntos pitorescos, acabou renunciando após quase oito meses de mandato.

Em seu lugar, fica Ranieni Mazzilli por um curtíssimo período de tempo até a chegada de João Goulart para tomar posse. Foi mais um período conturbado, onde temiam que Goulart se aproximasse do PCB e do PSB. Contudo, ele conseguiu.

Houve então a abertura a movimentos como o estudantil e o operário, que gerou desconfiança popular e a revolta por parte dos militares. O Brasil foi mergulhado em uma crise política que beirava uma revolução. Foi então que no dia 31 de março, tropas do exército saem às ruas. Goulart foge para o Uruguai e os militares tomam o poder.

Hoje há quem diga que não teve, no Brasil, uma ditadura militar. A meu ver, se o AI-5 e os chamados “Anos de Chumbo” não caracterizarem uma ditadura, então não sei o que realmente é uma ditadura. Durante o período militar, houve considerável crescimento econômico, mas que acabou freado pelas Crises do Petróleo. É válido lembrar da luta dos militares contra grupos guerrilheiros que surgiam em diferentes regiões, mas isto não diminui o caráter ditatorial do período.

Em um salto, vamos ao ano de 1985, ano da redemocratização. Tancredo Neves foi eleito por voto indireto, mas morreu antes da posse. Assume seu vice, José Sarney, dando início ao novo período democrático brasileiro. Seu governo herdou os problemas econômicos do governo militar, principalmente a inflação.

Em 1988, fora promulgada a Constituição Federal que deu início ao Estado Brasileiro, agora, democrático. Foi no ano de 1990 em que o povo brasileiro elegeu o primeiro presidente por voto direto após a redemocratização. Fernando Collor foi eleito presidente, propondo algumas medidas para o controle da economia, como o congelamento dos preços e o confisco das cadernetas de poupança. Por acusações de corrupção, o presidente acabou por sofrer impeachment em 1992, assumindo a presidência, seu vice, Itamar Franco.

Itamar Franco foi o responsável por colocar em prática o Plano Real, que acabou com a hiperinflação e estabilizou a economia.

Em 1994, foi eleito Fernando Henrique Cardoso, sendo reeleito também em 1998. Sua política econômica manteve a estabilidade, mas no seu segundo mandato, o Brasil foi afetado por uma crise econômica mundial. Além disso, a mudança do regime cambial (de câmbio fixo para câmbio flutuante) gerou a desconfiança dos investidores externos. Isto gerou uma nova crise política e econômica, onde foi necessário recorrer ao FMI para conter a desconfiança externa e a disparada do dólar. Houve também o crescimento dos níveis de desemprego, onde o Brasil ficou em segundo lugar no ranking mundial. Fernando Henrique também recorreu às privatizações de setores considerados não-essenciais. Rodovias, bancos e empresas de telefonia e energia foram terceirizadas, como por exemplo, a Vale do Rio Doce.

Em 2002, chega ao poder Luís Inácio Lula da Silva. Seu primeiro mandato foi marcado pela estabilidade econômica e a redução do número de desempregos. Foram criados e ganhou força programas sociais para atender as camadas mais pobres da sociedade como o Fome Zero e o Bolsa Família.

Lula foi reeleito com uma alta taxa de aprovação por parte da população e governou até o ano de 2009.

Em 2010, apoiada por Lula, Dilma Rousseff chega ao poder. Dilma, até então desconhecida pela maioria dos brasileiros, prometia continuar o governo de Lula, além de prometer erradicar a pobreza e alterar a política tributária.

No ano de 2013, diversas manifestações reivindicando melhorias por parte do governo federal estouraram em todo o país, desencadeados pelo aumento do preço das passagens do transporte público paulista. A Copa do Mundo de 2014 também foi duramente criticada pelos manifestantes que denunciavam os gastos excessivos na construção dos estádios.

Em 2014, em meio a uma dura crise política, Dilma é reeleita, frente a Aécio Neves. O ano de 2015, no entanto, foi marcado pela paralisação política, um período de inércia pelos constantes enfrentamentos entre o Poder Executivo e Legislativo. As acusações sobre um suposto crime de responsabilidade fiscal (as pedaladas fiscais), além da crise interna dentro do Partido dos Trabalhadores provocada pelo avanço da Operação Lava Jato descredibilizou completamente seu governo. Além disso, o aumento do preço da conta de energia elétrica e uma possível volta da CPMF geraram a revolta popular. Diversos protestos continuaram a acontecer, além dos famosos “panelaços” sempre que Dilma se pronunciava em rede nacional.

Com toda a crise, Dilma começou a perder apoio até mesmo de seu próprio partido, e o PMDB, principal aliado petista, ameaçava deixar o governo. No fim de 2015, após um complicado jogo de interesses com o Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, este decide abrir um processo de impeachment por crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff.

Em 2016, com longas discussões dentro da Câmara e do Senado, Dilma parecia estar à beira de sua queda. Não bastasse a crise política e econômica que agora se mostrava mais presente do que nunca, o PMDB rompe com o governo, e um efeito em cascata retira vários partidos da base governista, como o PP, quarta maior bancada na Câmara.

Em abril, a Câmara aprova o processo de impeachment, sendo que logo em seguida, o Senado também aprovou, afastando a presidente por até 180 dias para o julgamento. Foi um período extremamente conturbado, onde a crise se intensificava, até que finalmente, o Senado aprova a cassação do mandato de Dilma Rousseff, mas mantém seus direitos políticos em uma controversa divisão da votação, aceita pelo Presidente do STF, Ricardo Lewandowski.

Assume então, Michel Temer, e é onde chegamos, nos dias atuais.

Com a crise econômica, um governo com baixa popularidade, um cenário político apocalíptico e o total descrédito da população principalmente com o Poder Legislativo, Temer tenta colocar a economia de volta nos trilhos. Após ver alguns de seus ministros serem presos nos primeiros dias após sua posse e o vazamento de áudios comprometedores na Operação Lava Jato, o presidente tem um duro caminho pela frente. Depois de determinar, por medida provisória, a reestruturação do sistema de ensino e agora enviar ao Congresso a PEC 241, o governo vê o crescimento de movimentos que questionam sua legitimidade, principalmente o Movimento Estudantil.

Bom, é nesse cenário que encontramos a República Federativa do Brasil, instaurada para acabar com o atrasado Império do Brasil. Durante seus 127 anos, o que se viu foram incontáveis revoltas por todo o país, crises políticas, crises econômicas, golpes de Estado, três períodos ditatoriais, períodos onde o país foi dominado por oligarquias, inúmeros casos de corrupção e a destituição de dois presidentes nos vinte oito anos de redemocratização.

Neste dia 15 de novembro de 2016 não há o que se comemorar. Incrível ver que ainda há quem diga que a República Presidencialista funcionou no Brasil. :)