A geração de publicitários que criou uma geração de babacas

Quando conto para as pessoas que já trabalhei em agência publicidade, o primeiro comentário é sempre: “Uau, que divertido. Tem um monte de festas e vocês podem se vestir como quiser, não é mesmo?”.

E é mesmo. Tem mil festas dentro e fora da agência, de segunda à segunda. E sim, as pessoas se vestem como querem, mesmo que isso signifique incorporar o mendigo ou a piriguete em pleno horário comercial.

“Péra” um pouco, horário comercial que não é beeeeem horário comercial, né? A galera chegando às 10h (quando não às 11h), fazendo academia + almoçando + indo ao salão no período digno de 3 horas de almoço. Isso sem contar aquelas reuniões super produtivas (#sqn) que duram mais 3 horas, das quais pelo menos metade é para contar piadas, fofocas, falar sobre assuntos da “moda” e por aí vai.

E depois a culpa SEMPRE é da quantidade de jobs e não da procrastinação.

Claro, não estou falando que não tenha job, porque isso aí é o que mais tem.

A cultura das agências de publicidade é de aceitar tudo que o cliente pedir, independente do tamanho do job, do prazo e sem contar que, por trás dos prazos e pedidos bizarros, existem seres humanos que vão sacrificar suas vidas para entregar um trabalho que provavelmente nem vai ao ar, devido aos ajustes, cortes de verba, mudança no humor de quem o pediu.

E não pára por aí: tudo começa de forma muito simples, onde os bons funcionários são enaltecidos quando fazem algum bom trabalho. E ficam felizes por isso, afinal, quem não gosta de ser elogiado? E é aqui seu ego começa a ser inflado. E tudo acontece muito rápido. De repente, você é a “bola da vez” na agência, todos os olhos se voltam para o que você entrega, as melhores contas passam a ser suas, sua mesa ganha uma fila de pessoas querendo uma “consultoria” para seus próprios jobs e tal. Acontece que você não está preparado emocionalmente para esse rápido upgrade e começa a ficar estressado. E aí, você erra em alguma coisa. Qualquer pessoa sempre vai errar em alguma coisa, é normal. E então, vem a “ressaca” do sucesso: você, de um dia para o outro, já não é mais tão incrível assim aos olhos das pessoas.

“Mas poxa, todo mundo erra”, pensa você. Só que já é tarde demais e tem outra bola da vez brilhando no seu lugar. E como o seu ego, já inflado, não aceita ser diminuído, começa então a guerra não declarada para que você volte ao topo. E é aí que o pior das pessoas aparece (inclusive o meu chegou a aparecer): é onde começam as intrigas, discussões, gritos (sim, é normal ouvir as pessoas berrarem entre si). Tudo em prol do seu ego, que quer te fazer chegar ao topo novamente.

E é nesse vai-e-vem emocional que, somado à quantidade de horas trabalhadas e à quantidade de álcool (quando não drogas) ingeridas, as pessoas começam a ficar deprimidas. Ou com transtorno de ansiedade, ou com pânico. E aí é ladeira abaixo, mesmo que alguns achem isso completamente normal.

Quer ver ao vivo? Basta passear por uma agência e fazer duas simples perguntas aos funcionários: quem toma/já tomou algum tipo de antidepressivo e quem usa/já usou algum tipo de droga. EURECA!

Se você não é do nosso mercado, deve estar dividido entre duas opiniões:

  1. Isso é muito legal, quero trabalhar em agência também.
  2. Nossa, como isso acontece e ninguém faz nada?

Eu já passei pela fase 1, depois entrei firmemente na 2, de forma tão aguda que tive que “arregar e pedir para sair” como muitos costumam me dizer.

E eu escuto chacotas o tempo inteiro, piadas como “não aguentou”, “retrocedeu”, “ficou careta”, mas garanto que nada paga o meu sono tranquilo, os meus horários um pouco mais fixos, a paz de sair do expediente e saber que só vão te mandar um whats app se a demanda for MESMO muito urgente. Nada paga me sentir um ser humano de novo.

Esse é um desabafo não de ódio, mas de decepção porque eu era aquela sonhadora que entrou na faculdade almejando trabalhar em uma agência bacana, em um prédio descolado, atender clientes legais e conviver com pessoas inteligentes.

E eu encerro esta reflexão dizendo que parte da culpa de tudo isso é minha. Parte da culpa é sua. Parte da culpa é de todos aqueles que se fantasiaram de publicitário legal e descoladão, conquistando as pessoas que estão de fora com seu jeito divertido e suas roupas diferentonas. Que mostram um ambiente descolado e aparentemente leve, mas que esconde drogas e antidepressivos na gaveta para conseguir aguentar a pressão, a briga de egos e as cargas horárias desumanas.

Mais do que ser famoso, moderno ou o que quer que seja, o importante é ser feliz. E, infelizmente, muitas vezes eu cheguei a achar que a felicidade não existia, ou até que eu não a merecia, dadas as circunstâncias do dia a dia em agência que deixam qualquer ser humano íntegro no limite.

E aí minha pergunta ressoa: “até quando?”.

E a resposta vem praticamente como um eco: “enquanto a geração atual de publicitários continuar criando uma próxima geração de babacas”.