Eu me tornei a mulher dos meus sonhos. E agora, o que eu faço com isso?

Primeiro, era a síndrome de Comer, Rezar, Amar: eu estava sempre começando ou terminando relacionamentos, quando não estava encontrando formas mirabolantes de começa-los ou termina-los.

Então eu só queria ser aquela pessoa centrada, inundada de autoconhecimento, que exalasse experiência e transmitisse um ar de maturidade quando passasse por aí.

Eu queria ser a mulher que superou seus perrengues, encarou seus próprios monstros, caiu e levantou sozinha.

Não queria que alguém sempre abrisse e fechasse o zíper dos meus próprios vestidos. E também não queria deixar de usá-los porque o tinham de ponta a ponta das costas. Então, eu escolhi ser malabarista, contorcionista e equilibrista — custasse o que custou — e aprendi a vesti-los e despi-los sem a ajuda de ninguém.

Falando em vestidos, eu não estava a fim de usar sempre os mesmos. E nem de dar satisfação sobre quantos eu comprei e porque mudei de estilo, já que ele se agradava tanto do jeito como eu era. MUDAR PRA QUÊ se você já tem quem te ame?

E aí eu joguei tudo para o alto em busca de me tornar a mulher dos meus sonhos, ao invés de ser a mulher dos sonhos de alguém.

E então eu me reencontrei com tanta coisa boa, mas ao mesmo tempo tinha tantos reparos à fazer. Tantos cômodos da minha casa interior haviam ficado esquecidos, fechados, esperando só a hora de serem visitados novamente.

Já reparou que o cansaço nunca vem enquanto você está fazendo a faxina em casa? Ele aparece mesmo no momento em que você dá aquela sentadinha no sofá para relaxar por só 5 minutos.

Pois é.

Enquanto eu botava ordem na minha casa interior, estava me mantendo ocupada e orgulhosa por estar dando conta, mesmo quando me encontrava aos trancos e barrancos.

O que me vem à tona hoje só surgiu a partir do momento em que eu cheguei lá, quando acabei a faxina e pensei que era chegada a hora de desfrutar de toda essa limpeza.

Acontece que eu me tornei a mulher dos meus sonhos. E agora, o que eu faço com isso?

Agora que sou tão desejada por mim mesma, o que mais quero é ser a mulher dos sonhos de alguém. Mas, como a caminhada até aqui foi tão árdua, não estou disposta a deixar de ser quem eu sou para ser quem querem que eu seja.

Eu quero ser amada? SIM. Mas eu não quero bagunçar a ordem em que habito atualmente, não estou disposta a mudar nenhum móvel de lugar, nem sequer mexer na decoração, quanto mais fazer um “puxadinho” e incluir cômodos novos. Tá tudo tão arrumado por aqui que dá dó de desarrumar, sabe?

E então, enquanto escrevo esse texto, em meio à toda paz que reina minha casa (externa e interna), percebo que o próximo passo nessa jornada é desapegar e recomeçar mais uma vez.

E, agora, o processo é contrário.

É tempo de desconstruir.

É tempo de se desprender do que eu queria me tornar e deixar a vida mostrar o que tem guardado daqui para frente.

É tempo de entender que a gente só precisa se autoconhecer para depois se desconhecer de novo. E se surpreender com isso.

Aceitar os novos caminhos. E as boas surpresas que podem chegar junto com eles.

E lembrar sempre que, quando a gente faz uma faxina e arruma a casa, é só para ter o prazer de bagunçar tudo de novo!