201 dias

Hoje fazem 201 dias que me mudei para a minha casa. Senti, assim que pisei aqui, que era a minha casa. Não tinha nada, não tinha onde sentar. Não sabia nada, não sabia me virar e fui tateando soluções para necessidades básicas. Lembro de ir comprar a tampa do vaso sanitário. Descobri que aquelas acolchoadas que queria eram caras. Olhei o que tinha de dinheiro guardado para o começo dessa vida e, foi neste momento, que percebi o quanto eu teria menos facilidades. Aquelas facilidades que morar com mãe proporciona, sabe?

Eu tinha um colchão de ar, dois lençóis, três edredons, um tablet e malas cheias de roupas. Eu não tinha luz, chuveiro, fogão, geladeira, mesa e cadeiras. Eu tinha vontade, eu tinha anseio de mudança e tinha gás para encarar a novidade que vinha dando socos na minha cara. Eu não tinha medo.

As coisas, ganhadas de presente, foram chegando aos poucos. Lembro de banho gelado vindo de um cano (porque não tinha chuveiro), de subir e descer — todos os dias — seis andares de escada fazendo mudança (porque o prédio não tinha ligado o elevador) e de carregar o celular e o tablet na tomada da luz de emergência do corredor (porque não tinha luz).

Naquele primeiro momento não havia tanta saudade: a euforia de estar se lançando no novo, no desconhecido, provocava sorrisos incríveis meio ao vazio de móveis e eletrodomésticos que minha casa exaltava. Mas aí as coisas foram, aos poucos, chegando. Foram se estabelecendo. A saudade entrou e viu que tinha um banquinho de plástico pra ela sentar e bater um papo. Ela chegou trazendo uma cervejinha pra mostrar que veio para ficar mesmo. “Faz parte, faço parte”, ela me disse. Eu a abraçei, né? Ela estava certa.

Hoje fazem 201 dias que comecei tudo do zero, que dei o passo que sempre quis dar em busca de mim, em busca de uma vida que sempre achei que poderia ter. Está difícil, está gostoso, está indo. Mudar de Estado, não ter mais suas referências de amigos, família, lugares e memórias é bastante angustiante, mas para os inquietos é preciso. Criar novos amigos, laços e referências é um trabalho árduo que vale a pena. Ele é feito a quatro mãos, suas e da saudade.

E assim, tudo vai se ajeitando. E meu eu de 201 dias atrás deve olhar para este novo eu, amigo da saudade, e ter uma inveja imensa. A gente muda bastante, sofre bastante, ri bastante e, avaliando, pensa que foi uma decisão bastante certeira ter feito tudo isso.

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