Imensuráveis caracteres de solidão

A genialidade de Gabriel García Márquez reverberará para sempre na mente dos apaixonados por sua obra máxima.

Foto: AP Photo/Miguel Tovar

A América Latina vivia um momento de turbulência na década de 60: ditaduras e pressões internacionais definiam o contexto político de um continente que sempre esteve à margem do processo sociocultural global. Contudo, foi nesta década que os autores latinos vieram à tona, fincando a região no mapa mundial da literatura — em um processo que, anos mais tarde, seria denominada como boom latino-americano.

Nomes como Jorge Luís Borges e Alejo Carpentier são considerados os precursores do chamado Realismo Fantástico. A corrente literária ajudou a construir a identidade sociocultural latina, de modo que os autores tinha um pacto com o leitor: contar a realidade de um continente empobrecido, mostrando elementos estranhos e sobrenaturais como algo habitual.

Assim, o movimento encheu de criatividade os romances ocidentais, além de abrir caminho para Gabriel García Márquez eternizá-lo no grande expoente de seu legado: o livro Cem Anos de Solidão.

O encantador mundo de Macondo

Em sua obra-prima, Gabo narra a fundação da aldeia de Macondo pela família Buendía, bem como a interminável marcha da estirpe rumo à solidão. O início da história é considerado um dos mais memoráveis de toda a literatura. Através de uma superposição de tempos narrativos, García Márquez nos fisga logo na primeira frase:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquele tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Quais teriam sido os motivos e as consequências de tal fuzilamento? E por que esta situação se entrelaça com um momento tão distinto como uma tarde entre pai e filho? Questionamentos comuns, mas rapidamente implantados na cabeça do leitor — que instantaneamente se vê envolvido pela narrativa.

A princípio apresentada como uma aldeia com certas riquezas naturais e livre de divisões sociais, Macondo vai se transformando em um palco da presença mítica, tendo processos de hibridização populacional, guerras pelo poder e marcas do imperialismo econômico como pano de fundo.

Tais peculiaridades encontram-se intimamente ligadas à forma como é retratada a identificação cultural dos habitantes, os quais, nos diferentes períodos de existência da comunidade, são expostos às diversas mutações nos costumes, hábitos e na organização social do local.

A trajetória da família Buendía começa com o casamento de José Arcádio com sua prima Úrsula. A primeira geração é composta por três filhos: o primeiro, batizado com o nome do pai. Forte e viril, o primogênito era totalmente diferente de seu irmão do meio, Aureliano. Este, apesar de calmo e filosófico, viria a se tornar o grande militar da aldeia anos depois. Por fim, a introvertida e típica dona de casa, Amaranta.

Ao decorrer da construção do conto, vamos acompanhando o surgimento de novas gerações dos Buendía. A complexidade em relação ao alto número e nomes de personagens não atrapalha o sabor da leitura, pois a árvore genealógica presente no livro facilita o desencadear da trama.

Em meio à toda sorte de Arcádios e Aurelianos, percebe-se o movimento circular da história na cidade fictícia — e é aí que o Realismo Mágico começa a dar as cartas.

Combinando sonhos, religião e fantasia, o autor envolve todas as dimensões de imaginação que um ser humano possa conceber. Os limites da verossimilhança são transpostos sem perder a referência do real. A narrativa, além de reunir uma gama de sujeitos representantes da mistura de povos que formam a estrutura populacional do território, expõe eventos que ultrapassam as tênues fronteiras entre ficção e realidade.

Episódios sobrenaturais como o de Remédios, a Bela, são vistos como corriqueiros. Mesmo podendo ter qualquer homem para si, a mulher mais bonita que já se viu no mundo não se envolve com nenhum dos que a perseguiram até a morte. Sendo assim, um dia ascendeu aos céus sem malícias ou pensamentos mais complexos.

Outra interessante passagem na qual o concreto se confunde com a lenda: o dilúvio após a matança promovida pela companhia bananeira. Segundo Gabo, sua duração ultrapassa até mesmo a famosa tempestade bíblica — a qual teria durado cerca de 400 dias.

“Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento. O céu desmoronou-se em tempestades de estrupício e o Norte mandava furacões que destelhavam as casas, derrubavam as paredes e arrancavam pela raiz os últimos talos das plantações.”

Elementos externos à obra

Todos os acontecimentos mágicos possuíam algum significado, seja dentro ou fora do contexto da história. Isso porque Gabriel García Márquez sempre fazia um paralelo entre Macondo e a América Latina. A trajetória de lutas — quase sempre terminadas em derrotas — presente na jornada do líder militar da aldeia ilustra com primor o processo histórico latino-americano com sua caminhada por autonomia política e territorial, iniciada num período de descolonização e seguido por épocas em que os regimes ditatoriais foram a tônica da configuração dos governos do continente.

Esquerdista convicto e declarado, o colombiano foi um intelectual de seu tempo, nunca tendo deixado de se posicionar politicamente. Vários foram os casos de suas manifestações: apoio ao amigo Fidel Castro, críticas às políticas dos EUA e greve contra o governo de Pinochet no Chile.

Criado pelas tias, Gabo também não hesita em utilizar falas e desfechos calcados no rico folclore colombiano. O autor relata episódios de caráter sobrenatural com a naturalidade de alguém que acreditava plenamente em tudo aquilo que grafava.

Dessa maneira, Cem Anos de Solidão apresenta-se como um reino fantástico de homens alucinados e mulheres históricas. Não à toa, ao término da leitura, nos sentimos membros da estirpe condenada à solidão. E Macondo, mesmo destruída, permanece intacta entre as mais íntimas de nossas lembranças.

Apesar do maior apreço por outros contos, Gabo não negava que o livro é a grande obra-prima de sua vida. Afinal, sua maravilhosa escrita rendeu-lhe o prêmio Nobel de Literatura no ano de 1982. No comunicado da premiação, a Academia afirmou que “os grandes romances de García Márquez evocam os de William Faulkner e Balzac”.

Publicado em 1967, Cem Anos de Solidão é considerado a mais importante obra em espanhol desde Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.