A Dissecação da Angústia
O despertador toca. Tenho a impressão de que acordei tarde demais, mas não: o relógio marca em torno de 6:10 da manhã. O dia está prestes a começar. O sol, então, torna-se o protagonista em meio a um emaranhado de nuvens. Como de costume, vou até a cozinha e tomo meu café da manhã, já pensando no que hoje acontecerá. Rapidamente, me visto e acordo a minha mãe, para que possa me levar à Faculdade. Mesmo com um semblante cansado, não hesita em realizar tal tarefa. Entramos no carro e seguimos. A correria e a pressa tomam de conta das ruas de uma maneira que me aflige. Penso: “Como eles não percebem que tudo isso será em vão?”, “E se eu for um deles, sem perceber?”, “E se eu morrer antes de achar minhas respostas?”. Logo, esqueço disso e começo a pensar no momento em que eu chegar na Faculdade, e confesso que estou ansioso, afinal, verei um cadáver pela primeira vez. Cheguei. O dia há de ser maravilhoso. Há poucas pessoas no refeitório e que, por sinal, parecem estar bastante sonolentas. Algumas tomando café e outras, ainda chegando. Converso com alguns amigos e, algum tempo depois, vamos ao laboratório de anatomia. Coloco meus pertences em um armário, visto meu jaleco e entro na sala. Neste momento, é como se tudo passasse em câmera lenta. Vejo três cadáveres cobertos por uma espécie de lençol, algumas pessoas conversando, um pouco inquietas, alguns ventiladores que me incomodam com seus barulhos e, ao mesmo tempo, paro e reflito acerca da vida dos cadáveres e, mais uma vez, penso: “Será que eles descobriram suas respostas?”, “Será que seus familiares sabem o paradeiro destes?” ou até mesmo “Devo me preocupar com estes questionamentos?”. Em pouco tempo, nosso professor nos instrui acerca do correto manuseio das ferramentas e a forma como iremos dissecá-los.
— Deverão realizar cortes superficiais, de modo que o tecido adiposo fique à mostra. Tomem cuidado para não estragar as peças e respeitem o cadáver. Infelizmente, a sociedade não deu chances a ele. Qualquer forma de desrespeito será punida. — Disse-nos. Assim, vagarosamente, tirou o lençol de cima do cadáver e nos liberou para iniciarmos a dissecação. Eu estou paralisado. Vejo a face dele e sinto uma angústia inexplicável. Penso em cada momento vivido por aquela pessoa, em cada choro, em cada conquista e no momento de sua morte. “Como deve ser a sensação de morrer?”, “Será que ele percebe a nossa presença?” e “Por que eu ainda estou fazendo tantas perguntas?”, pensei. Logo, percebo que meus colegas já haviam começado a tarefa. O professor me diz o local em que eu devo realizar os cortes e assim o faço. Pego o bisturi e começo a cortar. Fiz da melhor forma que eu podia. O formol fazia-me lacrimejar e, ao mesmo tempo, era como se eu sentisse a dor dos cortes, mesmo que não o demonstrasse. O tempo passou e eu consegui terminar a tarefa com êxito, inclusive. Cobrimos o cadáver, guardei meus instrumentos, tirei as minhas luvas e lavei as minhas mãos. Me senti aliviado, por um pequeno instante, mas depois, um criminoso. Senti uma certa inveja do cadáver pelo simples fato de ele ter descoberto o que ninguém nunca voltou para nos contar. Naquele exato momento, eu quis morrer. Enquanto isso, saio da sala pensativo e todos estão percebendo como estou me sentindo. Pego meus pertences no armário e ando pelo corredor, para assistir outra aula, e acabo esquecendo de tirar o jaleco. Volto, tiro a bolsa das costas, tiro o jaleco, dobro-o e coloco-o na bolsa. A essa altura, me olhavam com um sentimento estranho. Permaneci calado até começar a aula.
Antes de começar, o professor nos pergunta: “Para vocês, o que é Saúde?” Algum aluno diz, então, que é um bem estar mental, físico e social. Logo após, digo que a saúde é um estado de ausência da doença. Posteriormente, o tutor diz que a minha visão está ultrapassada, e que perdurou por séculos em nossa história. Sendo assim, eu estava errado. Me senti um nada e acho que a resultante de acontecimentos deve ter me proporcionado isso. Por conseguinte e, de forma irônica, eu acho, o professor coloca um vídeo que tinha como título: “A Morte é um dia que vale a pena ser vivido.”, o qual fala sobre cuidados paliativos e a importância da atenção aos últimos momentos dos pacientes, o que me remete novamente à imagem do cadáver. De uma certa forma, me sinto culpado pelo que fiz e pensei. Confesso que quando olhava o corpo, cogitei a ideia de tentar exprimir o que senti, mediante estas palavras. Estaria, eu, errado? O vídeo acabou e fomos embora. Cheguei em casa e cá estou eu, tentando compreender o que se passou. Vai ver que o cadáver me entendeu. Vai ver que sou eu quem preciso ser dissecado.
