Batman v Superman: Como desconstruir a ideia de Deus.

Quando assisto um filme, raramente ou quase nunca me preocupo com quesitos técnicos, muito em voga de que não me julgo apto a abordar tal temática e, a partir desses pontos levados em consideração, determinar se um filme é bom ou ruim. O que sempre me chamou atenção em um filme, ou em qualquer forma de expressão artística, é a mensagem — ou mensagens — que o autor tenta transmitir. E é por isso que, particularmente, eu adoro Batman v Superman, enquanto alguns filmes focam em apresentar um questionamento, e desenvolver ele durante todo filme, e respondendo ele no final, Batman v Superman, responde um questionamento com outro questionamento, gerando assim um infinitude de ideias que são apresentadas durante o filme. Porém, esse texto não está sendo criado pra falar sobre Batman v Superman como um todo, mas sim, sobre uma cena especifica: O monologo do Lex Luthor diante do Superman, onde ele apresenta a problemática do mal.

O nosso mundo é infestado pelo o que Santo Agostinho definia de ‘Mal Moral’: Guerras, torturas, estupro, assassinato e outro infinitos atos de violência sem sentido. Em todas as cidades do mundo, todos os dias existem pessoas deliberadamente causando dor em seres humanos e outros animais, e em alguns casos, até usufruindo do sofrimento alheio. Existe também o ‘Mal Natural’ como doenças, fome, enchentes e terremotos. Tudo isso é terrível, mas inegável. Para qualquer um que acredite na existência de um Deus benevolente que é onipresente, onisciente e onipotente, esses problemas apresentam uma questão significativa, um problema, o ‘problema do mal’ abordado por Epicuru. Como um Deus bom pode permitir qualquer pessoa de fazer coisas horríveis como citadas anteriormente? Se Deus é onisciente e conhece tudo, então ele/ela está totalmente ciente do que acontece no mundo e se é onipotente, poderia facilmente resolver todos os problemas do mundo. O problema do mal é uma questão genuína para qualquer pessoa que queira acreditar que existe um ser todo poderoso. Esses problemas fazem com que busquemos um salvador, alguém que olhe por nós e que nos garanta que tudo vai tá bem. Porém, isso também é abordado por Lex, sobre ideia de livre-arbítrio, de que Deus, mesmo sendo onipresente e onipotente não pode determinar o que fazemos ou intervir, isso nos tornaria ‘automata’ programas sem a capacidade de decidir por conta própria. Porém mesmo que você aceite a resposta de “livre-arbítrio” isso não explica o ‘Mal Natural

Tendo tudo isso em mente, podemos ver de onde o Lex tira o seu argumento para construir seu monologo, mas o mais importante é a relevância que essa cena tem para a nossa percepção do Superman. O primeiro ato do filme constitui cenas de montagens de resgates feitos pelo Superman, além de debates fervorosos envolvendo seu nome, o filme vai nos familiarizando com a visão que essas pessoas tem dele, um se intocável, onipresente que estará sempre lá para ajudar, na qual podemos depositar todos nossos medos e inseguranças. Em uma cena, Zack Snyder e Chris Terrio desconstroem todo o ideal criado em cima do Clark pelos mesmos durante o filme — e até antes de Batman v Superman, lembre-se de Man of Steel — , retiram dele uma cruz que ele não sabia que carregava, nos mostram que o Superman não é um Deus, ele apenas um fazendeiro do Kansas tentando fazer o que é melhor, que tem problemas e questionamentos, duvidas sobre si mesmo como qualquer um de nós. Superman é mais Clark do que Kal-el, e para o fim do filme, Clark nos mostra que Lex talvez esteja certo, talvez, ele não seja todo poderoso, mas é de todo bom.