Her: Amor nos tempos modernos

Como é o amor nos tempos modernos?” Qualquer sentimento que conecta as pessoas para que elas sintam que existem em um mundo onde somos apenas mais um? Muitas vezes a conversa sobre a influência da tecnologia nas nossas vidas tende pra simplória pergunta “Ela atrapalha?” ou “Ela nos torna mais solitários?” Porém, nós não sabemos, nós só presumimos que ela modifica a forma como procedemos para atender as nossas necessidades humanas básicas, mas isso não muda nossas necessidades humanas fundamentais.

Tendo tudo isso em mente, eu gostaria de falar sobre Her, lançado em 2013, o ultimo filme do Spike Jonze explora de forma primorosa os limites desse gênero explorando a historia de um homem e uma inteligência artificial, ao menos, essa é sinopse do filme e sobre o que ele trata. No entanto, ao final do filme se sua experiência foi igual a minha, você deve ter pego em pensamentos transcendentais, comparando experiências da sua própria vida com momentos do filme e se perdendo em questões como “O que significa realmente amar alguém?”, “Qual é o proposito do amor nas nossas vidas?” e “O que é o amor?”

De qualquer maneira, é curioso que Her seja cunhado de “Uma historia de amor”, pois os sentimentos e experiências entre duas pessoas é uma grande parte desse gênero, nos faz ter diferentes perspectivas de um relacionamento, identificar o problemas mas como mostrar o inicio e o fim de um relacionamento, suas nuances e ambiguidades entre duas pessoas com personalidades totalmente diferentes, quando apenas uma está presente? De fato, apesar de parecer estranho, isso fala bastante sobre nossos próprios relacionamentos, como nós nunca conseguiremos compreender nossa parceira(o) completamente, seus gostos, desejos e necessidades. Nós apenas fingimos que os entendemos e eles fingem que acreditam.

Her é uma historia de amor em termos de narrativa, mas como filme é o estudo de um personagem. Theodore Twombly é o personagem principal do filme e, apesar de ele viver em uma verticalizada e futurística Los Angeles que implora pra ser explorada, através da visão dele nós temos acesso a toda essa imensidão mas ele prefere continuar sozinho. Porém, isso não é por acaso, ver ele muitas vezes deitado ou caminhando sozinho, faz com que muito de nós tenha empatia por ele. No entanto, é clara a distorção entre Theodore e o espaço ao seu redor, suas cores e luzes contrastam com a melancolia e cabeça sempre baixa que ele mantém. Ele está preso, perdido no purgatório que são suas emoções, cego por um estado de alienação que não o permiti decernir oque ele quer daquilo que ele realmente precisa.

O tema predominante tratado— entre vários abordados — é a solidão, algo Theodore — e alguns de nós — está familiarizado. A ideia de está completamente perdido, como se você não pertencesse a nenhum lugar, palavras traduzem o que ele sente, martelam sua cabeça constantemente, fazendo com que uma alienação impregna sua mente e o faça se isolar do mundo. Nós acabamos por descobrir que esse estado de solidão de Theodore se da de acordo com o fato da separação da sua mulher e o vazio que é deixado e, o filme acaba pontuando isso sempre mostrando Theodore junto de casais, mostrando mais uma vez esse contraste entre ele e o mundo a fora. E ele enfrenta essa situação criando mecanismos de defesa, evitando responsabilidades e atividades diárias de lazer, partindo pra formas de prazer rápida ao invés de nutrir algo que o faça feliz por um tempo mais prolongado, como um novo relacionamento.

Eventualmente, com o decorrer do filme, Samantha surge e isso se transforma na conexão que Theodore estava buscando. Na concepção do filme, eles se amam, isso é indiscutível. Porém, mesmo quando ele encontra a conexão que estava buscando, a imagem da sua ex-mulher e necessidade por interação humana continua sendo seu maior desejo. Theodore não consegue reconhecer seus problemas, de fato, a única forma com a qual ele pode expressar suas emoções é através do seu trabalho. Ele se coloca nessa posição pois suas necessidades estão em oposição aos seus desejos. Um relacionamento é a unica forma com a qual Theodore valida a sua própria existência, mas o filme nos mostra que se ele quer se livrar da sua solidão, primeiro tem que aprender que nós nem sempre temos o que queremos.

Theodore reflete vários de nós, escolhendo ir com a rota mais fácil nas nossas vidas, vivendo em lembranças de momentos bons, evitando os problemas que a realidade nos apresenta a dicotomia de como mesmo vivendo em um mundo tecnológico, onde tudo está conectado e podemos conhecer pessoas novas com mais facilidade, ainda existe aquela sensação de isolamento do mundo, de que você nunca vai superar o fim de um relacionamento. Porém, esses problemas e a solidão apresentada no filme, é algo que está sujeita a todos nós, todos temos uma forma de ignorar o mundo real seja através da arte ou redes sociais, o único crime que Theodore comete é de não reconhecer que as pessoas ao seu redor também podem se sentir solitárias quando ele não está presente. Ao reconhecer esse problema já pelo final do filme, é que Theodore finalmente compreende que a felicidade não provém apenas de relações amorosas, ela está em toda parte, na cidade, ruas e avenidas, nos museus, cinemas etc. e que a tristeza é uma parte importante da vida e só reconhecendo ela é que podemos finalmente seguir em frente e ser o que realmente podemos ser.