Caminhos

Andar já é quase automático a essa altura.

As pernas se movem sem esforço aparente, como se tivessem vida própria. O destino já não importa, o importante é o caminho à frente. Sempre à frente, sempre andando.

Nunca para trás.

No começo a cidade era interessante. Os prédios coloridos, a vida passando em todas as formas possíveis, os sons, os cheiros, a sensação de tudo acontecendo ao mesmo tempo, de sentir as pessoas passando e se perdendo no fluxo do tempo dos outros.

Todas as cores escondidas por entre o concreto na forma de arte quase viva, sempre em movimento, sempre mudando, evoluindo. Um lagarto gigante destrói um prédio, que logo se torna um avião cheio de gatinhos. Uma mão de tinta, e os retratos de mulheres fortes sorriem das paredes.

O som das pessoas vivendo preenchia os ouvidos, as histórias não contadas ressoavam no burburinho esquecido da cidade enquanto suas pernas o levavam para qualquer lugar. Era fácil esquecer de si enquanto observava os outros. O mundano pode ser tão interessante, às vezes.

Mas no fundo da mente, algo incomodava.

Depois de alguns anos os padrões começaram a surgir. O vai e vem das estações, as idas e vindas do coração humano. Todas as histórias observadas tinham um punhado de começos, um detalhe ou outro diferente, e apenas um final. Sempre o mesmo final.

A estrutura da humanidade ficou clara perante seus olhos, podia ver o cerne humano como quem encontra padrões em uma pintura. As cores da cidade vinham em ondas e desbotavam sob seus olhos cansados. O cinza era predominante, cada desenho único parecia agora um esboço de algo mais antigo.

Só restava continuar a andar.

Andar sem olhar para trás. Olhar para os lados não mais lhe ofereca o conforto da vida alheia. A narrativa de sua vida se estendia por uma longa e monótona descrição de algo que jamais iria mudar, mas ele não queria, não podia, não conseguia mais parar. Suas pernas se moviam como automáticas a tempo demais para ouvirem o resto de seu corpo.

As ruas que antes tanta alegria traziam agora eram nada mais que um labirinto de cinza. As cores escondidas no concreto não mais ce mostravam, tudo que seus olhos viam era sempre igual. Finalmente, andar não lhe era mais suficiente e parou.

E quando parou, finalmente foi alcançado por tudo aquilo que o fizera andar por tanto tempo. Aquilo que tirou as cores do concreto, que transformou os sons da vida em ruído de fundo. E finalmente, se deparou com sua própria vida, e o peso de viver consigo mesmo.