Caio, você pretendia argumentar que a cidade de São Paulo está se tornando policêntrica, entretanto, coloca um gráfico que mostra justamente o contrário.
E está. Centro não é sinônimo de mini-anel viário da CET. Uma coisa é a São Paulo concentrava suas atividades na região da Sé e da República, outra coisa é uma São Paulo que passa a ter uma série de centralidades diferentes (Paulista, Berrini, Faria Lima, Vila Olímpia), mais ou menos reverte o esvaziamento da antiga Zona Central e segue exibindo alguns movimentos interessantes em regiões como a do Tatuapé.
De acordo com os dados do Observatório Sampa, fica claro que a capital é extremamente centralizada. O desenvolvimento tem se espalhado para regiões antes consideradas periféricas, mas partir do centro, ou seja, a prosperidade dos bairros ainda é inversamente proporcional à sua distância em relação ao coração da metrópole. O centro de São Paulo continua a se expandir, mas essa riqueza não está se diluindo pelos diferentes pontos da cidade.
A cidade está organizada de forma radial-concêntrica, seja pelo viário, seja pelo sistema de transporte centenário. As linhas da CPTM são radiais. A CMSP também está inserida nessa lógica radial.
É uma leitura possível dizer que o “desenvolvimento tem se espalhado para regiões antes consideradas periféricas, mas partir do centro”, mas a frase não faz justiça para o peso da transformação. Uma coisa é sair do Grajaú ou do Capão Redondo para trabalhar na Berrini, outra é sair do Grajaú para trabalhar na República; uma coisa é sair da Brasilândia para trabalhar na Barra Funda, outra é sair da Brasilândia para trabalhar na Avenida Paulista.
Existe ainda a questão de que o artigo não está voltado à capital, mas à metrópole, ou seja, à Região Metropolitana de São Paulo. Alphaville é um exemplo inegável, que modificou a dinâmica dos municípios da Sub-região Oeste. As universidades privadas de Mogi das Cruzes já criavam um movimento de pessoas que era visto com preocupação pelo poder público ainda nos anos 1970, sendo que hoje o Centro Cívico está consolidado e a cidade é uma centralidade regional que atrai até mesmo moradores do Vale, como aqueles que vivem em Jacareí. Mesmo o comércio popular de Osasco não pode ser ignorado, pois só perde para a 25 de Março na capital.
Se isso tudo não compõe uma configuração policêntrica, ainda que exista uma lógica radial-concêntrica, então qual seria um bom exemplo no país? A maior metrópole vizinha em outro estado, Rio de Janeiro, concentra a pobreza de forma muito mais avassaladora, por exemplo, tanto que é muito mais difícil olhar para a SuperVia e discutir as linhas da concessionária da forma como fazemos com a CPTM, pois é notório como a complexificação do urbano é menor, como falta dinamismo, como o desenvolvimento das cercanias é baixo etc.
Quase toda a cultura, o dinamismo e os empregos que existem na periferia advêm da atitude e empreendedorismo da própria população, e não de investimentos públicos ou privados, embora haja exceções como os SESCs.
É um equívoco ignorar qual tipo de emprego está sendo gerado. Essa atitude e empreendedorismo não tem se mostrado capaz de gerar nada de maior complexidade, não contribui para mudar as disparidades de renda e continua dependendo do dinheiro que é conquistado por trabalhadores que saem da periferia diariamente.
Caio César
