A sustentabilidade vem do campo

[Foto: CC0 Public Domain/Pixabay]
“Se queimar a cidade, o campo se levanta e construirá nova cidade. Se queimar o campo, a cidade morrerá de fome.”

– Dwight Eisenhower, presidente EUA entre 1953 e 1961

Ao observar que a cidade atraia cada vez mais camponeses em busca de trabalho na incipiente indústria norte-americana, o então presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower (1890–1969), fez a declaração profética acima.

Na época, a população rural representava 70% contra 30% da urbana. Hoje, temos 90% da população brasileira vivendo nas cidades — parcela abastecida e sustentada pelos camponeses que, ao todo, constituem menos de 10% da população do país. Destes, 70% são agricultores familiares que produzem alimentos para a população urbana. Os demais — em menor número, mas que detêm a maior área de cultivo — dedicam-se ao agronegócio de exportação de grãos e carne.

Qual é o preço da sustentabilidade?

Muito mais do que a cidade, o campo oferece maior segurança em termos de abrigo, saúde e alimentação. Quanto custa, para o poder público, um homem na cidade e quanto custa um homem no campo?

Acompanhem o seguinte raciocínio. No campo, o transporte coletivo para ir ao trabalho é de custo zero: abre-se a porta de casa já se está no trabalho. A coleta de lixo é zero, pois o que não serve para alimentação animal serve para composto. O custo com segurança também é zero, pois uma porta com tramela, uma espingarda atrás da porta e um cachorro dormindo na escada dispensam qualquer outro equipamento de proteção. Gastos com saúde são necessários somente quando os recursos medicinais da horta já não atendem às necessidades. Então, procura-se o posto de saúde mais próximo. O gasto com abastecimento de água é zero: se não há uma bica d´água junto a uma fonte, há quase sempre um poço. A rede de esgoto também é de custo zero, pois a fossa sempre foi a solução. Os gastos com escolas rurais também podem ser mínimos — pois não sei se o gasto com transporte escolar para cidade não é maior do que a manutenção da escola rural. No que diz respeito à educação, o fechamento das escolas rurais foi um retrocesso pedagógico lamentável e criminoso. Além de ter retirado o único benefício que o agricultor tinha para não pensar em migrar para cidade, submeteu as crianças a vários riscos. Entre eles, o risco das drogas que rodeiam os grandes conglomerados estudantis.

Agora, façamos o cálculo de quanto o Estado tem de investir anualmente em infraestrutura urbana: quanto custam os investimentos que variam desde o transporte coletivo até a construção e manutenção de postos de saúde, postos policiais, creches, escolas, rede de água e esgoto, coleta de lixo, construção de novos aterros sanitários, abertura e pavimentação de novas ruas? Nas últimas décadas, com a intensificação da migração do campo à cidade, triplicou a demanda por equipamentos urbanos. Diante da impossibilidade de atender tamanha demanda, cresceram as favelas. E, com elas, a marginalidade.

[Foto: CC0 Public Domain/Pexels]

A valorização do campo

Eisenhower tinha razão. É o campo que sustenta a cidade em suas necessidades básicas humanas. A sustentabilidade urbana em praticamente todos os sentidos — alimentação, saúde, emprego e educação ética familiar — está no campo e, em especial, vem da pequena agricultura familiar.

Ao concluir que a sustentabilidade urbana vem do campo, precisamos urgentemente resgatar alguns valores perdidos na corrida do ouro. A agricultura familiar traz solução para enfrentar o desequilíbrio social provocado pela migração do campo para a cidade nas últimas décadas. Quem sustenta o homem que vive na cidade? Sem muito esforço de raciocínio, respondemos que é o homem do campo. Então, como não privilegiar com políticas públicas a pequena agricultura familiar?

[Fotos: Henrique Kugler/CPRA]

Na prática, vemos o inverso. Os grandes subsídios agrícolas atendem preferencialmente à grande lavoura. Os empréstimos e toda política agrícola e agrária estão direcionados para uma agricultura convencional voltada aos interesses da revolução verde — com seus estoques de agrotóxico e insumos químicos. A revolução verde tende a expulsar do campo o pequeno agricultor e anexar suas terras às grandes propriedades dedicadas à monocultura.

Um estado ‘urbanocêntrico’

O estado concentra na cidade todo o equipamento assistencial a saúde, educação e lazer. A mídia estimula a desmoralização do homem do campo — e estimula a desmoralização da reforma agrária. A mídia acusa os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de bandoleiros, vadios, que só querem a terra para revender e montar novos acampamentos para continuar a especulação imobiliária, enquanto o congresso procura votar emenda de retrocessos na lei que obriga o sem-terra a não vender seu lote antes dos cinco anos de experiência agrícola. Querem liberar a venda para que a grande propriedade do agronegócio possa reanexar, o mais rápido possível, as terras dos assentamentos. Este paradoxo flagra o verdadeiro interesse por trás do processo de desmoralização da pequena agricultura. Mas, Deus meu, se são eles que me garantem a comida na mesa, como posso virar o coxo feito porco?

Alimentos da reforma agrária produzidos pelo MST e ofertados durante evento no Palácio das Araucárias, em Curitiba [Foto: Henrique Kugler]

Ao contrário do que muitos pensam, reforma agrária não tem nada a ver com comunismo. O comunismo é contra a propriedade privada e, na reforma agrária, busca-se garantir a propriedade da terra ao pequeno camponês. Ou seria direito à propriedade um direito exclusivo do grande capital? Aliás, sobre terra não deveria caber o direito da propriedade privada — uma vez que ela é um meio de produção para suprir necessidades básicas da vida humana. A terra deveria, por isso, ser regulada por concessão estatal para quem nela produz. À terra cabe o direito da propriedade social, e não privada.

No Brasil, a reforma agrária e o estatuto da terra vigente até nossos dias foram concebidos, propostos e regulamentados pelo governo militar instaurado 1964 — que se levantou contra o comunismo. Como, então, acusar de comunistas os que defendem a reforma agrária? É mais um paradoxo dos que resistem às soluções sociais sem perceber que, além do umbigo deles, aproxima-se uma grande ameaça a toda a humanidade: o iminente desequilíbrio social, econômico, político e, sobretudo, ecológico.

Se a sustentabilidade da cidade vem do campo, urge uma reforma agrária. A reforma agrária viria a restabelecer o equilíbrio diante do inchaço das cidades — além de fornecer maior sustentabilidade ao desenvolvimento social.

Gernote Kirinus

Teólogo e filósofo, é pós-graduado em antropologia filosófica e sociologia política. Atualmente trabalha como pesquisador do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) na área da ética e epistemologia.


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