Embaixadora do Botswana busca parcerias com representantes da agricultura paranaense

A vida selvagem é um dos principais atrativos do Botswana [Foto: CC0 Public Domain / Pexels]

A embaixadora do Botswana, Bernadette Rathedi, esteve em Curitiba na última sexta-feira (10/03/2017) para uma reunião com representantes de entidades que representam diversos setores da agricultura paranaense — entre elas, o Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) e a Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB). “Essa é minha segunda visita ao Paraná: estive aqui em 2015, quando percebi o imenso potencial do estado no setor de produção agropecuária”, contou a embaixadora.

O Botswana é um país de base agrícola. “Apesar de termos interesse no agronegócio, entendemos que a segurança alimentar de nosso povo está essencialmente ancorada na agricultura familiar e na agricultura de pequena escala”, afirma Rathedi. É exatamente por isso, alias, que a embaixadora vê o Paraná como um promissor cenário de cooperação. Das 371 mil propriedades rurais de nosso estado, 85% estão em uma área menor que 50 hectares. Além disso, existem em nosso território nada menos que 1.380 agroindústrias familiares — são números que reforçam a importância da agricultura familiar no sul do Brasil.

O território do Botswana é dividido em 15 áreas administrativas, nove das quais são distritos rurais. “Queremos elevar a qualidade de vida nessas regiões, e talvez a experiência paranaense possa nos inspirar com novas ideias”, comentou a embaixadora africana.

A embaixadora do Botswana, Bernadette Rathedi (à esquerda), vê no Paraná um grande potencial para parcerias no ramo agrícola. O engenheiro agrônomo Márcio Miranda, diretor-adjunto do CPRA (à direita), fala sobre a importância estratégica da agroecologia [Fotos: José Fernando Ogura / SEAE]

Por uma agricultura mais ecológica

O debate vem em boa hora, pois a qualidade de vida no meio rural e o desenvolvimento socioambiental em regiões interioranas foram assunto de destaque na última publicação da Organização das Nações Unidas (ONU) acerca do tema. Trata-se do Report of the Special Rapporteur on the right to food.

Uma das recomendações desse relatório é o incentivo às práticas agroecológicas — que, segundo os autores do documento, têm o potencial de garantir números bastante satisfatórios em termos de produtividade por hectare. Mais que isso: a agroecologia pode aprimorar a qualidade de vida de uma vasta parcela da população mundial que tem na agricultura seu sustento.

Tal assunto — a importância estratégica da agroecologia — também fez parte da agenda da reunião. Quem falou sobre o tema foi o engenheiro agrônomo Márcio Miranda, diretor adjunto do CPRA. Ele lembrou que o conceito de agroecologia, muitas vezes, não é bem entendido — mesmo entre profissionais do ramo. “Sistemas agroecológicos são, fundamentalmente, aqueles que se inspiram na natureza para desenvolver estratégias de produção agropecuária”, explicou Miranda. E não se trata apenas de evitar agrotóxicos e fertilizantes químicos de alto impacto ambiental. “Pois a agroecologia vai além das questões meramente tecnológicas: ela também incorpora questões de desenvolvimento rural e socioeconomia.”

Além do CPRA, também estiveram presentes no encontro com a embaixadora membros da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SEAB), do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), entre outras entidades. A reunião foi mediada pelo Secretário de Assuntos Estratégicos, Flávio Arns [Fotos: José Fernando Ogura / SEAE]

Para o engenheiro agrônomo Henrique Gonçalvez, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), a agricultura sustentável pode, sem dúvida, ser um caminho de desenvolvimento para o Botswana. “Participei de um programa de capacitação no sul da África há alguns anos; fiquei muito impressionado com as boas condições de produção e, em particular, com o clima favorável”, relatou.

Há, ainda, um outro argumento em favor de uma agricultura ecologicamente responsável no Botswana: é que a preservação da vida selvagem, para as autoridades do país, é assunto da maior importância. Afinal, é disso que depende grande parte do mercado turístico da região. Um modelo agrário que concilie desenvolvimento humano, crescimento econômico e preservação ambiental poderia ser, portanto, uma grande aposta para o futuro dessa nação africana.

Parcerias em vista

Em termos de clima, solo e topografia, as características de algumas regiões do Botswana são promissoras: ao norte do país, existem nada menos que 35 mil hectares de terras agricultáveis. Apesar disso, a nação é deficitária no quesito produção de alimentos. “Somos ainda muito dependentes de importações”, lembrou a embaixadora.

Ela citou um exemplo emblemático: “Produzimos apenas 5% do leite que nosso mercado interno consome”. Quanto ao milho, esse número fica em meros 7%. Em frutas e vegetais, o país consegue produzir apenas metade do que seria necessário para suprir sua demanda interna. A exceção é a carne, lembrou Rathedi. “A propósito, nossa carne bovina é de excelente qualidade; se não for melhor, é pelo menos igual à brasileira”, brincou a embaixadora.

“O Brasil pode ajudar a suprir nosso déficit de cereais”, comentou Rathedi. “Importamos muito milho e soja da China. Mas podemos, quem sabe, passar a importar do Brasil.” Outro ramo em que o país pode oferecer valiosa ajuda é a capacitação de produtores rurais. E, além de projetos cooperação técnica na área agrícola, o Botswana também tem interesse em estreitar laços com o Brasil nos setores de mineração, comércio, turismo e cultura.

Democracia consolidada

Pouco conhecido entre os brasileiros, o Botswana é um dos países mais prósperos da África austral. Foi um protetorado britânico até 1966, ano de sua independência. Desde então, é considerado um exemplo de estabilidade política no continente africano.

Logo após sua independência, uma importante descoberta mudaria o destino do país: foram encontradas grandes jazidas de diamante. Resultado: o Botswana é, atualmente, o maior produtor mundial desse valioso recurso. “Tivemos sorte por termos líderes que souberam usar com sabedoria as riquezas geradas pela exploração de diamantes para de fato desenvolver o país”, contextualizou Rathedi. Assim, nos anos 1980, Botswana deixou de ser um país pobre para se tornar um ‘país de renda média’, segundo a nomenclatura mais recente sugerida pelo Banco Mundial. A mineração ainda é a principal atividade econômica do Botswana — atualmente, o maior produtor de diamantes do mundo.

O Botswana guarda muitos dos tesouros da biodiversidade. É lá, por exemplo, que se encontra a maior concentração de elefantes-africanos do mundo. O baobá, árvore típica da região, é outro elemento que se destaca nas paisagens áridas do país (Fotos: CC0 Public Domain / Pexels)

Ao contrário de seus vizinhos, o Botswana nunca se envolveu em guerras civis ou conflitos armados de grandes proporções. E não passou pela experiência traumática dos regimes racistas instaurados em tantos países africanos. “Em décadas passadas, chegamos a receber muitos refugiados de países vizinhos acometidos por regimes totalitários”, lembrou a embaixadora. “Aprendemos a valorizar, e muito, o fato de sermos um país livre e democrático.”

Henrique Kugler


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