Uma radiografia da intransigência na Venezuela

Carolina Silva Pedroso

Tornou-se lugar comum em textos de autoajuda o seguinte questionamento: “você prefere ser feliz ou ter razão?”. Guardadas as devidas proporções, esse clichê nos ajuda a visualizar uma das maiores dificuldades no cenário político venezuelano: a intransigência de ambas as partes, incapazes de fazer autocrítica. Um dos sinais mais alarmantes da profunda crise institucional que caracteriza o país desde a ascensão de Maduro, em 2013, é que os impasses entre governo e oposição são sistematicamente levados para mesas de negociação. Ou seja, diálogos entre esses grupos não acontecem dentro da institucionalidade esperada em uma democracia, via instituições. Mesmo quando a Assembleia Nacional passou a ser dominada pelos opositores ao governo, a prática de chamar mesas de diálogo com mediação internacional continuou, demonstrando-se que a negociação entre Parlamento e Executivo não parece ser possível dentro das regras pré-estabelecidas.

Existe um forte ressentimento entre as partes, sentimento que foi sendo nutrido no decorrer do chavismo pela retórica maniqueísta do líder bolivariano, por um lado, e pelos boicotes e atitudes golpistas advindas da oposição mais radical, por outro. Mesmo havendo momentos de maior tensão, a Venezuela conseguia avançar e prosperar em um contexto de elevados preços do petróleo e enquanto Hugo Chávez era capaz de aglutinar, em torno de sua figura, a bipolarização do país. Com o desaparecimento físico de uma liderança controversa, porém carismática, quase que concomitantemente com o agravamento da crise econômica interna e a queda do preço do petróleo, Maduro assumiu em um contexto desfavorável e de fragmentação dos polos de poder.

Economicamente, as graves distorções impactaram diretamente a vida da população (inflação, desabastecimento, etc.), atingindo seriamente a base eleitoral tradicional chavista. Politicamente, a falta de coesão interna dos grupos que disputam a hegemonia do poder na Venezuela acarreta, por sua vez, uma barreira adicional à possibilidade de manejo conjunto da situação econômica caótica e às tentativas de entendimento em outras áreas. Por isso, é importante o exercício de olhar atentamente para ambos — governo e oposição — e visualizar as nuances que refletem a importante pluralidade de posições e que, ao mesmo tempo, tornam a conciliação nacional um objetivo ainda mais desafiador.

Do lado da “Revolução Bolivariana” estão diversos grupos, que vão desde governistas ferrenhos até uma esquerda mais crítica, em parte formada por dissidentes do chavismo. Os que fazem parte do establishment bolivariano — também chamados de boliburguesia — insistem em culpar os opositores internos e externos (sobretudo os Estados Unidos) por todos os problemas do país, eximindo o governo das responsabilidades que lhe cabem. Já os mais críticos oscilam entre os que admitem os erros do governo, ainda que não concordem com a tese oposicionista de que a débâcle venezuelana seja o resultado somente de uma administração irresponsável, até aqueles que romperam totalmente com Maduro, seja porque ele cometeria arroubos autoritários, por discordarem da condução da economia e, principalmente, porque enxergam em sua liderança errática a principal ameaça aos ideais bolivarianos. Em suma, é possível identificar ao menos três grupos: os conservadores, que querem manter a condução do país como está, em que a neutralização da oposição seria a chave para superar os problemas; os críticos moderados que acreditam em mudanças e ajustes necessários para seguir os preceitos da Revolução Bolivariana; e os críticos mais radicais que, assim como a oposição tradicional, esperam que o referendo revogatório legitime a saída do presidente para que um novo líder possa fazer o país voltar a ser o que era na época de Chávez.

A oposição, da mesma maneira, também está dividida entre os mais ferrenhos, que não admitem participar de mesas de negociação com um governo que consideram antidemocrático e ilegítimo, preferindo o engajamento em campanhas pela libertação dos presos políticos por meio de pressão sobre organismos internacionais, além daqueles que estão dispostos ao diálogo, porém mantendo a desconfiança quanto às reais intenções de Maduro. A despeito de adotarem estratégias de ação distintas, os grupos que se opõem ao chavismo desde o início compartilham a percepção de que somente a queda de Maduro — via referendo, renúncia ou até por caminhos mais controversos como o julgamento político — viabilizará uma solução para a situação atual. Poucos grupos, no entanto, possuem uma agenda afirmativa, com propostas concretas para uma Venezuela pós-chavista. Sinteticamente, a oposição está dividida em: uma ala mais radical se apresenta contrariamente a todo o projeto bolivariano e se recusa a participar de qualquer processo conciliatório; os mais moderados, que atendem aos pedidos do governo e/ou de atores externos (como UNASUL e Vaticano) para o diálogo, mas não creem no êxito destas iniciativas por não confiaram que a outra parte cumprirá o acordo; e os que seguem lutando por uma transição pacífica e constitucional, admitindo a necessidade de manter o foco no social, mediante mudanças substantivas na política econômica.

Com as mesas de diálogo instauradas em novembro de 2016, com mediação papal e de uma comitiva de ex-presidentes iberoamericanos representando a UNASUL, alguns pontos controversos tem sido debatidos somente entre o próprio governo, sem a participação de grupos dissidentes, e de alguns partidos de oposição que aceitaram dialogar. Ou seja, uma parte significativa de grupos opositores e da própria opinião pública, que entende que a negociação fora da institucionalidade é uma forma de alijar a sociedade da discussão sobre o seu futuro, ficam de fora de decisões importantes para todos. Ademais, quando estão fora da mesa, as partes continuam insistindo na retórica de que “o outro é quem está errado”, postura distinta de quando estão sendo observados internacionalmente. Entre “ser feliz” e “ter razão”, todos preferem estar certos nesta guerra de posições. A intransigência de apontar o outro lado como sendo o único culpado pelo descalabro venezuelano tem vitimado as camadas mais vulneráveis, justamente quem todos os lados dizem defender. Tal contradição pode custar um preço muito caro para a democracia e o povo venezuelano.

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