
Secundaristas, agora do Rio, mostram coragem outra vez e emparedam Secretaria de Educação
Texto por Caetano Manenti e fotos de Bruno Bou

Nova aula de política é lecionada por estudantes brasileiros. Quase uma centena de alunos, muitos líderes dos movimentos de ocupação nas escolas públicas da capital e do interior do estado, se reuniram esta tarde num colégio da região central do Rio de Janeiro. Nas paredes rabiscadas, ficava claro o motivo de estarem ali: queriam menos preocupação com estádios e eventos esportivos e muito mais com a educação. Já são mais de 60 escolas ocupadas, num movimento que começou há cerca de um mês e já se espalhou por cidades como Angra dos Reis e Araruama. De lá, encorajados, em massa, partiram em caminhada à Secretaria de Educação.

Foram 3,5 quilômetros dividindo a certeza de estar do lado justo da luta com o medo de repressão da polícia. Perto das 16h30, a garotada entrou correndo no prédio que fica no bairro do Santo Cristo. O porteiro não sabia o que fazer. Tentou impedir o avanço sobre as roletas, mas logo viu que seria em vão.

Nos corredores da Secretaria, os alunos comemoravam o sucesso da ocupação, que agora exigia uma reunião até então inédita com as autoridades. Enquanto isso, ali mesmo, contavam para os funcionários da Secretaria a situação catastrófica em que estudam.

São relatos revoltantes, que vão desde a falta de merenda até a situação humilhante de dividir o espaço de educação física com o cocô de gatos. História que passam por toda o tipo de descaso com a educação. Falta caneta para escrever no quadro. Faltam porteiros e inspetores. Faltam pagamentos para os que ainda restam. Falta ar-condicionado. Falta democracia para se eleger diretores e até mesmo para a formação de grêmios estudantis. Falta independência de diretores frente à Secretaria de Educação. Falta atenção das autoridades de todos os níveis, do governador, do secretário, dos representantes das regionais. Falta um alento da Justiça, que não intervém. Falta o Ministério Público, que não investiga, por exemplo, as repetidas histórias de livros e materiais que apodrecem em depósitos antes de chegar aos estudantes que precisam.
O chefe do Gabinete do Secretário, Caio Castro, então, apareceu, se dispondo ao diálogo. Frente à juventude criativa de todas as quebradas do Estado, teve muito o que ouvir, com ironia ou sem, especialmente da boca das meninas.

“Boa essa Secretaria, ein? Ar-condicionado, lanchonete gourmet, tudo pintadinho. Na minha escola, falta até água nos banheiros”, disse uma jovem.
Sem graça, Castro e outras funcionárias da Seduc foram ao auditório do prédio negociar com um grupo de quase 20 alunos do comando de greve. Ali, frente à verdade dos fatos e seus mensageiros, tiveram que explicar o inexplicável: como a situação do Rio de Janeiro, no ano das Olimpíadas, chegou a esse buraco.

Os alunos primeiro exigiram uma garantia que a polícia não entraria no prédio e depois enfileiravam reclamações: o cartão do bilhete único foi suspenso para alunos das escolas ocupadas; as diretorias das escolas estão se organizando com a Seduc para um movimento de desocupa. Os alunos queriam também uma negativa sobre a suposição, exposta nas redes sociais, de perda de ano letivo para as ocupações que se alongarem por mais algumas semanas.
A Seduc ouviu bastante, falou um outro tanto, mas mão houve respostas assertivas da Seduc. O principal objetivo do Comando era encaminhar a assinatura de um documento timbrado que garante que, na próxima terça-feira, haverá uma reunião com a presença do secretário para o estabelecimento de um calendário de negociações.

Para dar mais uma pitada de Rio de Janeiro ao dia, a reunião foi interrompida por um tiroteio do lado de fora do prédio. A PM fazia uma operação na favela da Providência, justo ao lado. Foi só por conta dos tiros que a chamada “grande mídia” pôde entrar. Os estudantes criticaram a TV Globo, que teve dificuldade de trabalhar.
Ao final, felizes, os alunos extravasaram seus gritos de luto: Escola livre, sem ditador, quero eleger meu diretor. Tira o seu Pezão, da minha educação. Ocupar, resistir, lutar para garantir. Educação precarizada, nossa resposta é escola ocupada.
