Intervalo

As fagulhas caíram sobre seu pulso, o cigarro estava no fim. Há poucos minutos, Débora havia dado um cigarro à um mendigo exigente que a incomodava por toda a semana. Como ela se arrependia. Não pelo ato solidário, mas pela única coisa que encontrou em seu bolso foi um cigarro perdido, pelo visto o último.

Ela ouvia uma música enquanto fumava. Algo como uma mistura de Beatles e Samba, algo um tanto indescritível, surreal. “Não usei nada ainda”, pensou ela, porque aquela combinação era quase impossível, só podiam ser drogas em sua corrente sanguínea, algo mais forte que o convencional, o convencional baseado de final de churrasco. Ela não era nenhuma santa. “Não gostou, me prenda”, pensou, e soltou um riso baixo, que chamou a atenção do senhor na mesa do lado. De idade, cabelos brancos, ele carregava com peso nos ombros uma vida que parecia não ter sido muito boa, pois a amargura de seu olhar não foi pelo barulho, mas sim pelo sorriso em si, que saudade ele tinha de sorrir. A interpretação de um relance nunca era exata, ela sabia. Como poderia imaginar tudo isso de um olhar apenas? Impossível. Talvez fossem drogas mesmo.

Ela deitou a cabeça sobre a mesa e olhou pela janela. Uma mulher carregava um bebê no colo. Com uma expressão de cansaço, ela o carregava como parte de seu corpo, inconscientemente sentindo tudo ao redor. Débora pensava se conseguiria se importar tanto com algo, mesmo se esse “algo” fosse uma prole, própria. “Não tenho qualquer apreço pela bosta que faço” pensou, mas logo afastou esse pensamento de sua cabeça, o considerava muito pesado, como se nada do que falasse fosse considerado por qualquer religioso motivos de sobra para uma condenação ao inferno. Ela acreditava no inferno, acreditava que cada pessoa que cometia maldades contra a outros voltava, em outra vida, e vivia as mesmas maldades, apenas por vingança, considerava Deus vingativo. Acreditava nele e tudo mais, mas não tinha fé suficiente para sentir o amor que tantos defendiam.

A mãe com a criança no colo a comoveu. Ela soltou uma pequena lágrima na mesa. Estranhou, porque não era de chorar por coisas assim. Levantou a cabeça e passou as costas da mão no rosto. A água desenhou em sua pele uma figura abstrata, mas como figuras em nuvens, ela viu algo: um pequeno zepelim, voando para longe dali. Como ela queria sair dali.

- Acha que eu te pago pra dormir?! Volta pro balcão!

A gerente gritou da cozinha, com seu típico ar de superioridade, como se aquele cargo a colocasse acima de alguém. “Filha da puta metida” pensava Débora. Mas como precisava do trabalho, engoliu o ódio e voltou ao balcão.

Quando estava na mesa, a criança com a mãe chorava. Débora ergueu a portinhola do balcão e vestiu o avental. A criança a viu da rua. Acenou com sua pequenina mãe. Débora acenou de volta.

“Façamos um trato” pensou ela: “Se você parar de chorar, eu paro de fumar”. Para sua surpresa, a criança a encarou e as lágrimas cessaram. Ela sorriu, tirou o cigarro da boca e apagou em um cinzeiro, depois anotou um pedido.

A criança sorriu.