Manto Azul

- Para de encarar o manto azul! Não devemos o observar! Ele é sagrado.

Mas algo chamava a atenção de Luna para ele. O que o tornava daquela forma? Quem o fez? Suas cores, tão vivas e puras, traziam serenidade a seu pequeno coração, o coração de uma criança cuja visão de mundo curaria a todos nós.

- Porque não devemos olhar? Não está escrito que…

- Está sim! Os livros sagrados dizem que o manto azul não deve ser observado, muito menos questionado.

- Que irá nos impedir?

Emma coçou a cabeça e arqueou a testa. Precisava de uma resposta. Não podia deixar sua irmã mais nova ganhar uma discussão. Imagine o que começaria a fazer se saísse vitoriosa?!

- Bem…essa é questão.

- Qual?

- Os livros dizem que o manto azul não deve ser observado, pois os deuses não gostam.

- Deuses? Existem deuses?

- Claro! Existem deuses em todas as coisas, até mesmo em nós.

Emma colocou a mão sobre o peito da irmã.

- Dentro de cada coração, cada alma que um corpo carrega, cada minuto que respiramos, tudo é feito por um deus, o seu deus. Ele habita seu coração. Você não o vê, porque não não precisa vê-lo, precisa senti-lo.

- Não acredito nessas coisas — disse Luna, se afastando da irmã.

- Você é nova ainda, vai entender — disse Emma, balançando a cabeça, aos poucos compreendendo a ingenuidade de uma criança, seu maior engano.

Luna sentia algo, mas não era um deus, e sim algo mais forte, que possuía seu corpo dia e noite. Se sentia presa, acorrentada por palavras em folhas de papel, que eram cobertas por uma grossa camada de couro, e louvada por milhares ao redor do mundo.

Luna tinha certeza de como era o mundo. Nunca havia deixado sua aldeia, mas suas poucas olhadelas ao manto azul, seriamente reprimidas por sua família, lhe davam essa certeza. “É bom, é grande, é vasto, é único”.

A prisão se permutava por cada momento de sua vida. Cada vez que buscava água no poço, via ao longe uma estrada. Coberta de terra e grama, ela levava a um lugar onde diziam não existir nada, nem Terra, nem céu, nem inferno, nem ninguém.

Quando o dia estava chegando ao fim, todos se recolhiam para suas casas. Velas iluminavam casebres sem janelas. Todos oravam para alguém, um alguém que Luna não conhecia, não “sentia”, como diziam.

Toda sua família: pai, mãe, irmã, rezavam incansavelmente por uma hora, todas as noites. Diziam que quando o sol se escondia, os deuses saiam para observar a aldeia, para certificarem-se que todos estavam dormindo, à salvo.

Sua irmã dizia que uma vez um menino saiu de casa após o sol se esconder. Ele correu por entre as casas, pelo bosque, até a estrada, e nunca mais foi visto.

Essa história apavorava Luna…há alguns anos. Hoje ela sabia que não passava de lenda, mas não tinha plena certeza. Ainda hesitava em sair de casa quando o sol se escondia, quando o manto azul se esvaia.

Um dia, enquanto todos dormiam, ela abriu os olhos. O breu do casebre não a permitiu diferenciar objetos à vista. Pelo menos sabia exatamente onde cada um dormia.

Sabia que se pai estava muito cansado para ser acordado por meros passos de criança. Sabia que sua mãe dormia de olhos abertos, encarando a parede, mas sua audição era muito ruim. E sabia que sua irmã poderia acordar, por isso passou o dia a atormentando para que dormisse até de manhã.

Levantou-se do colchão. Caminhou por entre a mesa da cozinha e a cadeira de balanço da mãe, que quase se inclinou, graças a um passo incorreto. Caminhou por entre os colchões, e finalmente chegou a porta. Suas mãos suavam e ela tremia como uma vara verde. Respirou bem fundo e abriu a porta.

Para sua surpresa, seus olhos estavam fechados. Ela não os tinha fechado, mas algo dentro de si fez por ela. Algo que não queria que ela visse. Por isso ela pensou da seguinte forma: correria por entre as casas, passaria pela estrada, e então olharia para cima. Foi o que fez. Suas pernas magras a permitiram passar rapidamente por entre os casebres. Até os animais dormiam.

Correu com os pés descalços pela estrada. Sentia o sereno da grama molhando seus pés, o barro por entre seus dedos. Aquela sensação era nova, ela nem tinha nome para aquilo.

Após a corrida, houve um momento que a estrada acabou, que tudo se tornou grama. Acariciavam seus dedos, pois essas não estavam tão úmidas. Eram macias, não secas como as da aldeia. Com os olhos cerrados e inchados, ela inclinou a cabeça para trás e viu.

Não soube o que foi na hora, se uma epifania ou medo, mas aquela imagem atingiu seu coração tão forte que lágrimas caíram de seus olhos.

- O manto azul se foi, e todos do mundo me olham — disse baixinho, com lágrimas nos lábios.

O breu deu lugar as luzes de bilhões de estrelas, que iluminaram seus olhos pelo que pareceu a eternidade. Ela se sentou sobre a grama e ficou. Não queria deixar aquele lugar, não queria voltar.

Sentiu uma mão sobre o ombro. O menino perdido se assustou com sua presença, mas Luna não se importou. Ele sentou-se ao seu lado, e juntos comtemplaram as estrelas.

- O que você acha que é? — perguntou ele, ansioso pela resposta, caso ela batesse com o que pensava.

- Acho que representa cada ser humano da Terra, cada vida que nasce e se extingue. Acho que representa a esperança.

A resposta dela foi muito melhor que a dele. Ele achava que eram vagalumes.

Na manhã seguinte, a aldeia procurava por todos os cantos a menina desaparecida, até olharem para a estrada. Duas figuras caminhavam de volta, pequenas figuras. A mãe correu até Luna, não se importando com a proibição de andar na estrada.

- Ah meu deus, Luna! Onde esteve, o que houve?

A menina olhou para o menino, como em sinal de despedida, e ele correu até os braços do pai, que o abraçaram.

Luna não dizia nada, estava calada e distante. O povo da aldeia se reuniu em volta dela, e sua irmã perguntou:

- O que você viu?

E ela respondeu:

- Eu vi tudo.

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