O segredo dito à morte

Se existisse dor maior que a perda, penicilinas inteiras teriam sido consumidas como água. Houve uma época onde tive medo. Da morte, de seu sedutor e atrativo toque. De como sua voz ecoava por meus ouvidos, de um à outro. E como sua tremenda força de sedução atraia o mais fracos dos homens. Drenava-lhe as forças e as vontades. Até que sua pele não pudesse mais suportar o peso de sua carne. Enquanto seus ossos esvoaçavam, feito pó ao vento.

“O medo da carne”, diziam alguns, “o medo de que a carne apodreça”. E de que os ratos saiam dos bueiros, com os focinhos atentos ao menor odor. E que suas patinhas caminhassem por sua camisa, que lhe desabotoassem seus botões. Seu peito exposto, aberto. Cravado os dentes na carne podre, começavam a roer cada extremidade de seu ser, reduzindo-o a uma refeição noturna. Nada mais que isso. Homens são refeições de ratos, mulheres e ódio. Mas contaram tal segredo à morte. Precisava de um motivo, de um bom motivo para levantar-se em seus sonhos, lhe atrair a ratoeira e acionar a armadilha.

Deram-lhe a caixa de pandora, o pergaminho, o novo testamento. Deram a ela modos mais poderosos de seduzir o mais honrado dos homens. Até que o mesmo implorasse pelo próprio fim. Até que arranhasse cada canto de seu rosto e gritasse com todas suas forças:

- Estou pronto! Leve-me!

Pois ela viria, e traria consigo o mais colorido dos batons, passado cuidadosamente em seus lábios carnudos. Ajoelharia perante sua vítima, pífio homem, e lhe daria um beijo. Passaria sua língua por cada extremidade de sua boca, lhe tiraria o fôlego. E esse fôlego seria seu último.

Maldito aquele que disse à como somos vulneráveis.

Não fosse por tal malfeitor, viveríamos para sempre.