Karma

Abra seus olhos, abra bem seus olhos e veja, o quanto é imenso e efêmero o que nos rodeia. Estamos a deriva em uma vastidão de caos, cosmo e vazio, uma frágil canoa navegando ao léu. O corpo sente e sentir é experimentar e cada experiência é única no tempo e espaço - uma partícula que se colide com o indivíduo explodindo em sentimentos profundos e indecifráveis. A linguagem não suporta tudo isso, não suporta o beijo, não suporta o abraço, a saudade, o olhar de dois que não se verão mais e caso venham a se ver, mesmo que minutos depois, a linguagem não suportará dois corpos, dois sentimentos, duas experiências, dois de nós que somos tantos em um só.
Em um determinado momento tudo que foi vivido ou deixado de viver cairá sobre nossa consciência na mesma intensidade - uma torrente incessavel de júbilo ou desespero. Não importa bem ou mal, o ciclo se renova e continuará a se renovar mesmo que você não tenha sentido o cheiro do café ou afagado aquele corpo, no fundo tudo é belo por ser insignificantemente finito e por saber que amanhã é só outro dia em que tudo se renova nessa tragédia inacabável, onde estamos presos dançando feito ratos na enorme podridão de prazer e dor. Buscamos erroneamente pela catarse que aliviará o universo que se expande nos limites do corpo e sufoca.
No mais inquietante brilho de nossa solidão, quando percebemos que estamos vivos, na mais crua carnalidade e somos frutos do medo, frutos de nossos próprios vermes, onde tudo é inconscientemente performático para satisfazer o que nos é dado como prazer; percebemos que somos sagrados em uma civilização destruída pela fé maquinal que os consome sem direito a purgatório; percebemos que somos menos sagrados que as palavras - as palavras que são eternas e saem das bocas e corpos que não podem ser escutados; percebemos a inadequação da alma à toda putrefação do cotidiano. O corpo se extende, os gritos são arte e as palavras cinzas...Se apagam em mais uma pílula e somos obrigados a não sentir. Divididos pela "intelectualidade", seguimos ídolos à maneira menos Nietzschiana possível. Somos mortais, sabemos disso e então onde foi parar toda aquela sensação de imortalidade, aqueles versos que jorravam Vontade ? Enquanto escrevo sinto a infinita e assombrosa composição do mundo pesar sobre mim, mas que se foda eu vou continuar escrevendo como as notas atonais de uma orquestra descompassada que toca o silêncio enquanto a plateia dança como animais e
começa a gritar e gritar e GRITAR e os instrumentos rangem explodindo em uníssono como um gigantesco orgasmo coletivo!

C.Sanches