Não fazia muito tempo que o céu tornara alaranjado, minutos antes do sol nascer e o movimento nas ruas começasse a fazer alarde. Havia acordado com a música estremecendo os móveis mas me recusara a perder as últimas lembranças do sonho.

Ainda não era sete da manhã e o barulho das garrafas e copos transformados em cacos melados de cerveja espalhados pelo chão, enquanto seus braços voavam pelo ar em todas as direções esbarrando em tudo que podia, como uma dança epilética ao som de Mingus, me obrigou a esquecer o cheiro do mar noturno. Ela olhava meu corpo de ressaca, desleixado na cama e o cinismo se espalhando pelas pontas dos meus lábios. Gritando como uma harpia e seus olhos fixos e castanhos castigavam minhas retinas como uma praga dos deuses.

– Seu cretino! — Exclamava.

Toda essa loucura: a raiva estremecendo o corpo e pulsando na garganta, os pequenos raios de luz que escapavam à cortina contrastando o corpo como uma pintura barroca, os cabelos selvagens, e o suor escorrendo pelo pescoço — me excitava.

– É claro que ia acabar assim. Seu sádico de merda!

O silêncio entre um xingamento e outro era preenchido por barulho urbano e meus pensamentos.

Imaginava os fluídos se misturando ao calor e umidade amazônica. O odor impregnado de sexo, cerveja e fumaça das fábricas. Toda a dor que fizemos a nós mesmos despedaçada por escárnio e cinismo de nossos olhos.

Levantei, abri as cortinas e as janelas e acendi um cigarro. Os gritos que recusei a escutar chamavam atenção na rua.

– Eu sempre soube.– Falei.

– O que ?

– Que sou um sádico.

C.Sanches