By: Ron Hicks

Sobre Música e Literatura

Em uma época em que a literatura entrou em um espiral inacabável de temas repetidos e, principalmente, a poesia tem sido consumada por padrões egocêntricos e superficiais — todo refúgio é válido. Não escrevia há semanas, talvez, meses. O fato que é que não sabia quanto tempo se passara desde que uma linha tenha saído de minhas mãos. Nos primeiros dias é como receber uma notícia ruim: sente-se atordoado e, então, com o tempo começa a digerir aos poucos. Entretanto, a partir da primeira semana é invadido por um nefasto sentimento de vazio: sente-se amedrontado e casto. Pouco tempo depois, é como se tivesse desertado, um sentimento de covardia, de traição, como se desistisse da grande batalha e a honra pesasse — empurrando cada vez mais para baixo.

Nunca acreditei em coisas como inspiração; a epifania é só uma série de raciocínios engatilhados por uma situação específica. Mas somente a produção constante ou a tentativa de produção faz com que o artista pense de acordo com sua arte e tenha esses raros momentos.

O por que de me afastar em demasia da literatura ainda me parece uma pergunta obscura. Talvez porque eu me sentisse triste. Ou talvez porque me sentisse só. Quiça, me sentisse inconformado com o que havia escrito durante esses anos. Não escrevia mais em um impulso, como quando queria me aproximar dos beats, e a escrita saia rasgada e desesperada. Minha escrita não era mais encharcada de sentimentos. Não havia sentimento algum. Me afastei porque sentia-me vazio. Apenas isso. Algumas centenas de pastas escritas, a maior parte delas, poemas, e então um tremendo vazio. O ato de escrever havia se tornado incompreendível; adquiriu uma nova linguagem, a qual não me adaptara.

A música sempre serviu como inspiração rítmica à narrativa ou à poesia. Acreditava piamente que a forma mais sincera de assimilar o abstracionismo musical fosse — exceto pela própria música — a literatura. Forma de expressão alguma me parecia ter mais capacidade de absorver e expelir as paixões despertadas musicalmente do que esta.

O local era desses pubs alternativos onde se encontra toda a sorte de tribo urbana. Ruía, ao fundo, uma música indistinguível, mas que, de certa forma, trazia sensações familiares. Fazia-me sentir a luz como algo escuro e denso e vinha a tona lembranças despedaçadas; formas geométricas de espáduas e costas e coxas. O verniz dos olhos, de tantos olhos. O sabor meio amargo como um cigarro acendido de madrugada em uma rua vazia, sendo só mais um sombra embaixo das mangueiras. Os cheiros misturados de nostalgia e tristeza. O mundo parecia ruir sobre meus ombros. O tempo escorria entre minhas pernas como uma incessante correnteza de encontros. Acabou-se todo o paralelismo das imagens. O ruído que me acionara essas lembranças, tornava-se cada vez mais puro e abstrato.E Eos e Héspera emergiam do abissal de minha memória: anunciando a eterna luta entre aurora e crepúsculo; entre o que sou e o que fui de mais sombrio. Percebi, então, que a música não pode ser expressa se não por si mesma ou pela mais pura matemática. Todo escritor deve calar-se perante à música.

C.Sanches