Trecho de uma madrugada qualquer

Quase duas da madrugada e esses banhos gelados já não me fazem tão bem. A água ta com cheiro de esgoto, mas que se dane, o dia todo foi uma merda. Eu escrevi alguns poemas e queria mandar o mundo inteiro tomar no meio do cú, mas o cú me pareceu um lugar sagrado demais; queria jogar eles na sua cara ,mas veja bem, é apenas medo. Sentei no sofá e como um velho esperando pela morte me desesperei ao som de Nick Cave. Bebi aquela cachaça que me deixa fodido e voltei a fumar - eu sei que prometi não me destruir. Eu sei que fiz tudo errado. A ansiedade me puxou pelos cabelos e bêbado me colocou de frente ao espelho que refletia alguém que se tornou impossível reconhecer. Aqueles olhos tortuosos me encaravam enquanto eu tentava rir da minha própria loucura - a pessoa do outro lado olhava o abismo que vinha a se tornar. Meus olhos não encontram mais a luz e quando o peso da noite desaba sobre mim me sinto castigado pela consciência. Hoje eu lembrei de teu olhar e de como cada segundo foi verdadeiro; tentamos fazer de nós uma métrica parnasiana mas o conteúdo se perdeu na solidão de nossas mentes. O silêncio de nossos corpos fez de nossos sonhos esquecimento.O tempo passa devagar demais na memória sinto como se os relógios estivessem parando e cada minuto é infinito. Eu me perdi naquele adeus e de súbito teus braços que antes me abraçavam me jogaram despido na rua. Andei feito louco cantando elegia à lua e odes aos vagabundos.É só mais uma madrugada onde é difícil ter vontade de viver e não há mais razão em buscar algum sentimento para todo esse vazio.

C.Sanches