It starts with one thing, i don't know why…
Eu dificilmente me choco profundamente com mortes de pessoas famosas, mas por conta de algumas razões, essa mexeu muito mais comigo do que eu imaginava.
É engraçado quando você se encanta com algum artista ou banda, porque parece que seu corpo todo desperta a fim de entender a mente por trás do trabalho. Comigo pelo menos foi assim com quase todos os artistas que eu amo e ouço até hoje.
Linkin Park foi uma das primeiras bandas que eu ouvi na vida e que acabou me trazendo muitas coisas que foram fundamentais pro meu crescimento. In The End veio no começo da minha pré adolescência, apesar da letra não se relacionar com nada do que eu tivesse vivido, imaginar que o Chester, ao interpretar, supostamente viveu, me fez ter curiosidade pra ouvir essa narrativa. Através das letras eu aprendi muito do inglês que hoje eu sou fluente, aprendi sobre a dor dele através desses pontos todos.
Crawling que veio num momento onde eu comecei a sentir um pouco diferente dos demais por conta de confusões internas, essa musica mexia com a minha mente de tal forma, que ao mesmo tempo me fazia entrar numa calma profunda e deixar meu cérebro borbulhando com questões.
Ou até mesmo One Step Closer, que me fez ver que o sentimento protagonizado por ele poderia tomar dimensões agressivas, assim como as guitarras da musica são, ou como a voz dele, em berros sempre perfeitos, conseguia traduzir o quanto pode ser pulsante um sentimento negativo. A musica me trazia força de uma forma engraçada, como se cantando isso eu ficasse um pouco mais forte e acabou sendo meu personal anthem por um bom tempo.
O Meteora veio num momento onde eu já era adolescente, mas tava tentando entender toda a complexidade que a cabeça humana pode chegar, naquele mesmo ano seria a primeira vinda da banda pro Brasil. A banda que havia me trazido uma melhor amiga e aproximado ainda mais outra melhor amiga, que tinha conversado comigo contando algo por trás das melodias muito bem trabalhadas com letras quase sempre tristes tava vindo pro Brasil, infelizmente eu não consegui e foi um dos momentos que mais me corroeu, porque eu queria ver se a potência do que ouvia no CDs se manifestava da mesma forma ao vivo, não consegui.
Quanto mais eu crescia, mais as musicas pareciam fazer sentido pra mim, moldavam um traço da minha personalidade, me traziam verdades, minhas ou do protagonista desse conceito, que no caso era o Chester — pelo menos pra mim. Lembro de, em um dos momentos mais perturbados da minha vida, ter escutado Numb quase todos os dias e a cada vez que escutava, eram pelo menos 5 repetições da música. Havia entrado num nível tão forte de perturbação que ouvir a voz do Chester cantando a minha realidade naquele momento era um conforto e ao mesmo tempo algo que me trazia muito medo.
Em Novembro de 2006, eu me vi com a saúde mental tão prejudicada, que quase fiz algo que seria brutalmente extremo, em meio a tanto caos mental eu me vi entorpecido demais por uma dor que eu nunca tinha sentido antes que nem a letra da musica chegou a me segurar o desejo que minha mente me trazia naquela época.
Ao mesmo tempo que eles me ajudavam a mostrar o quanto existia de dor dentro de mim, a banda acabou por ser minha reabilitação da mesma forma “take everything from the inside and throw it all away” foi uma das frases que eu mais repeti durante aquele período, antes ela podia nem fazer tanto sentido, mas depois desse período, foi como um conselho valioso através da música.
É como se eu precisasse de um lugar na minha cabeça e ela trouxesse a acomodação perfeita pra que eu ficasse em paz comigo mesmo, mesmo que por alguns momentos. Da mesma forma quando aos 14, eu cantava Somewhere I Belong tentando justamente encontrar algo pra mim, From the Inside me fazia repensar a respeito da forma como eu sentia as coisas. Lying From You era o meu pensamento constante ao ter que mentir sobre quem eu era pra garantir um pouco de legitimidade vivendo aquilo que eu queria.
Assim como o Chester, eu havia passado por um abuso psicológico e físico que não havia sido superado ( e entendido, no meu caso também), Lying From You, pra mim trazia uma sensação de auto confiança ao fazer algo que fosse contra “a ordem normal das coisas” mesmo que fosse através da segurança que a mentira trazia. Por mais que desviasse da rota pra diversos outros gêneros musicais, a banda me acompanhava fielmente.
As musicas mais calmas que vieram depois, que marcavam um lado mais doce, mas ainda sim melancólico das letras que se parecia muito com a maneira como eu me sentia, era engraçado que de alguma forma sempre tinha algo acompanhando, as musicas onde a voz do Chester aparece mais melódica sempre foram musicas que me tocaram mais, porque parecia um segredo que ele dividia comigo, sendo o Mike sempre a voz da consciência por trás de tudo isso.
Easier To Run é a prova viva disso, como uma melodia tão calma, pode mostrar uma letra tão forte e ao mesmo tempo tão vulnerável era algo que me fascinava, foi justamente ai que eu comecei a escrever as minhas próprias letras, tirando cada sentimento do peito e encontrando em algo que sempre foi natural pra mim, em um dos melhores passatempos, que foi escrever. Esperava externar os sentimentos da mesma forma potente que o Chester dividia, mas pela pouca idade e pouquíssima experiência, tudo ficava muito mais cafona.
Através das letras deles, eu me inspirava e tirar do peito aquilo que eu sentia, Breaking The Habbit, diga-se de passagem, uma das melhores musicas pra se ouvir/ver ao vivo do Linkin Park, me inspirou de diversas formas por conta do título que me convidava a soltar um dos um dos ganchos que eu sentia que estavam presos a mim. O que antes Numb me mostrava o quanto eu estava a flor da pele ao mesmo tempo tão entorpecido, Breaking The Habbit me mostrava que na verdade eu só havia encontrado um jeito melhor de lidar com tudo o que eu sentia.
Com o tempo, fui acompanhando a banda um pouco mais de longe. depois da frustração de 2004 havia prometido pra mim mesmo que faria o máximo possível para estar nos show e ouvir aquela voz que havia falado tanto comigo, isso me rendeu 3 shows, 3 dos quais eu jamais vou esquecer tudo que eu senti. Engraçado que depois de passar tudo pelo que eu havia passado e ter tomado consciência de tudo aquilo que eu havia sentido ou vivido, ter visto um show deles enquanto homem adulto, me fez pensar que agora eu conseguisse entender com um pouco mais de maturidade as letras da banda.
Era como se a conversa fosse mais próxima e ao mesmo tempo convidativa, de modo que através dessas conversas eu fosse ver que as coisas melhoram muito mais do que eu imaginava. Era como se fosse um aviso do tipo “olha, as coisas vão caminhando e toda dor vira material pra contar história”. Foram nesses show que eu permiti que o garoto de 13 anos gritasse tudo o que não gritou durante aqueles shows.
Sempre amei a dinâmica de shows por isso, um espaço propício pra soltar todos os demónios através de gritos, choros e mais uma série de emoções e a cada show deles que eu pude assistir, fiz isso como se fosse a única coisa lógica a se fazer, e talvez fosse mesmo. Lembro de quase chorar toda vez que ouvia In The End ao vivo, porque era como se eu estivesse completando o ciclo. Era como encontrar um velho amigo depois de anos, como se fosse um abraço sincero, deles pra mim, e um eterno agradecimento meu para eles.
Era um negócio esquisito que só fã consegue entender, uma sensação de satisfação, mesmo que estando alguns metros de distancia deles, só de ter a oportunidade de ouvir aqueles berros tão bem trabalhados ou a voz melódica e poder emular elas na minha voz e de alguma forma sentir tudo aquilo que eu senti de novo me trazia uma vontade absurda dos shows nunca acabarem. Lembro que no ultimo show que eu fui, a descarga de adrenalina foi tão forte que as pernas pesavam ao andar, o corpo saiu estranhamente mais leve e eu muito mais feliz do que havia entrado.
Eles tinham esse poder, o Chester tinha esse poder. E confesso que, essa noticia do Chester ter vindo num momento onde cada vez mais eu tenho respeitado a minha saúde mental, um momento em que eu decidi entrar em contato com isso pra garantir uma nova trajetória, acaba mexendo comigo de uma forma muito poderosa.
Infelizmente ele não conseguiu suportar, alguém que liderou meu caminho através da sua experiência havia cansado de realizar esse papel por ele mesmo, devido a mil problemas, devido a mil situações, a dor que ele tanto colocava nas musicas havia parado pra ele. Da maneira mais visceral, mais dolorida e mais trágica possível. O pedido de ajuda parecia tão claro através de tudo que ele colocava. “Sometimes solutions are so simple, sometimes goodbye is the only way, and the sun will set for you”. são palavras ditas por ele, nunca musica onde só se ouve a voz dele, num clipe que mostra um pouco da visão dele. ele mostrou o que pra ele seria o desenho do fim.
Ele caminhava em meio a uma guerra durante todo o clipe, inabalavelmente ele caminhava (talvez uma metáfora pra o que ele sentia internamente? Ninguém nunca vai saber..) O clipe termina com ele sentindo dor, cantando a musica com todo o peso que sentia, em meio ao fogo, de uma forma meio que contando que a batalha interna nunca acaba, apesar de ser uma musica lenta, com letra até que um pouco otimista, o clipe terminar em meio ao caos e fogo é a forma de mostrar que até as vezes o fardo pode ser silencioso, mas ao mesmo tempo .
Da mesma forma que Waiting For The End mostrava uma melodia tão adorável, que vinha de forma tão doce, mas era uma musica que falava de um fim, uma ruptura. Da mesma forma melancólica que essas musicas se conectavam, olhando agora, é como se elas mesmas estivessem reunidas pra mostrar como seria um fim. Waiting For The end reune basicamente tudo que compõe o Linkin Park: tem a força dos versos do Mike, tem o instrumental ao mesmo tempo ágil e ao mesmo tempo leve e agressivo, a voz melódica do Chester que acompanha a musica quase toda e fecha com os gritos, tão característicos.
A dor dele me fez perceber a vida toda que seria uma boa eu observar as minhas e através disso eu aprendi cada vez mais um pouquinho sobre quem eu sou. A dor dele me faz relembrar de um caminho que felizmente não tem mais a menor relação com o meu. A dor dele me faz entender que quando algo como isso acontece, a gente segue em frente, porque não tem outra coisa a ser feita, tanto pra quem vai, quanto pra quem fica.
Obrigado Chester, por ter sido um guia dessa coisa toda, talvez só pra mim, talvez pra muito mais gente, é bem triste que eu digo: even when youre not with me, im with you. Que agora a paz que você sempre buscou e deixou claro que queria encontrar nas suas letras, você encontre aonde quer que você esteja.
