aquilo

aquilo que eu guardo e te mostro mais tarde
aquilo que eu guardo e te mostro uma parte
um pedaço que escondo
aquele pedaço que só sou quando estou sozinho
aquilo que não se encaixa além de mim
aquilo que não se dobra

aquilo que eu guardo e te mostro na tarde de domingo
quando não queremos ser mais nada
além da tarde de domingo
quando não queremos ser
além de domingo
além daquilo que termina e deixa um gosto ruim na boca
um gosto amargo na fala
um parágrafo a mais nessa tara
junto com aquilo que
não se mostra
não se fala
não se toca

aquilo que eu guardo e te mostro em partes
um pouco de mim aqui
um pouco de mim ali
é perigoso se entregar sem censura
é censurado o perigo que se entrega
sem se ver
sem perceber
é um perigo se entregar em dose única
machuca
mais cedo ou mais tarde
machuca

e a gente chora
fingindo não entender o motivo
fingindo não ter culpa
mas temos
como temos aquilo guardado
que não falamos por aí
que não colocamos a venda
como aquilo que não emprestamos

sabe? aquilo
aquilo que de tão nosso deixa de existir na gente
e se perde…
se mexe de ponta a ponta na alma
se mede de ponta a ponta na alma
se pede de ponta a ponta no bar

aquilo vagabundo na esquina da vinte e oito
aquilo caro na mesa da delfim

aquilo que se mistura
entre o lixo e o luxo
entre a boca e o orgasmo
entre a porra e o espasmo

entre a gente

se escondendo

entre a gente

se perdendo

entre a gente

se misturando

buscando por aí aquilo que se perde
guardando por aqui aquilo que sempre se soube da existência
fugindo daquilo que não se conhece
odiando aquilo que não se entende

propagando aquilo que não se quer de volta

exalando ódio
e clamando por amor

aquilo
sabe?

ser humano.

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