sete e quarenta e sete da manhã

de novo. olha eu aqui de novo. mais um dia que poderia ter sido ontem. mais um dia que poderia ser amanhã. toda manhã, quando o despertador toca, eu sinto como se pudesse ser qualquer dia. ao mesmo tempo que me sinto o bill murray naquele filme da marmota. não há exclusividade no meu sono dilacerado por esse som que imita uma sirene de bombeiro. minha mãe sempre quis que eu fosse bombeiro e hoje, ironicamente, a única conexão que tenho com essa profissão é o som falso que me acorda pra mais um dia em que não serei um herói. meio dramático, né? vamos lá, eu não prometi um romance.

escondo o sol com a cortina na tentativa inútil de adiar o inadiável. a cortina não me protege. ela me engana. a cortina é a substituta da peneira no ditado dos tempos modernos. não adianta tentar tapar o sol com ela. levanto. dez minutos atrasado. talvez quinze. tem algum cachorro latindo lá fora. sinto que ele tá tão puto quanto eu. sento pra mijar. não há masculinidade em urinar de pé. há burrice. não vou desperdiçar as pequenas oportunidades que tenho de sentar e não pensar em nada além do barulho único do meu jato. é a minha sinfonia. eu poderia ser o beethoven, porra.

cacete. a calça tá apertada. acho que engordei uns sete quilos nos últimos meses. talvez eu não faça exercícios há sete meses. putaquepariu. abrir o instagram de manhã é sempre um arrependimento. olha a carla, essa filha da puta. acordou às cinco, já fez café da manhã low carb, levou os cachorros pra passear, correu na orla, tomou água de coco, tirou a mesma selfie, tirou a mesma foto do mar, agradeceu com as mesmas hashtags, e sorriu daquele jeito. aquele sorriso doentio que beira a psicopatia. aquele sorriso de campeã como se tivesse acabado de ganhar alguma medalha olímpica. aquele sorriso que esfrega na sua cara o quão merda você é. guardo o celular. olho pela janela do ônibus e encaro o mesmo dia. de novo. coloquei uma playlist do spotify intitulada brain food. gosto de música instrumental. não gosto de ninguém falando na minha cabeça. me confunde. o perfume da mulher ao lado me irrita. é forte demais. doce demais. parece com o cheiro de uma tia que eu não suporto. talvez seja ela. melhor não olhar. encosto a cabeça na janela e sinto o nove dezessete massagear meu corpo inteiro. sigo observando as mesmas esquinas enquanto tento traduzir mentalmente para o francês: low carb é meu pau.

linha dois. estação são cristovão. quanto mais cedo, pior. agora são sete e quarenta e sete. em alguns momentos chego a pensar que o metrô rio comprou a minha vida e passou a administrá-la sem eu saber. talvez por isso ela esteja essa merda. desde que passei a depender do metrô me fiz uma promessa. não importa o quão cheio o vagão esteja, eu tenho que entrar. não posso deixar passar. não posso esperar o seguinte. essa é uma batalha que eu preciso vencer. na vida, a gente ganha aquilo que dá. às vezes a gente não ganha nada. na minha vida, a batalha que eu sigo ganhando é a batalha com o vagão. talvez seja a única em que eu saia vitorioso. lá vem ele. abarrotado. uma grande minhoca de metal carregando corpos. às sete e quarenta e sete da manhã é isso que nós somos. na linha dois, às sete da manhã, não existem sonhos. somos corpos vazios. esbarrem, deem cotoveladas, nos soquem, nos cuspam, nos abram. por favor, doutor, nos faça uma biópsia. qual é o diagnóstico? não há mais força para o sangue ser bombeado ao coração. senhores, senhoras, garotões recém iniciados na rotina do fracasso. somos muitos. somos diferentes. mas o que nos une se locomove no silêncio do primeiro ao último vagão. não precisamos falar. sabemos do nosso drama. nos colocamos em nosso lugar. às sete e quarenta e sete da manhã na linha dois todos nós sabemos qual é o maldito problema. mas às sete e quarenta e sete da manhã na linha dois nenhum de nós tem forças para derrotá-lo.

quando as portas se abrem a cena é de terror. ao entrar na estação deveria ter uma placa alertando a classificação indicativa daquele filme. +18. é um terror sádico. uma exposição a sangue frio. nojenta. uma mistura de o albergue com centopéia humana. após o pavor repentino, primeiro você se questiona como essas pessoas cabem aí? pra logo depois pensar como diabos eu vou entrar aí? 
dependendo da sua empatia e sensibilidade a ordem das perguntas pode se inverter. 
ok. algumas pessoas estão saindo. essa porra é como um carro de palhaço. por mais que saiam corpos não quer dizer que seja mais fácil de entrar. pelo contrário. a dúvida que fica é como e de onde aqueles corpos saíram. 
respiro fundo. lá vou eu. evito olhar nos olhos. não há espaço sequer para um peido, imagina se vai haver espaço para consentimento. faço força. o grandão do lado não reage. pareço uma formiga atrapalhada tentando cutucar um elefante. cena ridícula. a classificação indicativa desse filme é livre. é uma comédia para crianças. respiro. me estabeleço. o importante é estar dentro quando a porta se fechar. lá dentro a gente se ajeita. fechou. ufa. com muita dificuldade encosto minha mão na porta na tentativa de me equilibrar. por mais que eu sequer me mova encaixado como uma peça de tetris em desconhecidos, sou muito cagão e desconfiado para deixar minha permanência de pé nas mãos — ou nas costas, braços, sovacos — desses mesmos desconhecidos.

até a uruguaiana não há espaço para pensar em nada além da própria sobrevivência. não há espaço para observação. o hálito próximo de um fumante me sufoca. a moça ao lado se move mais do que deveria. é mais baixa e acaba me dando leves cotoveladas na costela. não tenho ângulo para repreendê-la com o olhar. respiro fundo. brain food segue tocando. a carla não passa por isso. a batalha matinal dela é evitar colocar carboidratos em seu café da manhã. a minha batalha é conseguir entrar no vagão e dividir o espaço com essa desgraçada que não para de me dar cotovelada e chegar ao escritório com o mínimo de dignidade e paciência para olhar nos olhos do meu chefe e não mandá-lo tomar no cu. eu deveria tirar uma selfie agora. sorrindo. sorrir na praia sentindo-se abençoada por deus é mole. eu quero ver você sorrir aqui, carla. aqui onde o diabo te abraça. acordo do meu transe sendo levado para fora do vagão. ombradas e rostos furiosos. atrapalhei a saída. penso merda, desculpa. não falo nada. volto pra dentro. ajeito levemente minha roupa. há mais espaço. consigo me apoiar e me equilibrar sem encoxar ou ser encoxado. que alívio.

observo um cara que tá sentado. ele deve ter no máximo uns 45 anos. blusa social comprida. amarrotada. calça social larga e sapatos acabados. seus olhos são pequenos e sua pele é manchada. abre a mochila e pega um livro. acompanho seus movimentos. vejo a foto daquela mulher na capa. aquela mulher que eu sei o nome mas não me lembro. andressa urach. consegui ler na capa. ele abre uma página que parece ser um novo capítulo. há apenas uma frase grande nela. de cabeça pra baixo é difícil ler. me esforço. "preciso fazer uma confissão: eu já fui prostituta".

ao fundo ouço um discurso. pauso a música. uma senhora de mãos dadas com um senhor cego explica a condição dele. perdeu a visão quando tinha um ano de idade e desde então teve dificuldades em se estabelecer na vida. me senti meio merda. ver a dificuldade dos outros nunca me ajudou. só faz eu me sentir mais merda. o mundo é foda. na mão direita ela segura um copo de guaravita cortado ao meio que serve para receber as moedas. estende a mão e caminha aguardando as esmolas. pego minha carteira. encontro uma moeda de um real. me estico e coloco no copo de guaravita. a senhora me olha nos olhos e diz deus abençoe, meu anjo, muito obrigado. quase me senti melhor. ela seguiu recebendo moedas e repetindo a mesma frase até o infinito. deus abençoe, meu anjo, muito obrigado. deus abençoe, meu anjo, muito obrigado. deus abençoe, meu anjo, muito obrigado. putaquepariu. vou ficar com essa porra na cabeça o dia inteiro.

no meio do vagão, sigo em pé. uma mulher se aproxima e fica ao meu lado. usa uma daquelas saias que começa acima do umbigo e termina depois do joelho. camisa social bege, com detalhes em rosa. chique. o dois botões próximos do pescoço estão abertos e é possível ver um colar de ouro suportando um pingente com a letra L. talvez o nome dela seja laura. ou talvez o nome do namorado seja liédson. não pode ser marido, ela é nova demais. no máximo 25. liédson. que nome feio pra porra. rio sozinho. na boca um batom violeta que me lembra uma ex namorada. disfarço pra alcançar com o olhar a tela do seu samsung. ela digita rápido com uma mão só. com a outra segura a barra de metal do vagão acima da cabeça. identifico a tela de conversa do whatsapp. ela ri com kkkkk. vejo na tela 4 emojis diferentes enviados por ela. uma cara de sofrimento. um nariz de porco. uma flor e o planeta terra. caralho, tem emoji do planeta terra. eu não fazia ideia.

caralho. ela me olhou. posso jurar que ela me olhou. e não olhou sem querer. deu aquela olhada que demora mais do que deveria. o tempo entre o engano e o interesse. o tempo entre o desvio e a vontade. o tempo entre a dúvida e a minha possível ereção. cacete. sinto meu pau se movendo. se controla, porra. seu tarado de merda. que ser humano desprezível eu sou. volto a olhar pra frente. não aguento e retomo o olhar para o celular dela. abriu o instagram. é agora. eu só preciso descobrir seu username. ela scrolla e distribui likes. merda. ela nunca vai abrir o próprio perfil. porra, eu não preciso do username dela. eu só preciso saber em quem ela deu like. porra, eu sou um gênio. caralho, eu sou o sherlock holmes da linha dois.

forço a vista. brunaaa_vieiraaa22. ela comentou "tah linda demais miga" na foto dessa garota. sem conclusões precipitadas. sem conclusões precipitadas. pego meu celular. abro o bloco de notas. escrevo com cuidado e atenção buscando na mente cada letra a daquele username escroto. largo do machado. ela desce. no flamengo eu tenho sinal. preciso ser rápido. só tenho sinal enquanto o metrô fica parado na estação. a curiosidade me mata. preciso ver fotos dessa mulher agora. próxima estação: flamengo.

as portas se abrem. sem serviço é substituído por CLARO 3G. já estava com o username da miga copiado. abro o instagram e colo no campo de busca. encontro. meu coração vibra. meu pau também. reconheço a foto na qual ela comentou. abro os comentários. marcela_ramos98. clico. olho para os lados sorrindo esperando alguém me parabenizar pelo que eu acabei de conseguir. ninguém me olha. filhos da puta. foda-se. não foram vocês que acabaram de encontrar por meio de uma estratégia inteligentíssima o amor de suas vidas. o perfil abre por inteiro. scrollo rapidamente. a decepção começa na minha unha do pé mal cortada e sobe até o fiapo abaixo do queixo que eu esqueci de raspar ontem à noite. o perfil no instagram é recente. ela tem 22 fotos. conto rapidamente. 15 fotos são ao lado do lúcio. lúcio tem um grupo de pagode chamado me beija. ontem à noite fizeram show no jacarepaguá tênis clube. ela foi. postou foto com ele. segurava um copo descartável cheio de caipirinha enquanto lúcio segurava um pandeiro. colocou um efeito escroto, umas bordas breguíssimas e lotou a descrição com: #blessed #amordaminhavida #mebeija #meuamoréumartista #meulugarénosamba #jpa #021 #semprejuntos #like4like #follow4follow

as portas se fecham. acordo da decepção com um barulho ao fundo. quase imperceptível. ele cresce e se aproxima. quando não tenho mais escapatória, ouço e identifico.

deus abençoe, meu anjo, muito obrigado.