
Do lixo ao luxo em uma terra devastada
Cada um dos edifícios parcialmente destruídos possui uma história. Cada uma das casas, cada uma das bases, cada uma das rochas, cada um dos vales. O mundo foi reorganizado à força pelos homens e agora o sofrimento atinge todos os que insistem em continuar vivendo.
Fallout: New Vegas é um jogo que pode passar despercebido pela maioria. É, em sua essência, um game demasiadamente cadenciado que tenta atrair fãs de estilos variados, mas não oferece ação o suficiente para manter o interesse dos mais ativos. Entretanto, a franquia criada pela Interplay em 1997 oferece, atualmente, um dos mais ricos e imersivos universos fictícios que se tem por aí.
E o foco em New Vegas é exatamente este universo, seu mundo e as pessoas que ali sobrevivem após o caos radioativo da Grande Guerra. Portanto, para o seu próprio bem, prepare o cérebro e alimente o coração.
De volta do mundo dos mortos
Poucas coisas são tão abruptamente motivacionais quanto um tiro na cabeça. Um dos maiores problemas nos games atualmente é oferecer uma razão para que o jogador tome as mágoas ou encarne a animação do personagem principal e siga adiante com a aventura, sem pestanejar.
Em Fallout New Vegas, o início é o fim. Ou, pelo menos, deveria ser.
Responsável por uma espécie de serviço postal, o protagonista é contratado pela Mojave Express para levar um envelope da cidade de Primm até New Vegas. Ser enterrado ainda vivo com certeza não estava na escala planejada para a viagem.
Renascido pelas mãos de um Securitron e colocado de volta à ativa pelo Doutor Mitchell, o jogo acerta ao equiparar seus sentimentos com seu avatar recém-adquirido. Com uma pistola no bolso e um ideal de vingança na cabeça, você é forçado a deixar para trás quaisquer ambições dignas ou humanitárias. Está aberta a temporada de caça.
Simba, um dia tudo isto será seu
Cada porta, um enredo. Cada pessoa, um sentimento. Fallout New Vegas incita que cada um seja unicamente diferente em sua jornada, pois oferece um leque absurdo de alternativas ao jogador.
Alheios à sua sede de sangue, os sobreviventes do caos nuclear seguem suas vidas, vivem suas histórias. Cabe a você interagir ou não, se importar ou não, fazer a diferença ou não.
É possível ultrapassar dias e dias sem sequer avançar na quest principal, apenas aprofundando nestes sub-universos, viajando em suas referências e refletindo sobre suas emoções.
Em sua grande maioria, Fallout pode ser considerado um game sobre andar e falar. Quanto mais milhas virtuais percorrer e o número de contatos aumentar, maior será a bagagem de informações acumulada para, pouco a pouco, compreender como a sociedade se reorganizou até atingir o estado crítico retratado na obra. E, acredite, embora seja apenas um mero humano em meio à destruição, suas escolhas podem fazer toda a diferença.
Mais do mesmo, mais pra mais do que pra mesmo
A Bethesda, empresa reconhecida principalmente pelo sucesso da franquia The Elder Scrolls, reinventou a maneira com que os jogadores encaravam a série Fallout em sua terceira edição.
A essência dos primeiros títulos permaneceu, entretanto, todo o restante foi drasticamente alterado. A visão isométrica deu lugar a uma perspectiva que varia da primeira para a terceira pessoa, fórmula que atraiu muitos novos entusiastas para o futuro pós-apocalíptico do jogo e fez dele um dos títulos mais premiados de 2008.
Fallout New Vegas evidencia tal legado e, ao invés de servir apenas como uma atualização, refina e evolui todas as características que fizeram de seu antecessor um dos merecidos destaques desta geração.

O mundo permanece infestado por criaturas alteradas geneticamente pela radiação, com a possibilidade de escolher entre um embate direto de sua habilidade mortífera e a resistência inimiga, ou pausar o conflito e definir, com mais técnica e sapiência, em qual parte do corpo o ataque deve ser concentrado. Chamado de V.A.T.S. (sigla para Vault-Tec Assisted Targeting System) o modo consome pontos de ação que são recarregados automaticamente com o passar do tempo, merecendo, portanto, uma utilização cuidadosa aos candidatos a Rambo. O ataque em câmera lenta, dependendo da potência da arma, garante um show de escatologia com membros e órgãos dilacerados voando como pipas.
Ao contrário da edição anterior, em New Vegas além das facções extremamente opostas, representando (ou não) o bem e o mal, existem inúmeros outros grupos, gangues e organizações ideologicamente diversificadas, que tornam o imenso “terreno baldio” do Estado de Nevada num campo de batalha constante, tanto física quanto psicológica. Uma guerra de interesses onde você pode atuar ativamente para um dos lados ou se manter em cima do muro, buscando a melhor oportunidade para agir.
Equiparando-se a uma espécie de escala mental, numa barra que poderíamos facilmente denominar como o popular “bom-senso”, suas atitudes in-game são julgadas e classificadas positivamente ou negativamente em um ranking chamado karma. Baseado neste demonstrativo, os personagens e demais seres inteligentes irão reagir de maneiras específicas à sua presença, possibilitando variedades únicas de diálogo e parceria.
A guerra. A guerra nunca muda.
Meu contato com o título se deu em pleno feriado prolongado, de maneira que — tirando um ou outro detalhe, como uma irmã recém-iniciada na arte de andar e quebrar coisas — pude experimentar uma overdose de todo o mundo vivo e extremamente apaixonante que foi criado ali.
Em três dias, computei mais de cinquenta horas de jogo. Acordei pensando em Fallout, dormi imaginando Fallout, sonhei com Fallout e, quase literalmente, vivi Fallout.
Nunca antes havia me apaixonado tanto por uma narrativa, claramente evidenciada pela jogabilidade que não turva em nenhum momento o seu merecido destaque.
Os saves foram se multiplicando deliberadamente conforme o progresso, mostrando o imenso número de alternativas a um mesmo fato que gostaria de presenciar. A expressão “mas e se…” tornou-se constante e antes mesmo de finalizar o game, já estava com um bloco de notas aberto, planejando minha segunda jornada para experimentar novas possibilidades.
New Vegas lhe transforma gradativamente em um faminto. Esfomeado por informação, experiências, detalhes e mais detalhes daquele pano de fundo, como um maníaco por puzzles que aos poucos vai encontrando peças pequenas de um infinito quebra-cabeça.
Cada árvore de diálogo, cada quest aceita ou rejeitada, cada mínima escolha é como uma pequena explosão que resultará, lá na frente, no Big Bang de criação ou destruição de uma nova realidade. Se a sua mão irá ostentar o poder de levantar ou derrubar os tijolos, depende apenas de você.
Fallout New Vegas. Jogo do ano.
(Este texto foi originalmente publicado no site Arena iG em 2010)