Esquema tático e suas variações: até onde os números do esquema são mesmo representados no campo?

Caio Gondo
Sep 12, 2018 · 7 min read

Desde o boom da análise tática na internet no Brasil, o primórdio de tudo era achar o esquema tático do time e continuar a análise através dos “números de ônibus”: “O esquema tático da equipe é 3–5–2, defende 5–3–2 e ataca 2–3–5. Ah, e agora mudou para o 4–1–4–1”. Mas esses números realmente acontecem nessas fases de jogo? Como que realmente define o esquema tático? Essas numerações em ação defensiva e na ofensiva representam mesmo o que acontece no campo?

Em suas primeiras temporadas no City e assim como foi no Barcelona e no Bayern de Munique, os times de Guardiola eram muito conhecidos por atacarem no 3–2–5 ou 2–3–5. Mas, afinal, isso realmente existia em campo ou era para facilitar a transmissão da mensagem? E seguindo a ideia do texto, no fim dele, falarei sobre a tal linha de 6 que apareceu no Brasil faz um tempo.

Antes de partir sobre, por exemplo, o 2–3–5 de Guardiola, precisamos ir para a base teórica do texto todo: como se define o esquema tático de um time? É a partir desta resposta que teremos o conceito de tudo.

Esquema tático já foi o tema central de dois textos daqui (se você perdeu, estão este e este), mas eu mesmo percebi que faltou um fator primordial para que o leitor não tivesse mais dúvida de como definir o esquema tático da equipe. O esquema tático de uma equipe é definido por quem tal jogador se interage mais dentro da partida. Essa interação é relacionada com a movimentação de quando o jogador e o time estão sem a bola, enquanto que a equipe e o jogador estão com a bola, o termo mais adequado seria associação. Mas como é essa tal interação?

Essa interação é relacionada com quem tal jogador se movimenta de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo! E maneira ainda mais simples e colocando com um exemplo: se um volante vai e o outro fica, e ambos se movimentam juntos e alinhados na maior parte do tempo, eles estão se interagindo e, assim, o esquema tático da equipe há, pelo menos, um “2” nele. Isso é interação!

Hoje em dia, a interação mais fácil de perceber é na linha defensiva: facilmente se nota que há uma linha com quatro defensores, e todos eles se movimentam de acordo com o outro defensor. Com isso, há uma interação entre quatro jogadores e, assim, há um número “4” dentro do esquema tático da equipe.

E é a partir desta definição, temos como definir todos os esquemas táticos possíveis que forem aparecer no futebol! Se um time que tem quatro jogadores que se interagem mais no meio do campo do que com o seu centroavante, temos que um número “4” no esquema e, se a equipe tiver uma linha defensiva com quatro jogadores, o esquema tático do time é provavelmente o 4–1–4–1 e não o 4–3–3 (para mais detalhes sobre as diferenças do 4–1–4–1 e do 4–3–3, veja aqui) E assim segue.

Neste momento do texto cabe uma reflexão: então como se define o esquema tático da equipe com quem os jogadores mais se interagem entre si, hoje em dia, os esquemas com três zagueiros são todos começados com um número “5”, certo? Quase isso.

O Chelsea de Antonio Conte é um dos exemplos mais clássicos de estudo para uma linha de 5. Mas, afinal, o esquema tático da equipe era o 3–4–3 ou o 5–4–1?

Por definição, se define as “linhas” de um esquema tático da maneira com quem os jogadores mais se interagem dentro da partida. Diante disso, temos que o mesmo time e com os mesmos jogadores diante de dois diferentes adversários pode apresentar dois esquemas táticos diferentes, no entanto, os esquemas são bem próximos. Veja em exemplo.

Peguemos, novamente, o Chelsea da imagem acima de Antonio Conte. Diante de um time que se defende muito mais do que ataca, os Blues teriam com que Moses e Alonso se interagindo muito mais com Kanté e Drinkwater do que com Azpilicueta, Christensen e Rudiger, já que o Chelsea pouco entraria em ação defensiva e poucas vezes o time teria de fato cinco defensores flutuando de um lado para o outro e se interagindo. Contra este adversário, o esquema tático dos Blues seria, sim, o 3–4–3. Já o pensamento contrário teria o resultado inverso: como Moses e Alonso iriam se interagir mais com Azpilicueta, Christensen e Rudiger do que Kanté e Drinkwater, o esquema tático seria o 5–4–1. Viu como a palavra “mais” faz diferença? E ela faz muita diferença para todas as reflexões seguintes!

“Ah, mas o esquema tático do Cruzeiro é o 4–2–3–1!”. “Não! O esquema mesmo é o 4–4–1–1!”. Os dois estão completamente errados? Não. Depende de quem os jogadores mais se interagiram dentro da partida.

Com esta linha de pensamento, a gente vai para um próximo levantamento: e aquelas situações de que o comentarista fala de que tal time joga em um esquema, defende em outro e ataca num terceiro? Isso realmente existe? Sim, eles de forma para elucidar e de demonstrar de maneira mais rápida realmente funcionam, mas para você que já viu de que para definir um esquema tático de uma equipe se considera com quem os jogadores mais se interagem, todos esses números existem? Seguindo, esta linha de pensamento, todos esses números não existem e, mais: só existe o número do esquema tático!

O Real Madrid de Zinedine Zidane joga no 4–3–1–2, se defende no 4–4–2 e ataca no 4–3–3. Quais desses números realmente existe no campo? Aquele no qual os jogadores mais se interagiram na partida!

“Mas, ah, o time ataca sim no 2–3–5 porque os pontas abrem e os meias centralizam, e, assim, forma um 5 na frente junto com o centroavante”. É, mas, em ação ofensiva, o desenho tem que ser necessariamente este em todo o momento? Ninguém pode “desmanchar” os números? Sim, claro que pode! E aliás, em ação ofensiva, deve-se desmanchar os números! Uma vez que há adversários e esses querem neutralizar o ataque, a movimentação e a ocupação dos espaços vazios são fundamentais para poder atacar. E com isso, até em ação ofensiva, o tal “o time ataca em tal número” pouco existe e os jogadores pouco se interagem entre si! Mas entendo que é para elucidar e passar a mensagem mais rapidamente, porém, o número em si não existe de fato no campo! Não tem como um jogador se interagir mais com diversos e em várias fases do jogo! Ele só se interage mais com alguns na média geral da partida!

“Ah, o Paulinho no Barcelona avançava tanto que virava atacante e mudava o esquema tático do time”. Mudava? Se Paulinho interagiu mais com Suarez do que Rakitic e Busquets naquele jogo, o esquema tático era um, mas como Paulinho só avançava na fase ofensiva e nas demais ele se interagia com Rakitic e Busquets, o esquema tático do Barcelona tinha três no meio, sendo um deles, o brasileiro.

Com o exemplo de Paulinho no Barcelona, já matamos muitas situações das quais, como por exemplo: “Ah, mas o lateral avançou tanto pelo meio que ele fez o time mudar de tal esquema para outro”. Não! “Ah, mas o volante se enfiava entre os zagueiros quando o seu time era atacado e isso fazia o time ter uma linha de 5”. Não! “Ah, mas o centroavante recuava tanto para buscar a bola que fazia que o seu time passasse a não ter atacante”. Não! Você percebeu que em todas essas situações caem na mesma situação de Paulinho no Barcelona? Em todas, tal jogador só se movimentava em uma fase do jogo enquanto que nas demais não! Como temos quatro fases de jogo, logo, na maior parte do tempo, o jogador se interage mais com outros, o esquema tático não foi alterado!

E a linha de 6?

E por fim, uma situação que apareceu em tempos recentes no Brasil: afinal, o time se defende com uma linha de 6? Esta situação vai envolver os conceitos de interagir mais e a interação.

Isso que o Corinthians de Fabio Carille era uma linha de 6?

Vamos por partes antes de responder a pergunta. Partindo de que com quem os extremos se interagiram mais dentro de um jogo e, se caso, o time que usasse os extremos voltando até o fim fosse muito mais atacado do que atacando, poderia se dizer que sim, existe a tal linha de 6, mas não, a linha de 6 não existe! Voltemos para a definição de interação:

Essa interação é relacionada com quem tal jogador de acordo com o movimento ofensivo e defensivo da equipe. De maneira mais simples: se um jogador se movimenta de acordo com o movimento do outro do mesmo time, esses dois jogadores estão se interagindo!

Agora pense nas equipes que teoricamente se defende com uma linha de 6: com quem os extremos que voltam até o fim se interagem com relação a outro companheiro do seu time? Eles flutuam e se movimentam lateralmente junto com a linha defensiva ou só estão lá atrás por causa dos laterais adversários que subiram muito e simultaneamente? Os extremos se interagem junto com o meia central ou os seus defensores? Aqui nem entra a questão de interagir mais, mas sim o conceito de interação! Como os extremos só estão lá por causa dos laterais adversários que subiram juntos e não flutuam e nem se relacionam junto com os seus defensores, a linha de 6 não existe! Não tem nem sequer interação entre eles para começar a cogitar um número para eles!

No mesmo jogo do flagrante anterior, vejam com quem Romero e Léo Jabá se interagiam de fato: com o seu meia! Diante disso e dependendo da partida, poderia se dizer que havia uma linha de 3 no meio de campo do Corinthians, mas não havia e não há uma linha 6!

Por fim, antes de definir qualquer “linha de ônibus” de tal equipe, sempre lembre dos conceitos de interação e com quem o jogador se interage mais na partida. Com esses conceitos bem claros, pode-se definir qualquer esquema tático em qualquer jogo de futebol.

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Caio Gondo

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Analista de desempenho da categoria de base do Vila Nova F.C., criador da página “Traduzindo o Tatiquês” e estou no Twitter como @CaioGondo

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