O funcionamento atual dos esquemas com três zagueiros

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Com a Itália, País de Gales e um pouco a Alemanha jogando com três zagueiros em várias partidas da Euro Copa, fez com que em conversas, debates e programas esportivos revivessem o tema dos três zagueiros nas equipes. Mas como essas seleções jogaram a Euro com três zagueiros? Há alguma semelhança com os esquemas com três zagueiros que eram jogados no Brasil no começo dos anos 90 ou com os das seleções que jogaram com três zagueiros na Copa do Mundo de 2014?

A Itália da Euro Copa de 2016 passou a ser mais vista por ter saído do padrão 4–2–3–1, 4–4–2 e 4–1–4–1 europeu.

Para começar esta publicação, uma pequena diferenciação de esquema tático se faz necessária. Seleções como a Itália da Euro Copa de 2016 e a Holanda da Copa do Mundo de 2014 não jogaram em um 3–5–2. Para quem viu o meu texto sobre os esquemas táticos (se perdeu, veja aqui!), percebeu que para um time atualmente jogar em um 3–5–2 teria que ter os cinco meio-campistas jogando alinhados, como na figura abaixo. Como nenhuma das equipes anteriormente citadas não jogaram com cinco meio-campistas alinhados, o 3–5–2 já não é o esquema tema deste texto.

Ao comparar o campinho tático acima com a imagem inicial, percebe-se que são distribuições diferentes.

Essa dificuldade de diferenciação se deve ao modo como diferenciávamos anteriormente os esquemas táticos dos times. Por anos, só falávamos que as equipes jogavam um 4–4–2 ou 3–5–2 mesmo apesar de distribuírem de forma diferente em campo. Assim como existe o 4–2–3–1, 4–1–4–1 e 4–3–2–1, por exemplo, quando o time joga com cinco jogadores no meio-de-campo, atualmente, o 3–5–2 é também dividido em 3–1–4–2, 3–4–1–2 e etc. São situações diferentes entre si apesar de parecidas.

Veja como o posicionamento acima do Goiás de 2005 é diferente do da Itália e do campinho tático acima. São diferentes, apesar de semelhantes.

Visto as diferenças de esquemas táticos, antigamente, quando uma equipe jogava com três zagueiros, a linha defensiva ou era formada com três jogadores, ou com um líbero e dois jogadores à sua frente. Veja, como exemplo da frase anterior, as situações do Atlético-PR campeão Brasileiro de 2001 e da Seleção Brasileira de 2002.

Veja onde está o zagueiro Rogério Corrêa em relação aos outros dois, Gustavo e Nem.
E aqui a mesma situação do que o Atlético-PR de 2001: Edmilson como líbero bem atrás de Lúcio e Roque Júnior.

Atualmente, analistas apontam que dificilmente um dos zagueiros de um trio de zagueiros irá voltar a atuar com a função de líbero, já que um líbero faz aumentar o campo de jogo da equipe adversária enquanto que a tendência atual é diminuir (veja o texto sobre essa diminuição proposital). Assim sendo, a atuação de um líbero estaria correndo na contra-mão do desenvolvimento dos sistemas defensivos.

Visto que dificilmente voltaremos a ter um líbero, já deu para desconfiar de que os esquemas atuais com três zagueiros se defendem de maneira diferente, não? E é isso mesmo! Hoje em dia, ao jogar com três zagueiros, as equipes se defendem em linha. E mais: com uma linha com cinco defensores!

Um dos motivos pelo qual a Itália voltou a ser vista com maior atenção seria a composição da linha defensiva com cinco defensores, como acima. Reparem que é muito diferente da composição dos defensores do Goiás de 2005, do Atlético-PR de 2001 e da Seleção Brasileira de 2002.

E uma linha com cinco jogadores permite com que qualquer um dos zagueiros possa sair na “caça” de um adversário e mesmo assim haverá a composição de uma linha de quatro na linha defensiva. Uma vez que o futebol atual procura ter uma linha de quatro seja qual for o esquema tático, vide o 4–1–4–1, a manutenção de uma linha defensiva com quatro defensores mantém uma alta consistência defensiva.

O México na Copa do Mundo de 2014 também atuou com um esquema com três zagueiros e se defendendo da maneira mais moderna. Veja como o zagueiro Rodríguez sai na “caça” de um atacante e, mesmo assim, há uma linha de quatro atrás dele.

Além disso, quando um dos alas sobe para “caçar” o extremo adversário que recuou para jogar, a manutenção de uma linha de quatro defensores somada com a flutuação defensiva desses geram outra alta consistência defensiva para equipe. Isso tudo graças à mudança de se defender com uma linha de cinco jogadores em vez de três como antigamente.

A Alemanha quando jogou contra a Itália pela Euro Copa de 2016 atuou com cinco defensores. Veja como o ala da direita avança, se alinha aos meio-campistas e, graças a flutuação defensiva dos outros quatro defensores, há uma linha de quatro que protegerá a subida de marcação do ala alemão.

Ao atacar, essas equipes que estão jogando com três zagueiros também estão apresentando um padrão realizado. Ofensivamente, os alas são os responsáveis pela amplitude e sobem até a linha defensiva adversária. O que isso gera de benefício? Oras, alarga-se a linha defensiva adversária e como os times com três zagueiros estão jogando com dois atacantes, qualquer bola enfiada em algum vão dos defensores adversários é quase gol.

Veja como são os alas quem geram amplitude e quem estão subindo até a linha defensiva adversária. Como há dois atacantes, a linha defensiva com quatro jogadores fica no mano a mano. É risco eminente de gol (imagem de @pitacodoguffo).

Obs: antigamente, quando se atuava com três zagueiros rapidamente vinha à cabeça de que o técnico quer dar “liberdade” ao lateral, o lateral passou a ser ala e o ala ataca pela diagonal, como na imagem abaixo do São Paulo de 2005. No entanto, ao vermos que atualmente quando uma equipe joga com três zagueiros, os alas têm “responsabilidade” defensiva para compor a linha de 5 e de que para atacar frequentemente são eles os responsáveis pela amplitude. Até a atuação dos alas está mudada.

O São Paulo de 2005 jogava com três zagueiros e os seus alas, Cicinho e Júnior, entravam na diagonal, como mostra na imagem acima. Com eles entrando, quaisquer outros jogadores abrem para gerar amplitude. No caso do flagrante do São Paulo, Mineiro é quem abre na direita.

Agora voltando ao funcionamento atual das equipes com três zagueiros. Como os alas são quem realizam a amplitude em ação ofensiva e estão se alinhando aos três zagueiros em ação defensiva, naturalmente nas transições eles demoram a chegar até onde devem estar no sistema ofensivo e defensivo da equipe. Alguns mecanismos táticos estão sendo usados por estes times que jogam com três zagueiros atualmente.

Ao perder a bola, é pressão no adversário com a bola com intuito de recuperá-la e, principalmente, de retardar o contra-ataque adversário para que os alas possam ter tempo de se alinhar aos três zagueiros da equipe e, assim, formar a linha de cinco atrás.
Ao recuperar a bola, o time acaba tendo que enrolar um pouco para que os alas possam ter tempo de avançar e gerar amplitude ofensiva lá na linha defensiva adversária. Normalmente, os contra-ataques dessas equipes com três zagueiros são escassos e quase não contam com os seus alas.

Após a Copa do Mundo de 2014, com praticamente os mesmos mecanismos nas fases de jogo com a bola rolando, algumas equipes brasileiras em 2014 jogaram com três zagueiros, como foram os casos do Coritiba de Marquinhos Santos e do Atlético-PR de Claudinei Oliveira. Naquele ano, foram poucos momentos, é verdade, mas o jeito de jogar era quase o mesmo.

Defensivamente, ao atuar com três zagueiros, o Atlético-PR de Claudinei Oliveira compunha uma linha de cinco defensores.
Ao atacar, o Coritiba de Marquinhos Santos subia com os alas ao mesmo tempo e bem abertos. Eles eram os responsáveis pela amplitude.

E agora estamos em 2016 após uma Euro Copa onde a Itália, País de Gales e um pouco a Alemanha reviveram esquemas com três zagueiros. Alguns técnicos brasileiros, como é caso de Milton Mendes, já declararam que estão treinando as suas equipes para jogar com três zagueiros. No caso do atual técnico do Santa Cruz, conforme ele mesmo disse nesta entrevista,a inspiração é na Itália da Euro de 2016. Estaremos diante de uma nova tendência de esquema tático e de funcionamento dos esquemas com três zagueiros? O pós Copa de 2014 disse que não. Enfim, só aguardando para ver.

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