Crescimento e Destruição: Palavras Inimigas

Há quase cinco décadas, o Centro-Oeste vem apresentando um dos melhores perfis de crescimento econômico do país. Isto se deu, por um lado, pela diversificação de sua base produtiva — diminui a participação do setor agropecuário e aumenta a dos setores de serviço e indústria –, desde 1960. Por outro, houve a ocupação de grandes áreas inóspitas devido à transferência da capital brasileira para Brasília, um dos impulsores do aumento populacional da região. Com exceção de períodos como o de estabilização do Plano Real, a economia do Centro-Oeste cresceu mais do que a nacional e, juntamente com ela — ou pelo menos assim deveria ser –, cresceu também uma preocupação: a sustentabilidade.

De acordo com o “1º Estudo ‘A Força do Centro-Oeste’”, realizado pela Price Watherhouse Coopers, prestadora de serviços de auditoria e assessoria tributária e empresarial, a preocupação dos executivos da região com o desenvolvimento sustentável é muito forte. 90% das 40 empresas consultadas na pesquisa disseram seguir os princípios básicos da sustentabilidade, o que é, infelizmente, um dado discrepante da realidade que acompanhamos dia após dia.

Na pesquisa, a utilização racional dos recursos hídricos ocupa o maior grau de importância para o empresariado, seguida do desmatamento. Todavia, dos mais de 2 milhões de km² de vegetação nativa do Cerrado, resta apenas 20% e estudos realizados, em 2004, pelos pesquisadores do Programa Cerrado, da ONG Conservação Internacional Brasil, indicam que o bioma corre o risco de desaparecer até 2030. A situação é alarmante: desmatam-se 3 milhões de hectares do Cerrado por ano. Pode isto ser considerado sinônimo de preocupação com um desenvolvimento sustentável?

Os executivos entrevistados no “1º Estudo ‘A Força do Centro-Oeste’”, entretanto, não se encontram em um mundo tão fantasioso. Para eles, como para tantos, a ação mais emergencial para a efetivação do desenvolvimento sustentável é a criação de uma legislação específica de proteção e utilização sustentável da biodiversidade. É preciso, também, que sejam firmadas parcerias entre o governo, ONGs e a iniciativa privada, traçando melhores formas de utilização das florestas e a criação de reservas e parques de proteção ambiental.

Nos anos de 1970 a 1995, o conjunto das despesas realizadas pelo governo federal na região Centro-Oeste foi maior que o total de receitas federais pagas pelos residentes da região ao governo central. Esta constatação, feita por Aristides Monteiro Neto e Gustavo Maia Gomes em texto divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), demonstra que o governo federal contribuiu diretamente para a expansão da demanda agregada e, portanto, para o crescimento da renda regional.

Se o intenso crescimento do Centro-Oeste foi devido, inclusive e em grande parte, à atuação do Estado na destinação direta de grandes volumes de recursos para a criação de infra-estrutura econômica e social e na indução do investimento privado, por que não destinar mais à proteção de 10.000 espécies de plantas, 199 de mamíferos, 837 de aves, 180 de répteis, 150 de anfíbios, 1.200 de peixes e 67.000 de invertebrados? Aquilo que cresce o faz para um patamar superior. Crescimento e destruição são, portanto, palavras que não devem andar de mãos dadas nos dicionários do povo, dos empresários ou do governo.